Muita gente usa a reunião natalina para discutir velhos problemas ou mesmo passar a limpo uma mágoa que não foi resolvida. O melhor é deixar os briguentos em casa
Para a psicanalista Alice Bittencourt as disputas ou as brigas típicas do Natal são usadas como um termômetro para medir o amor e o afeto da família. As pessoas aproveitam a data, segundo ela, para fazerem um balanço dos vínculos estabelecidos com os mais próximos.
“Por ser uma festa de família, sentimentos poderosos vêm à tona nesta época. Como a infância que se quis ter e não se teve. E as dores de um passado familiar que nem sempre foi tão doce voltam a ser vividas com intensidade”, diz.
Alice diz que, no balanço típico do Natal e do final de ano, ficam mais evidentes os conflitos familiares, as competições, os ciúmes, as feridas que nunca foram cicatrizadas:
“Cada um desses conflitos vai se processar de maneira diferente para cada um da família. Uns revivem faltas, perdas e separações e podem ficar tristes. Outros vão brigar pelo local da festa, pela divisão de tarefas, pelos presentes. O Natal ganha uma dimensão emocional muito maior do que uma simples festa”, comenta a psicanalista.
CRIANÇAS REALISTAS – Se alguns adultos valorizam o Natal, imaginando-o em dimensão exagerada, muito além de uma saudável reunião familiar, as crianças de hoje deram à festa e ao Papai Noel imagens muito mais próximas da realidade, segundo o psiquiatra infantil Alfredo Castro Neto.
“O que vejo nos desenhos de meus pacientes de hoje são figuras do Papai Noel desempregado, ou seja, muito mais próximas da realidade do que as imagens de alguns anos atrás, quando o Natal e o Papai Noel eram respeitados pela criança como algo quase sagrado. O Natal era visto com muita seriedade e respeito. Hoje recebo desenhos até de Papai Noel que fica doente e uma Mamãe Noel surge para levar os presentes das crianças. É a realidade dos pais ausentes, de filhos de pais separados. O Natal para as crianças está mais integrado à sua realidade, enquanto que, para muitos adultos, tem ainda as proporções de fantasias infantis”, comenta.
Para Castro Neto, o Natal, que significa uma trégua nos conflitos familiares, um momento de relaxamento e paz, pode se transformar, para adultos e crianças, num momento de manifestação de transtornos psíquicas, às vezes bem distantes da realidade. É o momento ideal para que os 6% de brasileiros que sofrem de distimias (surtos agudos de mau humor) enfrentem novas crises:
“Há pessoas que sofrem de distúrbios graves de humor porque revivem emoções antigas e precipitam situações que fazem do Natal uma festa estressante. Ficam de mau humor, odeiam a festa, reclamam de tudo e irritam o resto da família. Há os que tentam resolver tudo, aceitam o papel de controlar e produzir a festa sozinho. Recebem a responsabilidade total pelo Natal. Eu recomendo que as pessoas encarem a festa como uma reunião natural, aproveitando os encontros afetivos, sem expectativas exageradas”, diz Castro Neto.
Foi o que fez a professora Marilda Ramos, cansada de ter que apaziguar os ânimos da mãe e das irmãs todos os anos:
“Este ano decidi não gastar minhas energias à toa. Minha irmã acha tudo insuportável. Não gosta da festa, da família, nem de dar presentes. Parece que fica doente nesta época. Minha mãe aceita fazer a ceia, mas exige que tudo seja de um preço que ninguém pode pagar, inclusive com diaristas para servir e arrumar a casa no dia seguinte. Ou seja, quer dificultar o Natal. Este ano a festa é lá em casa. Quem quiser ir, ótimo; quem não quiser, melhor ainda. Estou me sentindo até mais leve, só de me livrar desse estresse prévio”, conta.
EUFORIA E DEPRESSÃO – Outro motivo de estresse é a lembrança dos Natais do passado. Alice Bittencourt recomenda que ninguém vá à festa com a memória do Natal passado ou de outros que foram negativos, que suscitaram discussões e acusações entre a família. A receita da psicanalista é que cada família entre no clima do aqui e agora. Do contrário, é melhor não ir à reunião, o que pode ser uma decisão saudável.
“Antes de confirmar presença, é bom se perguntar por que está indo e se está se sentindo bem para ir ao encontro da família. Se a resposta for satisfatória, deve ir. Se não, deve resguardar a si e aos outros”.
O estado de euforia do Natal pode não significar alegria, mas carência afetiva. Alice cita o exemplo de duas pacientes que compram roupas novas e entram num estado de exagerada animação.
“Elas vivem da esperança de serem aprovadas por sua platéia especial, a família. Precisam desse afeto”.