
CINEMA II
Uma
mutação genética cinematográfica por Kleber Mendonça Filho
Missão: Impossível 2
(Mission Impossible 2, EUA, 2000, estréia nacional), de
John Woo, é o filme-evento desta temporada que precisa
ser visto. Apoiado por um trailer sensacional que destaca
Tom Cruise numa coleção verão de poses eu estou
lindo??? para todas as câmeras e ângulos, ver o
filme significa chegar à conclusão de que a embalagem
foi tão bem feita que o filme de duas horas não é tão
bom quanto o trailer de dois minutos. Mesmo podendo ser
considerado uma decepção, M:I2 é pipoca obrigatória
para hoje e também para a semana que vem. Depois, sai em
vídeo e passa em Tela Quente.
Resultado de uma
experiência genética cinematográfica que assimila
alguns dos pilares da série 007 (cenas de ação,
locações ao redor do mundo, bugigangas eletrônicas),
essa franquia da Paramount (já pensam no M:I3) é mais
um circuito de demolição no qual veículos possantes
irão explodir nas mais criativas maneiras. É também
vitrine para Cruise (produtor), cuja suposta coragem de
participar da vertiginosa cena de abertura tem sido
destacada em todos os textos sobre o filme, inclusive
este.
Para quem gostou de
Missão Impossível (96), de Brian de Palma, é uma pena
sentir falta das seqüências impecáveis de ação não
apenas na realização, mas também no timing bem
distribuído daquele filme, mesmo que o espectador não
estivesse ciente do que exatamente estava acontecendo no
roteiro. Um grande exemplo de forma sobre conteúdo.
No novo filme, é
provável que o espectador suspenda o consumo de pipoca
nos primeiros 10 minutos, mas passe a hora seguinte sem
ter mais o que comer até que algo de relevante aconteça
em matéria de ação. John Woo não deixa dúvidas sobre
o roteiro de (a busca por um vírus mortal chamado
Quimera e seu antídoto) ao empenhar-se nas suas cenas de
ação que o tiraram de Hong Kong (onde fez filmes
impressionantes como Fervura Máxima) e o trouxeram para
Hollywood (A Outra Face encantou novos fãs).
Woo dirige Cruise com os
olhos bem abertos, como um modelo num anúncio luxuoso de
perfume super-faturado composto por seus pombos
obrigatórios e a câmera lenta que levanta a platéia
num misto de excesso e estilo. Crianças, não façam
isso em casa, eles são profissionais (a cena da
motocicleta cruzando a estrada!).
Há também a sensação
de que Woo não está levando as coisas muito a sério, e
seu filme cresce toda vez que isso fica evidente,
especialmente nas citações deliciosas a clássicos como
Ladrão de Casaca (1956), de Hitchcock, e Pickpocket
(1959), de Bresson.
Isso, na verdade, tem a
importância dos pombos vistos em cena em qualquer um dos
filmes de Woo. O que importa é que M:I2 é diversão um
tanto flácida, com momentos de impacto bons o suficiente
(já rumo ao final) para fazer o público rir e, depois,
esquecer que elas existiram na tela. Os fãs podem até
pensar o contrário.
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