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ARTES CÊNICAS O Anjo Pornográfico redivivo Nelson Rodrigues recebe homenagem do filho nos 20 anos de sua morte, com adaptações de textos de A Vida como Ela É POR JANAÍNA LIMA Amanhã completa-se 20 anos de morte do dramaturgo Nelson Rodrigues. Ou melhor: são duas décadas do descobrimento de Nelson Rodrigues, jornalista pernambucano, considerado o precursor do teatro moderno no Brasil. Na época da sua morte, nos anos 80, Nelson Rodrigues nem de perto era o autor festejado que é hoje. Suas peças mantinham o rótulo de desagradáveis, designação inventada pelo próprio escritor, e além de serem perseguidas pela censura, eram desaprovadas pela intelectualidade da época, à exceção do conterrâneo Manuel Bandeira (motivo de grande orgulho para o dramaturgo). Era um tiroteio só, do qual não havia escapatória, a não ser o limbo. Neste último ano do século 20, no entanto, a história é outra. Só em 2000, as histórias desagradáveis do anjo pornográfico receberam pelo menos 16 montagens distintas, uma delas, inclusive, que estréia hoje, às 21h, no novíssimo Teatro Santa Isabel. Momentos - Beijos de Nelson Rodrigues tem direção de Nelson Rodrigues Filho e traz no elenco Cristiane Rodrigues, 21 anos, neta do jornalista. Nelson Falcão Rodrigues nasceu em Recife, em 23 de agosto de 1912. Por aqui, Nelson viveu apenas sua primeira infância, até os quatro anos, quando viajou com toda a família para o Rio de Janeiro, onde viveu o resto da vida. A cidade natal foi visitada apenas poucas vezes pelo escritor, em viagem de férias. Mesmo assim, as lembranças do Recife estão presentes em algumas obras, em especial na peça Senhora dos Afogados. A paixão pelo jornalismo era coisa de família: o pai, Mário Rodrigues, começou escrevendo no extinto Jornal da República, e depois, já no Rio de Janeiro, passou por muitas empresas, até ter o seu próprio jornal: A Manhã, e posteriormente, o controvertido Crítica. Foi na redação de ambos os vespertinos que fizeram escola Nelson e seus irmãos Mário Filho (famoso jornalista esportivo e patrono do Maracanã, oficialmente chamado de Estádio Mário Filho), Jofre (irmão mais moço de Nelson, falecido precocemente devido a tuberculose) e Roberto (artista plástico, assassinado na própria redação do jornal. A vida do autor foi marcada então pela rotina diária de ter que narrar os fatos mais escabrosos do cotidiano carioca, até mesmo porque começou a carreira como repórter policial. Nada mais natural que anos mais tarde, o gosto pela escrita de crimes e brigas de marido e mulher (assuntos recorrentes das páginas policiais de outrora, e ainda hoje), ao lado dos dramas pessoais enfrentados pelos Rodrigues virasse literatura ficcional. Antes de fazer sucesso no teatro, no entanto, Nelson Rodrigues ganhou fama como autor de romances, geralmente escritos capítulo por capítulo nas páginas dos jornais, a exemplo de Meu Destino é Pecar, assinado sob o pseudônimo de Suzana Flag. Graças as aventuras amorosas dessas personagens imaginárias, o autor reforçava a renda familiar e os jornais esgotavam suas edições, especialmente nos últimos capítulos das histórias. DRAMATURGIA - Nelson Rodrigues escreveu 17 peças. A primeira delas foi A Mulher Sem Pecado, apresentada recentemente no Recife, quando na ocasião da reabertura do Teatro do Parque, em setembro. Na época, Elza, esposa do escritor, estava grávida do primeiro filho, que viria se chamar Jofre, em homenagem ao irmão. A opção pelo teatro, nesse caso, era uma tentativa de conseguir uns trocados a mais, já que na época, as chanchadas rendiam os tubos. Partiu então, Nelson para escrever a sua primeira chanchada, que nuca saiu. A Mulher Sem Pecado virou uma história ácida, de um marido que fingia ser paralítico para testar a fidelidade da esposa. Talvez resultado das lembranças das crises de ciúme do seu pai, pela mulher, Maria Esther. Apesar de não ser considerada pelos críticos um dos melhores textos rodriguianos, A Mulher Sem Pecado já traz algumas das características que viriam a marcar toda a obra de Nelson Rodrigues, como os temas relacionados ao adultério e os dilemas psicológicos dos personagens. O êxito teatral só veio na segunda peça: Vestido de Noiva (1943). A clássica montagem dirigida por Ziembinski e um dos marcos da dramaturgia nacional. A ela se seguiram: Álbum de Família (1946), Anjo Negro (1947), Senhora dos Afogados (1947), Dorotéia (1949), Valsa Nº 6 (1951), A Falecida (1953), Perdoa-me Por Me Traíres (1957), Viúva, Porém Honesta (1957), Os Sete Gatinhos (1958), Boca de Ouro (1959), Beijo no Asfalto (1960), Otto Lara Resende ou Bonitinha Mas Ordinária (1962), Toda Nudez Será Castigada (1965), Anti-Nelson Rodrigues (1973) e A Serpente (1978). |
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