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ENTREVISTA / TIO DA LIMPEZA E CHARLATÃ
Machão diz o que elas querem ouvir

Ele é conhecido pelos internautas que acessam o site Banheiro Feminino como o Tio da Limpeza. Sua função é fazer uma faxina em regra nos dramas existenciais, sexuais e de relacionamentos das pessoas que o procuram em busca de soluções para todos os tipos de perguntas. Não esperem dele palavras doces e saídas diplomáticas. O negócio é na base da porrada. Sua perspectiva é machista (embora ele se refira a ela como uma visão masculina), suas respostas são, em alguns casos, francamente grosseiras, e sua mente parece girar unicamente na direção da possibilidade de descolar sexo anal e oral. Mesmo assim, o tio é assediado por mulheres de todos os cantos do Brasil que o procuram em busca de mais porrada. Lê-lo é um exercício mórbido de se enxergar como a maioria dos homens enxergam as mulheres e uma inegável diversão. O personagem Tio da Limpeza é o cafajeste virtual, que exerce um fascínio atávico num bom número de mulheres. Nesta entrevista, ele fala de sua experiência como oráculo e mostra que por trás da cara de mau há um homem casado e bom funcionário.

JORNAL DO COMMERCIO – Por que o banheirofeminino resolveu colocar um homem, cujas respostas são propositalmente machistas, para responder à mulherada? Isso não reforça a máxima de Nelson Rodrigues que diz que mulheres gostam mesmo é de apanhar (não todas, só as normais)?

TIO DA LIMPEZA – Tudo começou quando o Banheiro era pequenino, e a Dedéia (Andrea Cals, a patroa), colocou o Manifesto Tábua, uma lista de indagações femininas do tipo: “porque os homens nunca abaixam a tampa do vaso?”, ou “porque os homens só andam com uma camisinha no bolso?”, etc. Eu respondi, ela colocou no ar e fez um baita sucesso. Circulou pela Internet toda, já recebi por e-mail umas três vezes. Daí ela me convidou para ser o Tio da Limpeza. Mas o que as mulheres gostam é de saber o que sinceramente passa pela cabeça masculina.

JC – Viajando na maionese: Você é mesmo homem ou uma mulher cuja mente pervertida pensa como um?

TL – Se sou mulher, estamos tratando do maior clitóris do mundo! Coisa de circo mesmo.

JC – Após receber e responder milhares de perguntas o que é que você acha que anda perturbando mais a mente feminina quando o assunto é relacionamento?

TL – A dúvida que mais assola a cabeça dos meus pacientes – aí eu falo dos homens e das fêmeas – é se os sinais que um potencial parceiro está dando podem ou não ser interpretados como um ‘mole’ oficial, isto é se aquela pessoa que ela(e) deseja está mesmo a fim. Nem sei mais como responder tanta pergunta igual...

JC – Qual o perfil básico da mulher brasileira, pelo que você pode apreender das suas consultas?

TL – Não sei se o público do Banheiro é tendencioso, mas a mulherada está impossível! Muitas interessadas em sexo sem envolvimento, várias experimentando relações homossexuais... O mundo está, felizmente, perdido!

JC – Quem trai mais, o homem ou a mulher?

TL – Como recebo mais cartas femininas, sei mais das traições delas. Está igual.

JC – Pelo que eu pude perceber há uma boa dose de transferência entre as suas leitoras e você. Muitas te convidando para pôr em prática tudo o que você promete. Já topou algum convite?

TL – Não, sou casado! Mas confesso que estimulo esse tipo de atitude. Bom para o ego!

JC – O anonimato é uma exigência sua ou do site?

TL – Minha. Sabe como é, o pessoal na minha empresa pode não achar muito engraçado de ter um pervertido em seu quadro de funcionários...

JC – Poderia ser qualquer outro a responder as tais perguntas? O que é que você tem que os outros não têm? Perspicácia, cara de pau ou apenas uma boca muito suja?

TL – Como disse antes, começou por conta do Manifesto Tábua. Mas o fato de adorar o trabalho ajuda um bocado. Fora a criatividade, o charme, a ginga e a malemolência.

JC – Qual a média de mensagens que não são respondidas por absoluta falta de tempo? Qual o volume de correspondência?

TL – Recebo uma média de 25 diárias. Cantadas, xingamentos, perguntas repetidas ou bobas, eu jogo fora.

JC – Você dá algum conselho a sério ou sempre tira onda?

TL – Em geral uso a minha sinceridade sarcástica. Se o pessoal quer passada de mão na cabeça, que escrevam para a Nova, Marie Claire. Só quando é alguma barbaridade, tipo alguma menina molestada pelo pai ou algo relacionado à saúde, é que eu falo sério. Não quero ninguém me responsabilizando por atos sinistros.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.12.2000
Quinta-feira