
RUMO AO VOTO IV
Nossa
prioridade são os morros Uma
certeza a população do Recife pode ter, caso o
candidato a prefeito pela Frente Popular, Vicente André
Gomes, consiga se eleger: os morros serão a prioridade.
Isso não significa dizer, garante o ex-deputado e
médico cardiologista, de 46 anos, com base política em
Casa Amarela, que o Recife será invertido.
Temos propostas para a cidade como um todo,
tranqüiliza. Dentre elas, pretende reduzir o Imposto
Sobre Serviço (ISS), na condição do benefício ser
transformado em geração de emprego. O candidato
adianta, também, que não vai reprimir os camelõs, e
admite a ocupação disciplinada de ruas
centrais. Para as empresas de ônibus, anuncia: vai abrir
licitação para todas as linhas. Elas estão todas
vencidas, justifica. Vicente André Gomes revela,
ainda, que vai conviver com os kombeiros, e até
estimular a sua existência ordenada. Em
entrevista ao repórter Ayrton Maciel, o candidato da
coligação encabeçada pelo PDT informa que, de
imediato, pretende trabalhar com os menores de rua, que
considera a grande forjadora de criminosos. Nesse item
tem, porém, uma proposta estranha: a criação de
Unidades Móveis de Segurança das Avenidas, destinada a
combater a prostituição.
JORNAL DO
COMMERCIO Você sempre concorreu a cargos
legislativos. Por que agora quer ser prefeito do Recife?
VICENTE ANDRÉ GOMES Eu quero dar uma
contribuição de construção e de mudança, que tenha a
cara de um segmento que, talvez, as pessoas não vejam,
mas que está dentro de mim. Não dá mais pra conviver
com um Recife doente, sem família, sem organização
social, com violência. Quero dar uma contribuição na
habitação, na saúde, na prevenção contra a
violência. Quero contribuir naquilo que considero de
mais importante que é o sentimento do homem de ter uma
cidade que ame.
JC E para ter a cidade que você sonha,
quais as suas prioridades?
Vicente Vamos priorizar os morros. A base
de nossa candidatura é o atendimento da população
sofrida, miserável, que só é lembrada em época de
eleição. Eu convivo de janeiro a janeiro com esse povo,
sei quais são as suas mazelas, e quero fazer uma terapia
de choque. Não quero dizer com isso que o Recife vai ser
invertido. Há propostas para o Recife como um todo.
JC O que foi que Roberto Magalhães fez
que você não faria, e o que ele deixou de fazer e você
fará?
Vicente Não faria jamais a ponte Joaquim
Cardozo. Não digo que ela não será importante. Numa
dinâmica de tempo, ela pode até ter um papel
importante. Agora, eu não sacrificaria R$ 22 milhões,
quando temos outras prioridades sociais. Dr. Roberto
precisava ter feito mais por aquilo que não é visível
ou que não agrada às elites, e menos por coisas que se
ressaltam materialmente. Eu cuidaria da habitação, dos
morros, do saneamento e da educação. A ponte não seria
a minha grande obra.
JC Você tem duas propostas que precisam
ser melhor explicadas. Uma é a criação de uma espécie
de guarda volante contra a prostituição e a outra é a
criação de trens de tração em morros. Não há o
risco de idéias assim serem tomadas como anedotas?
Vicente No segundo Governo Leonel
Brizola, fui ao Rio de Janeiro conhecer o trem de
tração da favela Santa Marta. Em altos muito íngrimes,
há uma dificuldade de locomoção das pessoas. Nem os
ônibus querem ir. E lá estão idosos, gestantes e
deficientes físicos. A idéia é implantarmos um projeto
piloto no Recife para então avaliarmos. Em relação à
prostituição, quero dizer que não vou expor as
prostitutas. O que eu quero é criar a Unidade Móvel de
Segurança das Avenidas. O que é isso? Não é somente o
combate à prostituição, mas, em compensação, eu
também vou fazer isso. Por exemplo, a unidade da Avenida
Conselheiro Aguiar irá documentar os veículos que param
para abordar as prostitutas. Esse documento vai para o
Arquivo Municipal de Segurança. Se houver denúncias de
prostituição infantil, vamos pesquisar quem está
corrompendo; se houver acusação de estupro, temos a
documentação. Com isso, identificamos a placa.
Simultaneamente, faremos um trabalho social para
retirá-las da prostituição. Essas unidades poderão,
também, subsidiar a segurança contra assaltos.
JC Como a sua gestão poderá contribuir
na questão da segurança?
Vicente Não existe nenhum instrumento,
hoje, no Recife, que possa combater a violência, a não
ser os sistemas privados. O processo da violência está
na ponta do sistema, mas é preciso não cruzar os
braços. Precisamos, inicialmente, trabalhar com todos os
menores que estão nas ruas. Os menores que há quatro
anos estavam cheirando cola, com certeza, são os
assaltantes com 18 anos hoje. Essa é uma questão
imediata. A médio prazo será através da educação. A
longo prazo, só com um programa de formação da
sociedade como um todo.
JC O desemprego é um dos maiores
tormentos da sociedade atual. Como uma Prefeitura pode
colaborar para a geração do emprego?
Vicente O emprego tem de ser estimulado
dentro do capítulo da informalidade, mesclado com a
criação de mecanismos para diminuição de impostos. O
ISS do Recife, em alguns setores, é um dos mais caros. E
tem um alto índice de inadimplência. Se o reduzirmos
dentro de uma proposta de emprego, vamos estimular as
empresas a transformá-lo em vagas. Acho também que o
Recife tem de conviver com o camelô. Prefiro o camelô
ocupando algumas ruas do Recife que assaltando.
Evidentemente, a ocupação terá de ser ordenada.
JC Como a Prefeitura pode intervir no
trânsito do Recife, hoje numa situação caótica, com
muitos carros em em ruas estreitas e poucas avenidas?
Vicente Hoje, o pagamento das multas
notificadas no Recife vai para o Estado. Isso tem que
ficar sob o comando da Prefeitura. Com esse recurso,
vamos procurar meios para melhorar o transporte. Acho que
o trânsito é obstruído, primeiro, pela cidade que se
encontrar extremamente esburacada. Temos a proposta da
ecovia, que será uma alternativa para o fluxo do
trânsito da zona sul, e também a de priorizar o
transporte de massa, via canal Derby-Tacaruna,
interligando Boa Viagem a Olinda. A idéia é impedir o
fluxo de carros pequenos, favorecendo o coletivo.
JC Como a sua administração vai tratar a
questão dos kombeiros? Ordenar, reprimir ou
regulamentar?
Vicente Por formação, eu defendo
qualquer forma da dignidade do pão. Embora entenda que a
distorção da kombi é grave, enxergo o kombeiro como
uma alternativa informal de emprego. Ele existe,
basicamente, porque não temos um transporte coletivo à
altura. A kombi pega o povo na cidade e deixa no Alto
Treze de Maio, porque o cara passa 40 minutos esperando
um ônibus para subir. Nós vamos abrir licitação para
as questões permissionárias. As licitações estão
vencidas há muitos anos. Vou conviver com as kombis e,
se não puder dar jeito a isso, vou estimulá-las, dentro
de uma ordem no trânsito.
JC Em geral, o vice tem um papel
simbólico. Ao escolher um técnico para compor a chapa,
isso significa que ele vai ter papel atuante?
Vicente Procurei um engenheiro que possa
me ajudar a mudar a face do Recife, que contribua para a
construção de um Recife real, e não virtual. Um Recife
com uma cara igual para todos, uma cidade que será
tratada para ser menos desigual.
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