A aposentada Maria do Rosário Sales, 52 anos, pode ser definida como uma verdadeira ‘rocha’. Mesmo com a dor sentida pela perda de uma filha, um neto, uma irmã e um sobrinho, foi ela quem esteve à frente da complicada liberação dos corpos no Instituto de Medicina Legal. “Minha força vem de Deus. Quem tem ele, agüenta qualquer dor. Só ele sabe o que estou sentindo”. Além disso, Maria do Rosário perdeu há um mês o sobrinho afogado e, há um ano atrás, o marido faleceu.
JORNAL DO COMMERCIO - Sua família costumava viajar em veículos que fazem lotação de passageiros?
MARIA DO ROSÁRIO - De vez em quando. Quase sempre viajamos de ônibus, mas, às vezes, pegamos as lotações porque é mais rápido. Deve ter sido esse o motivo que fez minha filha (Paula Adriana) voltar para casa num veículo desses.
JC - As visitas ao Recife eram freqüentes?
MARIA DO ROSÁRIO - Mais ou menos. Dessa vez nos reunimos para a formatura do ABC da minha neta. Eu trouxe Paula Adriana e meu neto (Jefferson Rafael) na sexta-feira e voltei. O resto do pessoal já estava aqui. Minha irmã (Zélia) estava morando na casa da filha, aqui no Recife, junto com o filho, Antônio Joaquim, mas justamente na segunda-feira ela decidiu voltar para Ribeirão. Paula veio com ela e todos foram para a Ceasa, onde apanharam o ônibus. Só que no lugar de pegar um coletivo, resolveram vir na lotação. Eu ainda falei com Paula pela manhã. Foi a última vez.
JC - Testemunhas do acidente denunciaram que o motorista do caminhão tinha bebido e teria sido o principal causador da colisão. A senhora sente raiva por isso?
MARIA DO ROSÁRIO - Foi uma grande imprudência e irresponsabilidade do motorista do caminhão, pelo que eu sei. Agora, como é que eu posso sentir raiva de uma pessoa que não conheço? Devem existir culpados nessa tragédia, mas ninguém morre antes do dia. As pessoas já nascem com isso certo. Está predestinado.
JC - A senhora tem transmitido muita força, mesmo diante de uma tragédia como a que aconteceu com sua família. De onde está tirando tanta serenidade?
MARIA DO ROSÁRIO - De Deus. Quem tem ele agüenta qualquer dor. Suporta tudo. Só Deus sabe o que estou passando e é com ele que vou me agarrar para continuar vivendo. Há um mês perdi um sobrinho afogado e, há um ano atrás, foi a vez do meu marido. Sei que preciso continuar vivendo.