Psicanálise, terapia comportamental e até antidepressivos são utilizados no tratamento de pessoas que ficaram traumatizadas com acidentes
por ANA CRISTINA LIMA
A advogada Fabiana de Belli sofreu um acidente de carro em março do ano passado. Ela estava parada no sinal da Avenida Caxangá, quando um Cherokee bateu na traseira do automóvel, empurrando-o na direção de uma picape S-10 que cruzava a avenida. “Sofri muitas escoriações, quebrei uma perna e passei alguns dias em coma”, lembra. Recuperada fisicamente, Fabiana passou a viver um outro problema: o medo de voltar a dirigir. “Não tenho mais segurança. Minha carteira de habilitação venceu e não tive coragem de renovar. Fico pensando que, ao pegar no volante, estarei vulnerável de novo às atitudes de outras pessoas no trânsito”, desabafa De Belli.
“Os chamados transtornos de ansiedade são comuns em pessoas que sofreram grandes traumas”, explica o médico psicanalista e psiquiatra Antônio Carlos Escobar. Esses transtornos são classificados de estresse pós-traumático, “a pessoa passa a se sentir vulnerável ao estar no carro, como se o perigo não viesse dele e sim de fora”, diz o psicanalista. Esse estresse pode levar a uma fobia (repulsa). A pessoa não consegue nem entrar no automóvel. Há ainda o transtorno do pânico. “Ele surge a partir de uma grande ansiedade. Provoca a sensação de morte eminente, sintomas físicos como tremor e a sudorese”, revela Escobar.
Geralmente o medo de dirigir ocorre com pessoas que sofreram acidentes de trânsito ou visualizaram o acontecimento. “Do dia para noite fiquei com medo de dirigir. Quando tinha 18 anos, pretendia tirar a carteira de habilitação mas não consegui”, conta a jornalista Iara Lima. Ela não sabe exatamente o que causou o medo, mas lembra que, na adolescência, presenciou acidentes com amigos e familiares.
Iara trabalha na assessoria de imprensa do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Antes, exercia a mesma função no Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). “Adoro trabalhar na área e acredito que um dia o trânsito vai melhorar. Esse trabalho me ajuda a diminuir o trauma. Antes, todas as vezes que entrava no carro pensava que ia morrer”, diz.
TRATAMENTO – Três em cada 10 pacientes recebidos nas emergências dos hospitais públicos da Região Metropolitana do Recife são vítimas de acidentes de trânsito. Só no Hospital da Restauração são de 5 a 10 pacientes por dia. Não há estatísticas sobre o estado pós-traumático das vítimas de acidentes, mas certamente, elas podem viver situações de insegurança e pertubação psicológica. Há muito mais gente dirigindo com esses sintomas do que se possa imaginar.
“As pessoas têm dificuldade de aceitar problemas de ordem mental. Também há o preconceito. O medo de dirigir é visto, equivocadamente, como fraqueza, insegurança e imaturidade”, esclarece Antônio Escobar. Há tratamentos que ajudam a superar o trauma de direção. “Ele se faz necessário sempre que o ato de dirigir representar uma limitação na vida”, enfatiza o médico. “Para esses casos, o mais indicado é a psicoterapia de orientação analítica, terapia cognitiva comportamental e até de apoio. Às vezes é indicado o uso de medicação antidepressiva”, diz. A indicação do tratamento deve ser feita pelo médico.
Um outro fator importante é esforço que algumas pessoas fazem para vencer a insegurança ao volante. “A tendência é melhorar à medida em que se está enfrentando a ansiedade”.