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ECOLOGIA
Fragmentação da mata ameaça acabar com cutias e jatobás

Esses roedores, responsáveis pela dispersão das sementes de jatobá, estão sendo caçados excessivamente, o que impede a renovação natural das árvores nas ‘ilhas’ de mata atlântica

CAMPINAS – O jatobá, uma das árvores mais altas e majestosas da mata atlântica, está sob dupla ameaça. Além de sofrer com a exploração madeireira, agora enfrenta a fragmentação florestal. E o problema é a intervenção do homem na estreita relação entre a renovação natural do jatobá e alguns dos animais que se alimentam de seus frutos, como a cutia. Uma relação muito especializada, que assegurou a evolução e a sobrevivência das árvores e dos animais até hoje, mas agora os coloca em risco.

Os efeitos da fragmentação florestal sobre espécies da mata atlântica e a relação com os animais dispersores de sementes vem sendo estudados desde 1992 pelo Grupo de Pesquisa de Fenologia de Plantas e Dispersão de Sementes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), sob coordenação de Mauro Galetti. O trabalho é feito no Parque Estadual Intervales, no Vale do Ribeira (SP).

A vegetação e a fauna silvestre estão cada vez mais ilhados entre cidades, lavouras, estradas e pastagens e há uma relação perversa entre o tamanho destas ilhas (ou fragmentos florestais) e a sobrevivência de longo prazo das espécies. “Nos fragmentos abaixo de 400 hectares, por exemplo, as antas já sumiram, porque não conseguem abrigo e alimento suficiente”, diz Mauro. E começam a desaparecer as cutias, porque são excessivamente caçadas, pelo homem ou por cães.

Sem antas nem cutias não há dispersão das sementes do jatobá. E, por isso, a espécie está representada unicamente pelas árvores adultas, sem renovação natural. Quando estas árvores adultas morrerem ou forem derrubadas, o jatobá estará localmente extinto.

Ao contrário de um grande número de roedores, que só preda os frutos e sementes nativos, a cutia faz estoques, enterrando as sementes em vários locais. Cerca de 80% das sementes enterradas são recuperadas em épocas de seca, quando o alimento é menos farto. Mas os 20% esquecidos germinam e garantem a sobrevivência de longo prazo daquelas espécies de árvore. “As sementes que caem e não são enterradas pela cutia estão mais sujeitas à predação de outros roedores e, mesmo quando germinam, não conseguem competir com a árvore-mãe por luz e nutrientes do solo”, acrescenta o pesquisador.

A porcentagem de árvores que dependem de animais para dispersão de suas sementes, nos fragmentos de Mata Atlântica, pode variar de 50 a 90%. “Para conseguir a regeneração de uma mata ou de uma área predada é preciso entender seu sistema ecológico, pesquisando quais animais carregam quais sementes e onde as depositam”, adverte Galetti. Não adianta apenas replantar as árvores derrubadas. É necessário conservar também estes animais, que garantem a germinação.

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Jornal do Commercio
Recife - 19.12.2000
Terça-feira