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Recifense cobra mais obras de saneamento

por Ciara Carvalho

Apenas 30% do Recife possui rede coletora de esgoto e mais de 70% das residências jogam seus dejetos direta ou indiretamente nos rios e canais, sem que haja um tratamento adequado. Uma realidade que não fica restrita só às áreas pobres da cidade. Bairros de classe média, como Apipucos e Cidade Universitária, sofrem do mesmo problema. Tanto que o saneamento público aparece em quarto lugar entre as maiores preocupações do recifense, segundo pesquisa feita pela Arconsult. É uma situação que se agrava pela histórica falta de investimentos no setor: as últimas obras de peso em saneamento realizadas no Recife remontam ao início da década de 70. Essa é a quarta reportagem da série Retratos do Recife, que já abordou a questão do desemprego, da segurança e da saúde pública.

O próximo prefeito do Recife terá que propor as ações de saneamento público partindo de um mesmo princípio: o de que as soluções para o problema de esgoto, água encanada, lixo e drenagem não podem ser pensadas voltando-se apenas para dentro da cidade. Embora seja responsabilidade constitucional do município, essa é uma questão que tem repercussão em toda a região metropolitana. E, portanto, deve ser planejada de forma regional. Primeiro porque o volume de recursos extrapola a capacidade de investimento da prefeitura. Seriam necessários cerca de R$ 300 milhões para deixar o Recife 100% saneado. Segundo porque a infra-estrutura, sobretudo de esgoto e abastecimento d’água, é montada numa lógica que não obedece aos limites municipais.

O presidente da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), Gustavo Sampaio, afirma que os municípios nunca tiveram condições econômicas de investir e operar uma rede de esgoto de grande porte capaz de atender à demanda da população. Por isso mesmo, assim como o Recife, a maioria das cidades em Pernambuco faz uma concessão para que os serviços de saneamento sejam administrados pelo Estado, que possui um poder de investimento muito maior.

Se a rede convencional é cara demais para o município bancar, o empresário José Carlos Melo aponta como alternativa a implantação dos esgotos condominiais. “Além de mais barato, o sistema tem maior qualidade. A prova disso é que a rede condominial foi implantada, com sucesso, em Brasília e Salvador”, observa. No caso do Recife, se dependesse apenas do sistema convencional, a cobertura da rede coletora de esgoto da cidade estaria em torno de 14% apenas. Atualmente, existem 55 microssistemas de esgoto do tipo condominial implantados na cidade, em bairros como Mustardinha, Mangueira e Engenho do Meio.

O diretor executivo de Programas Regionais da Secretaria Estadual de Planejamento, Roberto Salomão, explica que a falta de esgoto é apenas uma parte do problema. À frente de um estudo sobre gerenciamento de esgoto e drenagem pluvial da Região Metropolitana do Recife, realizado em conjunto com a Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica), ele afirma que 70% do material orgânico jogado, por dia, no Rio Beberibe não recebe nenhum tipo de tratamento.

Diferente da rede de esgoto, mais de 90% dos recifenses possuem água encanada em casa. O que falta é oferta de água para abastecer toda a cidade. Problema que só será resolvido com a conclusão da Barragem de Pirapama, uma obra que, pelo alcance e quantidade de investimento exigido, tem que ser assumida pelos governos estadual e federal.

O professor de engenharia da Universidade Federal de Pernambuco, Mariano Aragão, avalia, no entanto, que o município também pode contribuir para a redução do racionamento, incentivando campanhas contra o desperdício de água. “Cerca de 40% da oferta produzida termina se perdendo. A prefeitura pode levar o problema para as escolas e associações comunitárias, desenvolvendo um grande programa de combate ao desperdício”, sugere.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.08.2000
Domingo