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ARTES CÊNICAS V
Realidade supera tudo o que ele imaginou

POR KLEBER MENDONÇA FILHO

O fator escandalizante da obra de Nelson Rodrigues pode não existir mais nos dias de hoje, principalmente porque muito do que ele criou no seu formato distintamente amoral de pensar parece ter sido suplantado em praticamente todos os níveis da sociedade brasileira real, nas últimas décadas. O Brasil e sua mecânica política e social têm contornos nitidamente rodrigueanos.

Impossível ouvir políticos de peso no país sugerindo que homens “estuprem, mas não matem” ou ver garotinhas de sete anos de idade dançando nas boquinhas de garrafas sem lembrar de Nelson Rodrigues. No cinema brasileiro, esse formato rodrigueano de pensamento recebeu tratamentos adequados às épocas nas quais os filmes foram feitos.

A última adaptação de Nelson Rodrigues para o cinema, por exemplo, Traição (1998), parecia mais interessada no teor ‘nostálgico’ e ‘glamouroso’ de histórias cariocas do passado do que exatamente na exposição de contradições do pensamento brasileiro tão presentes no universo rodrigueano.

Traição, feito pela Conspiração Filmes por uma trinca de diretores jovens formados na escola da publicidade e do videoclipe e, aparentemente, fascinados com Rodrigues, realmente contrasta com crônicas talvez mais próximas de algo que Rodrigues havia pensado, como Boca de Ouro (1962, refilmado em 1989), de Nelson Pereira dos Santos, adaptação da peça sobre um bicheiro (Jece Valadão) que resultou numa crônica policial inesquecível, um estudo em mecânica social brasileira que permanece atual.

O interesse do cinema brasileiro na obra de Rodrigues, no entanto, não parece ter sido guiado pela preocupação social. O teor controverso, ousado, dotado de taras e perversões era material perfeito para uma época (anos 60 e 70) em que regras e tabus do que se via nas telas caíam constantemente.

Bonitinha Mas Ordinária (1962, refilmado com todo o sexo e violência que 1980 permitia por Braz Chediak, com Lucélia Santos e Vera Fischer) deu início a esse intere$$e, seguido pelo ótimo Asfalto Selvagem (1963), de JB Tanko. Esta trama de incesto entre irmãos foi proibida para menores de 21 anos, na época. Depois do Golpe Militar de 64, o filme foi recolhido e sua exibição proibida. Filme foi um sucesso de público.

Seguiu-se O Beijo (1964, adaptação de O Beijo no Asfalto, refilmado em 1983), A Falecida (1965), de Leon Hirzman, e Engraçadinha Depois dos 30 (1965), de JB Tanko, continuação de Asfalto Selvagem. De todas essas adaptações, duas merecem especial destaque pelo impacto que causaram num época em que o tom controvertido de obras sexualizadas (liberadas) ganhavam postura ‘liberal’ do governo militar e da censura, se comparado ao tratamento dado a filmes politizados (cortadas ou interditadas): Toda Nudez Será Castigada (1972), de Arnaldo Jabor, e A Dama do Lotação (1978), de Neville D’Almeida.

O primeiro, com Darlene Glória, é a adaptação da peça que escandalizou o Rio dos anos 50, transformada em talvez o melhor filme da carreira de Jabor. Uma tragédia envolvendo uma prostituta, culpa, sodomia e suicídio. O segundo filme pode ser visto como produto perfeito de uma época em que o cinema brasileiro levava sexo a milhões através das pornochanchadas, um dos gêneros mais populares do cinema feito no país. Sônia Braga é a mulher frígida que não sente prazer com o marido, mas transforma-se numa fogosa passageira de ônibus, de onde parte para entregar-se por completo a desconhecidos.

Visto hoje, fora do contexto ‘vale tudo’ dos anos 70, filme funciona mais como uma curiosidade de época, um pornô trash que tem a marca não de Rodrigues, mas deste autor chamado Neville D’Almeida. Na época, A Dama do Lotação certamente fez mais sentido. Permanece a segunda maior bilheteria da história do cinema brasileiro (oito milhões de espectadores), atrás de Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), visto por 11 milhões.

A adaptação de três contos em Traição (O Primeiro Pecado, Diabólica, Cachorro!) também reflete tempos atuais mas que, curiosamente, não nos apresentam a real atualidade dos textos e idéias de Rodrigues. Traição é um divertido exercício em técnica, com especial ênfase no fator lúdico de se adaptar Rodrigues, mas pouco mais que isso. O cinema brasileiro precisa voltar e filmá-lo, numa época em que, outra vez, como num ciclo, ousadias são cada vez mais esparsas, especialmente no Cinema Nacional.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.12.2000
Quarta-feira