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COMPORTAMENTO Em nome das mulheres Internautas buscam explicações sobre velhos problemas de relacionamentos afetivo e sexual com os terapeutas virtuais POR FLÁVIA DE GUSMÃO Definitivamente, alguma coisa está fora da ordem. E esta nova ordem que teima em se estabelecer parece ter sido implantada, ao mesmo tempo, em todo lugar, através de vários meios de comunicação. Chamem de inconsciente coletivo, chamem de modismo, chamem de histeria uterina. O fato é que nunca se falou tanto em nome das mulheres (e até proclamando seu santo nome em vão) como nos dias de hoje. Sites, séries de TV, livros, filmes...uma verdadeira orgia em propagar o que antes era compartilhado apenas entre amigas íntimas, nunca exposto ao olhar público. Estes novos canais de comunicação do universo feminino com o mundo exterior emitem mensagens claras: não há mais porque aceitar as coisas como elas são, o humor não é domínio masculino e olhar com um certo desdém para o sexo oposto também não. Menos visível que o poder massificador da televisão e do cinema, a Internet foi o divã escolhido para o lançamento de dois sites que, daqui a alguns anos, terão gerado filhotes poderosos graças ao sucesso alcançado. O banheirofeminino e o 02neuronio são praticamente idênticos em sua estrutura, fórmula e público-alvo, mas conseguem se distinguir entre si tão bem quanto um jornal de outro. O segredo está nas seções que cada um exibe e no humor peculiar de seus articulistas. No olho deste furacão está a figura masculina que, depois de séculos como voyeur e analista impiedoso dos corpos e almas femininos, viu-se arrastado, esperneando, para a berlinda. O tipo da atenção que não se quer. COMO FUNCIONA Talvez o melhor nome de batismo para definir a proposta destes sites tenha sido aquele escolhido pelo banheirofeminino. Afinal, qual o lugar onde as mulheres inevitavelmente vão juntas, mesmo que só uma esteja com vontade de usá-lo para seu fim apropriado. E por que vão juntas? A piada mais corrente (e machista) dá conta que elas vão em bando para que uma possa sacudir a outra depois de saciada a necessidade fisiológica. Bobagem de macho. O objetivo é beneficiar-se daquele recinto exclusivo, quase um santuário, para falar mal deles, que ficaram nas mesas, comentar o desempenho de um, a mal dotação de outro, enfim, alimentar a eterna disputa entre os sexos. O banheirofeminino foi criado, em 1996, pela publicitária Andrea Cals como um site pessoal que seria o seu hobby, sua forma de se divertir. Este ano, o site foi premiado com o Ibest na categoria mulher e iniciou sua trajetória rumo à fama. Cals pediu demissão do seu antigo emprego na agência DM9, em São Paulo, para dedicar-se com exclusividade à sua criação e firmou parceria com a Globo.com. Andrea Cals, que assina a direção geral de conteúdo, conta com Márcia Lima, na produção, eventos e marketing; o caruaruense Lulla Clemente é programador webmaster e Vera Cals faz administração do sistema editorial. Além deste quadro fixo, estão os colunistas: Marcela Catunda, Carla Sarmento, Corredor X (pseudônimo), Carlos Fariello, Marcia Mattos e Marco Mazzei. Agilidade é o grande trunfo deste tipo de proposta. A atualização das seções se dá quinzenalmente, semanalmente e até diariamente. O banheirofeminino é dividido em três áreas principais Tricotagem, TPM e Homens com um total de 30 seções. O sucesso pode ser aferido pela quantidade de correspondência enviada, uma média de 400 e-mails por dia. Deleto alguns mal criados, respondo a outros e procuro responder pessoalmente a todos. Leio todos com certeza, afirma Andrea Cals. LÍNGUA SOLTA Os colunistas são a face mais visível da interação entre o banheirofeminino e seu público. As respostas são escoadas através das seções Sabia Mahara, Tio da Limpeza e Sexxxo. Os responsáveis por estes oráculos cibernéticos normalmente usam pseudônimo e lidam, basicamente, com a preocupação universal entre homens e mulheres: os relacionamentos afetivo e sexual. Cada um desses terapeutas tem um estilo próprio ao responder sobre absolutamente tudo o que existe desde Adão e Eva: traição, comportamento na cama, preferências sexuais, dúvidas sobre anatomia, idissiossincrasias masculina e feminina. Nem todos, como seria de esperar num site feminino, tomam partido da mulher. O Tio da Limpeza, por exemplo, é um apêndice masculinista em meio à eloqüência da mulherada. Sua função é responder às questões sob um ponto de vista rigorosamente machista. Ele não e o príncipe encantado. É um homem comum, sem especialização na área, que responde o que os homens em geral pensam mesmo. O papel dele é falar as entrelinhas. Quem pergunta alguma coisa ao tio, sabe que tipo de homem ele e, acredite, as mulheres são loucas por ele, define Andrea Cals. Mesmo com todo sucesso, a diretora do banheirofeminino não acalenta qualquer sonho expansionista: O banheiro vai ficar onde está. Não tenho intenção de virar nenhum mega portal. Quero continuar com três funcionários. Não sou do ramo de negócios, afirma. Apesar disso, Andrea tem consciência de que aquilo que começou como um brincadeira não pode mais ser encarado desta forma: O meu objetivo foi sempre me divertir, mas a partir do momento que o site passou a ser acessado por 20 mil pessoas por dia, não posso pensar mais no meu deleite apenas. Não sou feminista. O objetivo é deixar a nossa intimidade violável. Falar o que quisermos falar, sabendo que seremos lidas, sem a preocupação de agradar a gregos e troianos, sempre com humor, conclui. |
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