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Tragédia urbana por Fátima Quintas* As notícias de violência proliferam. Os jornais estampam manchetes assustadoras. As palavras sangram, tal a truculência de um Recife entregue à marginalidade. Sair de casa representa uma aventura de alto risco. À luz do sol ou à sombra da lua, os perigos se equivalem. Melhor aprisionar-se no claustro doméstico e acreditar numa proteção que já não existe. Para onde ir? Talvez a Pasárgada de Bandeira simbolize a única saída metaforicamente segura, tão segura que consubstancia apenas a imagística de um poeta em pleno vôo criativo. A realidade é outra, diametralmente oposta. Enquanto os meios de comunicação rádio, televisão, jornais narram os fatos, a sensação é a de que somos meros espectadores de um palco soberbo e iluminado por tochas de assombração. Afinal, estamos sentados na poltrona assistindo a uma débâcle civilizatória supostamente distante das nossas rotineiras pegadas. Num rápido ilusionismo, a tela mostra um filme de bangue-bangue, semelhante a tantos outros interpretados pelos nossos ídolos do cinema. Até aí, somos imunes ao que se passa do lado de lá. Eis que, de repente, a violência chega perto, aproxima-se, perfura a fictícia molécula de proteção, e extrapola as demarcações ingenuamente traçadas pela dúctil imaginação. Nesses últimos 15 dias, senti na pele o choque da truculência: o pai de um colega de turma de meu filho foi assassinado em frente a um colégio, em Casa Forte, ao apanhar seu filho no portão central da escola; uma amiga teve sua bolsa, celular, relógio, pulseira roubados em rua movimentada de bairro de classe média; outra, entregou o carro desnorteada, após ameaças à sua integridade física; ao escapar de um assalto na Av. Domingos Ferreira, eu própria tive meu carro baleado... E assim por diante. A seqüência dos fatos começa a se tornar corriqueira, e os indefesos convivem com uma população armada, pronta para detonar instintos selvagens. A guerra está nas ruas, defronte da nossa vista, sem o menor sinal de consternação. Urge reavaliar a sociedade na qual vivemos. Por que as autoridades não implementam um programa ostensivo de segurança? Aguardar o quê? É chegada a hora de enfrentar com a máxima seriedade uma anomalia que há muito vem abalando o cotidiano dos indivíduos. Sabe-se que a violência não deriva de uma única causa. E, sim, de um conjunto de fatores que se interligam numa rede de difícil solução. Entretanto, não se pode cruzar os braços e aceitar o caos social como resultado de uma constrangedora abulia política. O relatório da Unesco aponta o Recife como a cidade mais violenta do país. Não sei se o retrato quantitativo confere fielmente à tragédia urbana. Se os dados se ajustam, teremos mais um troféu indigno a ostentar. Pouco importa a indesejada hierarquia. As estatísticas estão aquém das ocorrências. Os números acabam por dizer bem menos do que a real fotografia de um quadro aterrorizador. O Recife vive a cultura da morte. Um contra-senso que dói. A vida não tem o menor valor. Mata-se por matar. A cultura da vida se esgueira timidamente quase a pedir licença para subsistir. O redemoinho da insensatez, da corrupção, da impunidade galga degraus vitoriosos, através de uma linguagem fecunda em suculentos casuísmos e detestáveis eufemismos. Uma situação vergonhosa que macula o ethos de um povo considerado cordial. O Brasil perde a ética e se afoga entre os labirintos da barbárie. Triste concluir que somos meros fantoches num paíse sem norte. * Fátima Quintas é escritora. E-mail: quintas@fundaj.gov.br |
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