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MISSÕES IV Ruínas são tesouro mundial Símbolo da era missioneira no Sul do Brasil, as ruínas da Igreja de São Miguel são reconhecidas pela Unesco como patrimônio da humanidade. O justíssimo título, concedido em 1983, comprova o valor histórico de uma das mais importantes atrações turísticas brasileiras. Ironicamente, o lugar permanece no anonimato fora das fronteiras gaúchas. Mas tem tudo para deslanchar no futuro, já que o Governo do Rio Grande do Sul, junto com a Argentina, o Paraguai e o Uruguai, criou o Circuito Internacional das Missões, que abrange a vasta área antes ocupada pela Província Jesuítica do Paraguai e hoje dividida entre os quatro países integrantes do Mercosul. As ruínas de São Miguel situam-se a 62 quilômetros de Santo Ângelo e são o carro-chefe da rota missioneira no Brasil. Trata-se do único sítio arqueológico dos Sete Povos com parte da antiga redução preservada. A construção da igreja teve início por volta de 1700, mas documentos da Companhia de Jesus mostram não se tratar do templo tombado pela Unesco. Este, data de 1717. Na verdade, não se sabe ao certo se o prédio foi reconstruído ou simplesmente ampliado. Do glorioso passado, quando o lugar chegou a ter quase cinco mil moradores, restaram apenas parte da estrutura da igreja e um amontoado de pedras usadas na construção das demais edificações que caracterizavam esses vilarejos, como as residências dos padres e dos índios, o colégio, as oficinas, o cemitério, o cotiguaçu (lar das viúvas e órfãos) e o cabildo, uma espécie de conselho formado pelo cacique e outras lideranças indígenas, além dos religiosos, obviamente. O templo (leia-se as paredes laterais, a nave, a torre e o pórtico) está relativamente bem cuidado, mas merece uma atenção maior por parte dos órgãos oficiais encarregados da preservação da memória nacional. Andaimes utilizados no minucioso trabalho de conservação do monumento agridem a bela paisagem de cartão postal, e muitos já estão enferrujados pela ação do tempo, fazendo o local parecer um canteiro de obras inacabado. Ao lado das ruínas, situa-se o Museu das Missões, projetado em 1940 pelo urbanista Lúcio Costa, o mesmo que ajudou a criar Brasília 20 anos mais tarde. Com traços arquitetônicos inspirados nas antigas habitações indígenas das reduções, o museu guarda uma valiosíssima coleção de imagens sacras esculpidas, pasme, pelos próprios guaranis. RESGATE São quase 100 peças barrocas de formatos diversos, com feições de santos e passagens bíblicas. O acervo foi praticamente resgatado por João Hugo Machado, antigo guardião do sítio histórico e hoje uma lenda viva na região. Na praça em frente ao templo, ergue-se a cruz missioneira, um dos mais intrigantes monumentos de São Miguel das Missões. Com quatro braços, o monumento tem passado incerto. Documentos indicam que foi colocado nas ruínas na década de 20, podendo ter pertencido ou não àquela redução. A origem mais provável da cruz, entretanto, seria a Espanha, de onde teria vindo no escudo de algum conquistador. Como os guaranis eram exímios copiadores, talvez esteja aí a chave para o enigma. As atrações turísticas de São Miguel não se encerram após o pôr-do-sol, como é de se esperar quando se visita um sítio arqueológico. Ao contrário. É justamente ao cair da noite que o público é convidado a mergulhar literalmente no tempo, durante o espetáculo Som e Luz. Trata-se de uma bela produção sobre a epopéia jesuítico-guarani, numa combinação perfeita de vozes, fundo musical e sofisticado jogo de iluminação, que parece ressuscitar a antiga redução. É um show de rara beleza, pouco comum em terras tupininquis e digno de calorosos aplausos, mesmo sem qualquer figurante em cena. DESCOBERTA - Fora dos limites do sítio histórico, há outras atrações que não podem ficar de fora do tour. Uma delas é a fonte missioneira, encontrada em 1982 por moradores da atual cidade de São Miguel das Missões, a um quilômetro das ruínas. Com essa descoberta, historiadores desvendaram o mistério do abastecimento dágua da antiga redução. Apesar de sua importância, o achado está necessitando de reparos urgentes: a água já não serve mais para o consumo humano e a área ao redor foi tomada pelo mato. A poucos metros da fonte, há uma pequena reserva indígena, onde o forasteiro pode ter um contato direto com os guaranis. Numerosos no passado, eles formam apenas 38 famílias e vivem como pedintes, à espera de um pedaço de terra onde possam plantar, cuidar dos filhos e preservar o pouco do que restou de uma grandiosa cultura. De pele escura, cabelos pretos e escorridos, os guaranis de São Miguel falam a língua nativa e dão exemplo de humildade. (A.G.) |
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