Casado (de um modo ou de outro) por cinco vezes, ainda assim, o jornalista e agora escritor, Homero Fonseca, 52, recua horrorizado diante da mais leve insinuação de que ele seria um ‘profundo conhecedor da alma (e do corpo) feminino’. Ele apressa-se em corrigir, dizendo que não passa de um ‘observador’ atento. Seria este o eterno medo masculino da cobrança? Talvez, mas, tal conclusão é mais do que justificada ao relacionar o autor à sua obra. A Vida é Fêmea, uma coletânea de 15 contos lançada na última quarta-feira, mostra as mulheres no mais puro estado de ação. Suas personagens não deixam que a vida as conduza e utilizam toda sua carga erótica como forma de libertação. Em sua narrativa, Fonseca posiciona-se como um voyeur que, ao mesmo tempo em que espreita as aventuras de sua heroínas, volta-se para a leitora com a insidiosa proposta: “Olha aqui sua fantasia, detone”. Nesta entrevista, o autor fala do eterno conflito de gêneros - masculino e feminino – e diz que vê surgir o início de um novo modelo de relacionamento entre machos e fêmeas.
JORNAL DO COMMERCIO – Você se considera um homem que entende de mulher?
HOMERO FONSECA – Não. De jeito nenhum. Acho que é uma pretensão grande de qualquer macho dizer isso. Eu sou antenado para as características femininas. Eu percebo muito as mudanças no papel que elas assumiram. A confusão em que elas estão metidas. Só que é uma confusão criativa. O homem também está metido numa grande confusão. Ambos estão metidos numa confusão dos diabos, positiva, que é a confusão da transformação. Só que as fêmeas estão mais ativas. Elas estão agindo mais, sofrendo mais, descobrindo mais, se descabelando mais, tentando de novo, construindo mais. O macho está meio perplexo. Teve uma posição muito cômoda durante boa parte do século e de repente esta posição foi totalmente questionada. Primeiro, de uma forma muito radical com o Movimento Feminista, depois de uma maneira mais natural. O macho ficou perdido entre dois sentimentos: um que tende a refugiar-se no conservadorismo, a realçar o machismo, a querer questioná-las e submetê-las; outro que procura um tipo de cumplicidade que não é exatamente sincera, passando a ser cúmplice apenas para ser aceito. Acho que estão todos confusos e que desta confusão deverão sair formas melhores de relacionamentos.
JC – Se você tivesse que escolher a característica feminina mais perturbadora para os homens, qual seria?
HF – Eu acho que é quando ela expressa a possibilidade de dominação. Às vezes elas estão simplesmente se afirmando e o macho percebe como ato de dominação. Isso apavora. Em alguns momentos algumas mulheres dão a sensação de estar querendo tirar o atraso e às vezes partem para a dominação, às vezes até ludicamente. As mulheres que tomam iniciativas demais tendem a assustar. Quando ela, por algum motivo, reproduz o comportamento masculino é um desastre.
JC – A partir do momento em que a mulher sugere dividir o domínio ela está implicitamente sugerindo a divisão de responsabilidades. Isso não deveria ser considerado bom pelo homem que anda tão sobrecarregado?
HF – O homem está sobrecarregado pra caramba. A proposta deve ser mais de soma do que de divisão. A começar pela exigência da potência, que é um fantasma que assombra todos os homens. Há muita ambigüidade sobre o que se espera do homem nos dias atuais. Ora ele tem que ser delicado, compreensivo, ora tem que ser o macho ancestral, como na hora do perigo ou na hora de prover. Atualmente, o sexo frágil é o homem.
JC – Em vários momentos, suas personagens parecem estar buscando uma vingança pessoal através do ato sexual. Por que isso?
HF – Tem um pouco disso. Mas, é preciso deixar claro que eles são exatamente o que são: contos. Não são tese, não são doutrina. Como todo trabalho de ficção é construído em cima de vivências, mas não só vivências pois não é autobiográfico, referências, relatos pessoais e sobretudo imaginação. Algumas mulheres desses contos parecem usar o sexo como vingança e isso tem acontecido por aí afora.
JC – No conto intitulado Em Trânsito, a personagem transa com um motorista de táxi desconhecido e depois, de volta à vida normal de executiva entediada, chora e mostra arrependimento. Os homens nunca se arrependem de uma transa casual?
HF – No fundo os homens sentem a mesma coisa, mas não têm coragem de assumir. É muito difícil. Como a mulher não tem essa cobrança, ela se expõe mais quando se arrepende, assume e conta pra todo mundo. Com o homem também acontece de se meter numa aventura que não foi boa em nenhum aspecto, só que ele não fala. Nesse sentido a mulher é emocionalmente mais ampla, mais complexa, que o homem.
JC – Qual vai ser a reação de seus amigos machões ao ver que você escreveu como uma mulher?
HF – Não tenho a menor idéia. Este livro é sobre mulheres e também escrito para mulheres. Isso não quer dizer que os marmanjos não possam ler, até devem. Antes de publicar, eu fiz um teste com três ou quatro amigas e foi muito bem recebido. Acredito que as mulheres vão receber bem até para dizer que a coisa não é assim. Eu não estou me arvorando em ter um olhar feminino. Estou tentando me aproximar deste olhar. Não é à toa que a forma narrativa é conduzida na terceira pessoa ‘você’, que no Brasil é utilizada como o ‘tu’, a segunda pessoa. Significa que se eu usasse a primeira pessoa estaria querendo entrar na cabeça da mulher e não é este o caso. Se eu usasse ‘ela’, a fórmula ficaria muito distanciada. Eu procurei estar o mais junto possível, como um voyeur.
JC – O seu livro fala melhor para qual faixa etária?
HF – São mulheres mais maduras que são justamente as que passaram por esse processo todo e têm uma experiência mais rica para contar. Até porque vieram muito da repressão, da submissão. Elas são mulheres que descobrem seu valor e algumas se mostram muito dispostas a enfatizar esse valor. Não é à toa que nesse meio surgiu a expressão ‘poderosa’. São mulheres que descobriram que podem caminhar com as próprias pernas e podem construir o seu futuro, embora não saibam exatamente qual é. Algumas mais perdidas, outras menos. Algumas revanchistas contra o macho castrador, outras mais complacentes.
JC – Nesse panorama, há esperança para que dois momentos tão antagônicos se encontrem?
HF – O amor é uma questão aritmética e bilateral. Alguns casais dividem, outros multiplicam. São aqueles que têm uma alta freqüência de ‘emocionalidade’ na relação e tendem a esgotar tudo muito rapidamente. Alguns casais apenas subtraem um do outro. Alguns somam e estes são os mais sólidos porque conseguem administrar bem a convivência. Estes casais somam desde uma parceria nos negócios até uma parceria no corpo.
JC – Existe um certo rancor por parte das mulheres acima dos 30 contra aqueles homens na mesma faixa etária que, supostamente, seriam seus pares?
HF – Nesse rolo todo, as pessoas que se situam nesta faixa etária pegaram mais pesado antes e, por isso, em comparação, a turma mais jovem parece estar mais aplainada, mais adequada. O macho acima dos 30 ainda tem em mente que ele é o caçador e a mulher, conseqüentemente, a caça.
JC – Esses homens nunca vão se render à delícia que é se deixar dominar, nem que seja por alguns momentos?
HF – Pois é, às vezes é tão bom: a mulher dirigindo, pagando o motel...que maravilha!