Pesquisa gaúcha diz que as constantes brigas da esposa com a mãe do marido são responsáveis por 30% das separações. Falta, aos casais, maturidade emocional
por Marcia Cezimbra
Da Agência Globo
Megera típica da família, a sogra ganha notoriedade agora por suas brigas não mais com o genro, mas com a nora. Pesquisa feita pelo sociólogo gaúcho Marco Antonio Fetter com 600 casais de 14 cidades do Rio Grande do Sul constatou que as desavenças entre nora e sogra são apontadas como causa de 30% das separações. Para Fetter, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo, esse resultado indica que pelo menos 30% dos casais não têm maturidade emocional para a vida a dois, tornando irrelevante o fato de a mãe do rapaz ser ou não ser uma pessoa insuportável.
“O marido que deixa a sua mãe interferir demais em seu casamento ainda não resolveu os seus problemas com ela. Pode ser um adulto, mas não amadureceu porque mantém uma relação infantil com a mãe. Já a nora que não resolve seus problemas com a própria mãe vai transferi-los para a sogra, que se tornará a figura maligna de sua vida. Mas, na verdade, essa figura é a sua mãe, que está sendo projetada na sogra. Esse casamento fracassa pelas dificuldades emocionais do casal, que usará a sogra como pretexto para a separação”, diz Fetter.
LIMITES – Marco Antonio Fetter diz que o casal maduro vai limitar a atuação das sogras de maneira firme e gentil. É assim que ele diz como age com sua sogra, cujas visitas à sua casa não podem, não devem e não precisam ser constantes. “A minha sogra deve ficar na casa dela e não se meter na minha vida. Eu não me casei com ela e sim com a filha dela. Essa distância é fundamental para a harmonia do casal. A sogra pode gerenciar conflitos familiares. Esse é o seu papel positivo, mas jamais deve produzir tais conflitos”, explica.
O professor vem atraindo centenas de casais em seus cursos de extensão universitária sobre as relações familiares entre sogras e noras. O curso, segundo ele, funcionam como um trabalho terapêutico, além de ter viabilizado a pesquisa que será publicada em livro em 2001. “Os maridos me procuram para saber por que as mulheres e mães estão mudando, o que eu estou fazendo com elas. Eu acho engraçada essa reação. Digo que não estou fazendo nada, mas estamos discutindo a origem dessas desavenças. Muitas sogras acabam reconhecendo que desejariam se casar com os próprios filhos, mas que isso é inviável. Isso já ajuda a aceitar a nora como a verdadeira mulher do filho. Já a nora percebe que transfere para a sogra as frustrações que viveu com a própria mãe. Não digo que o curso salve um casamento, mas ajuda a compreender os conflitos entre nora e sogra.
HARMONIA – Há casais, como os atores Gabriel Braga Nunes e Karine Carvalho, que jamais viveram esse tipo de conflito. Filho da atriz Regina Braga, Gabriel diz que sua mãe sempre ficou amiga de suas namoradas, apesar de manter certa distância inicial. Com Karine, ele conta que essa amizade chega a lhe provocar ciúmes. “Ela liga para falar comigo e fica horas ao telefone com a Karine. Fico até com ciúmes. Afinal, o filho dela sou eu”, diz, rindo. “Mas nós somos uma família bem-resolvida. Quando namoro, eu me misturo, moro junto e minha mãe sempre ficou amiga de minhas namoradas. Eu também me dou muito bem com o meu padrasto, o médico Dráuzio Varella (autor do best-seller Estação Carandiru), com quem ela está casada há anos.
Karine diz que encontrou em Regina uma mãe substituta, já que a sua mora longe, com a família, no Nordeste. “A família do Gabriel foi se tornando minha família”.
Regina confessa que, no começo, fica mesmo apreensiva para ver de quem se trata a nova namorada, mas diz que, com Karine, houve uma surpresa gratificante, uma sorte. “Eu me transformaria numa bruxa se alguma mulher estivesse prejudicando o meu filho, mas Karine é uma sorte. Ela se preocupa até com a alimentação do Gabriel. Outro dia, ela foi sozinha para um spa e, por telefone, me perguntava preocupada: "Será que o Gabriel está se alimentando bem em casa?". Eu achei uma gracinha essa preocupação. O que mais uma mãe pode querer para um filho, além de que ele seja tratado com generosidade e carinho por uma mulher que o ama e ainda se preocupa com a sua alimentação?”, pergunta Regina Braga.
MIMOS - Gabriel também acha "uma gracinha" as preocupações de sua mãe. “Na verdade, eu é que me cuido muito bem há muito tempo, mas sabe como é mãe... Vive preocupada com essas coisas”.
Helena Baricelli, mãe do ator Luigi Baricelli, também se diz comovida com a dedicação e os cuidados da nora Andrea com a alimentação do filho, entre outras coisas. “Andrea é um doce. Só a paciência que tem com os regimes do Luigi é impressionante. Ele tem tendência para engordar e vive fazendo umas dietas que, para agüentá-las, é preciso ser alguém muito especial como Andrea”, festeja.
“Ela é tão carinhosa com o Luigi e com meu neto Vittorio que me deixa totalmente tranqüila em relação ao bem-estar e à felicidade do Luigi. Nós moramos em São Paulo, eles no Rio. Desde que eles se casaram, eu relaxei. Antes, não. O Luigi saiu muito cedo de casa, com 17 anos e eu vivia aflita, preocupada com sua saúde, com sua alimentação, com sua vida em geral. Agora vivo tranqüila, porque tenho certeza que ele está bem. O que mais uma mãe pode querer de uma nora? Gosto de Andrea como se fosse a filha que eu nunca tive, porque tenho dois filhos homens”, diz Helena.
Para Nicete Bruno, sogra e amiga de vários genros e noras, o segredo da boa relação é o respeito e os limites. “A harmonia não se reduz apenas a uma relação entre sogra e nora”, analisa.
Para a atriz, depende de como a pessoa encara a própria vida, os outros, sua família, seus amigos. “Uma sogra má não é apenas isso. Ela é com certeza uma esposa chata, uma amiga desagradável. As pessoas precisam se respeitar e respeitar os outros para viverem em harmonia”, conclui.