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Duas equipes, duas almas A Seleção voltou a jogar mal. E o que é pior: sem alma. A partida com o Chile me leva a propor ao leitor uma boa reflexão: por que será que a Seleção principal do Brasil tem sido tão sem graça, jogando sempre à meia-bomba, e a seleção olímpica, pelo menos até aqui, desde o pré, tem sido tão charmosa? O estilo da primeira é monocórdio, enfastiado, enquanto o da outra é sempre fluente; vibrante, quase sempre; consistente o tempo todo. Tenho pensado: talvez estejamos diante de mais uma lição que o esporte recolhe da vida. A turma do salto alto me passa como que o ar tedioso de quem já atravessou as grandes tormentas da vida. Estão todos já de vida ganha, galopando as glórias do futebol. Enfim, são os vitoriosos das batalhas da vida. Ninguém tem dúvida de que o triunfo, em qualquer campo, confunde-se com a felicidade. E a felicidade não é um meio, é um fim. Uma vez alcançada, a felicidade despeja a alma do homem no remanso da ociosidade. Daí pra frente, ele só quer sombra e água fresca. É precisamente o que me parece acontecer com a seleção principal do Brasil, formada por jogadores já canonizados pelo êxito. O homem feliz é um ser realizado; e um ser realizado, naturalmente, já não admite correr nenhum risco. Por que haveria eu de expor minhas ricas canelinhas se preciso tanto delas pra sair por aí, exibindo a minha opulência? Já os meninos da Seleção Olímpica, pra eles está apenas começando a grande aventura que é viver e, mais que tudo, sobreviver. Nenem Prancha, o singelo filósofo das arquibancadas do Botafogo, costumava despertar o espírito de luta dos garotos que, nos treinos de experiência, tentavam um lugar ao sol: Vocês têm que ir na bola como quem vai num prato de feijão! A rapaziada olímpica têm um grande desafio pela frente. Cada partida é, pra eles, um vasto prato de feijão. Ronaldinho, Geovani, Álvaro, Hélton enfim, todos ainda têm que matar um leão por dia. Roberto Carlos, ao contrário, já subiu no pódio alienante da glória e do dinheiro. É um nababo de fazer inveja à rainha de Sabá. Entra em campo, dá um totozinho, aqui, outro acolá. Findo o jogo, lá vem uma penca de microfones a cortejá-lo. Ele, então, tenta nos impingir a retórica furada do amor à camisa da seleção, símbolo da mãe-pátria e coisa e tal. São todos uns bons patuscos que bem merecem o gelo nacional. BASTA DE MEDALHÕES! A idéia de reforçar a seleção olímpica com três medalhões acaba de ser repudiada pela CBF. O comando político do futebol fez o que Wanderley Luxemburgo não teve peito de fazer. E fiquem certos de uma coisa, amigos leitores: daqui pra frente, a barra pode piorar. Mais um tropeço e muito figurão ainda cairá do galho. Aliás, desde o mundial de 98 que os medalhões vêm perdendo a confiança da opinião pública do futebol brasileiro. É, no mínimo, desconcertante a performance dessa seleção: uns correm, mas não pensam, outros pensam, mas não correm... O simples fato de nomeá-los estrangeiros não deixa de ser uma forma sútil que o povo encontrou pra discriminá-los. É como se o torcedor dissesse: esses já não são dos nossos; a pátria dos apátridas é o dinheiro, erva danada de que o homem acaba refém. Naturalmente, ninguém vai
interpretar a intervenção de Ricardo Teixiera como um
gesto de puro amor à Seleção. Teixeira repete o
ex-sogro: não morre de amores por futebol. O que o move,
neste momento, é o medo de perder a mina de ouro e poder
que reluz nas paredes da CBF. Ele sabe que a eliminação
do Brasil da Copa do Mundo há de lhe custar muito caro:
certamente, perderá as próximas eleições da CBF, e
mais certamente, ainda, os políticos, num surto de
demagogia, criarão uma CPI pra revolver os porões do
futebol; CPI que, até hoje, esbarra no lobby dos
cartolas. Até aqui, o poder supremo do futebol brasileiro está lhe dando força pra encostar à parede as sumidades da seleção. Da mesma forma, a CBF encampa a idéia de desprezar a prerrogativa de levar três estrangeiros na equipe olímpica. A rejeição vem da própria garotada. Por sinal que a medida me parece higiênica. Ainda assim, Wanderley Luxemburgo precisa, urgentemente, deixar de pensar que é Deus. Pra isso, o melhor remédio é tomar chá da humildade, toda noite, antes de dormir. Ele é um bom treinador, mas já são claros os sinais de soberba e prepotência nas manifestações pública do técnico. Curioso é, que, nesse momento, Wanderley encarna uma intrigante contradição: dirige duas seleções: uma que vai muito bem e outra que não vai nada bem. Quem puder que o decifre. RÁPIDAS E RASTEIRAS A equipe para-olímpica brasileira vai tirar de letra o fuso-horário australiano: os atletas fizeram uma proveitosa adaptação no Instituto do Sono, em São Paulo. Aliás, por onde passei, também, cuidando de ajustar o meu relógio biológico ao relógio cronológico de Sidney. Por uns dias, quem tem cuidado do meu sono é o professor Marco Túlio. ***** O Sportv fez um almoço de alta classe, no Espaço Laurent, em São Paulo, quando exibiu pros convidados um teipe sobre a programação do canal (38 e 39) durante os Jogos. Lá estavam, Paula e Fernanda Venturini, que serão comentaristas do Sportv em Sidney, no programa Tribuna Olímpica que me tocará conduzir, tendo ainda a participação de dois nomes ilustres: Júnior e Robson Caetano. Correspondências para "Na Grande órea": Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 -Rio de Janeiro - RJ - http://www.armandonogueira.com.br - E_MAIL: xapuri@armandonogueira.com.br |
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