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GENTE DE ESPORTES
Um quase cidadão português

por Lenivaldo Aragão
Editor de Esportes

Uma cena bem recente, ocorrida em pleno centro de Guimarães, cidade situada ao norte de Portugal, massageou o ego de um pernambucano de Ferreiros, ex-jogador de futebol, que muito contribuiu para a alegria da gente do lugar.

Ao vê-lo andando pela rua, um mendigo foi ao seu encontro, falando em voz alta sobre sua gloriosa passagem pelo clube da cidade, o conhecido Vitória de Guimarães. Lógico, o pedinte não perdeu a oportunidade (“dê-me algumas coroas”), mas a satisfação de ser reconhecido por uma pessoa tão simples, tão do povo, pesou fundo no coração do visitante. Visitante? Não tanto.

Embora afastado daquela paisagem havia algum tempo, uma vez que depois de uma longa estada em Portugal, voltara de vez ao Brasil, o cidadão em questão não se sente um forasteiro quando pisa aquele torrão, mas uma pessoa absolutamente integrada aos hábitos e costumes vimaranenses. Os sinais dessa empatia surgem sempre que Nivaldo vai a Guimarães. “Não, Nivaldo, tu não vais levar deste. Vou mandar buscar em casa o que reservei para meu consumo”, disse-lhe o proprietário de um supermercado, vendo-o escolher algumas peças de bacalhau (o cobiçado bacalhau português) para trazer para o Recife.

CARREIRA VITORIOSA – Nivaldo Gomes da Silva, um jogador revelado pelo Sport, que passou depois pela Portuguesa Santista e pelo Cruzeiro, no Brasil; Vitória de Guimarães, Benfica, Portimonense e União de Leiria, em Portugal, familiarizou-se tanto com o Vitória de Guimarães, que passou a ser uma espécie de consultor a distância para contratações de jogadores no lado de cá do Atlântico.

“Como tenho um grande conhecimento e muita credibilidade lá, pois joguei doze anos em Portugal, eles me procuram”, salienta Nivaldo, dono de uma agência de turismo – a SNA Turismo –, que toca com a mulher, Ana Rita, em Boa Viagem.

Se dependesse dos dirigentes do Vitória, talvez Nivaldo ainda hoje estivesse em outra.

“Quiseram que passasse a ser treinador, achando que eu tinha um perfil excelente para a função, mas o cargo nunca me seduziu”, diz Nivaldo, 42 anos, que vê naquele clube luso sua segunda casa.

Aliás, a carreira de jogador poderia ter sido prolongada, se Nivaldo se mostrasse disposto a desafiar o tempo. “Parei ‘inteiro’, com 33 anos”, salienta.

Quando estava no auge, jogando pelo Benfica, um dos três grandes do futebol portuguêsl, o pernambucano da Zona da Mata chegou a ser ventilado pelo técnico Pedroto, de grande prestígio em Portugal, para defender a Seleção Portuguesa. Para isso teria que se naturalizar português, mas embora tenha se sentido lisonjeado com o convite, não aceitou-o.

“Pensava em voltar para o Brasil quando terminasse meu período em Portugal e aí teria que haver todo um processo para recuperar a cidadania brasileira”, explica Nivaldo que, dessa maneira. por um triz não se tornou cidadão português.

O ex-jogador continua batendo suas peladas, pois não seria o mesmo se tivesse que se afastar de vez do futebol. Acompanha o movimento futebolístico de perto, indo habitualmente aos jogos do Campeonato Pernambucano e do Brasileiro (no momento substituído pela Copa João Havelange). O que de importante passa pela televisão, é atentamente observado por ele. Sente-se seguro para emitir algumas opiniões, tais como, “o Sport sobra em Pernambuco”, ao mesmo tempo em que lamenta: “É uma pena que o Náutico e o Santa Cruz tenham deixado o Sport se distanciar tanto.”

Acha que o futebol mudou muito, tática e fisicamente, principalmente porque de 60 para cá passou a prevalecer o futebol de pegada, propagado principalmente por ingleses e alemães. Hoje já não há mais lugar para romantismo, na ótica de Nivaldo.

“Hoje, o jogador ou é profissional ou não vinga”, enfatiza, sem deixar de registrar sua eterna admiração por Pelé, mesmo sem que jamais tenha visto-o jogar, a não ser através de vídeo; por Zico, “fantástico, como jogador e homem” , e por Falcão, “o ídolo máximo”, uma espécie de estrela-guia para o volante que virou lateral por causa das circunstâncias, mas terminou voltando à posição original.

FILHO DE PEIXE – O filho Rodrigo, nascido em Portugal, que sempre teve aptidão para o futebol, veio com 10 anos de idade para o Recife, não se adaptou e voltou para a Europa. Tudo era facilitado pelo fato de ter dupla cidadania.

Foi titular no juvenil do Vitória de Guimarães, regressou ao Brasil, sagrou-se campeão baiano de juniores em 1999 pelo Vitória e hoje está no Atlético Paranaense, depois de o pai ter tentado, sem êxito, encaminhá-lo para o Sport. “O clube não quis”, afirma Nivaldo. A proposta fora a mesma feita, e aceita, aos paranaenses: em caso de venda do passe, Rodrigo, um zagueiro de 1,88 metro, terá direito a 30%.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.08.2000
Segunda-feira