JAMES JOYCE
Filósofo do
fogo devorado por cães por Mário Hélio
O dia 12 deste mês é
cheio de significados para incontáveis pessoas. Sabe-se
lá quando (assunto para os especialistas em cultura de
almanaque) passou a ser a festa dos namorados no Brasil
(em outros países, é em fevereiro).
O 16, que, para a imensa
maioria, passará como uma data qualquer, tem para muitos
intelectuais a importância de um dia santo. Comemora-se
o Bloomsday, ou, em bom português, o dia de Bloom,
personagem do romance Ulisses, do escritor irlandês
James Joyce, que se passa nas 18 horas desse dia. O dia
em que o autor e a namorada Nora se encontraram para o
amor pela primeira vez.
No Recife, desta vez, a
data assume um sentido ainda mais especial, pois estará
presente na cidade o helenista Donaldo Schüler, que
está fazendo a impossível tradução do último romance
de Joyce, Finnegans Wake. O segundo volume
deve sair, nas proximidades da data. Ele vem dar dois
cursos. Um sobre o filósofo grego Heráclito (de 9 a
10), outro sobre o ficcionista irlandês (de 12 a 14).
O mais obscuro dos gregos
e o mais complicado dos romancistas do ocidente. Quem
imaginaria que, num curso que custa mais de cem reais,
atraíssem alguém? A antrópologa Teodora Barros é
autora da façanha. Esgotou as inscrições que promoveu
no Traço, que promove regularmente palestras e
seminários, e tem, entre os seus freqüentadores
habituais.
Apesar de difícil,
Heráclito é autor de uma frase que se popularizou ao
nível do lugar-comum: ninguém se banha duas vezes no
mesmo rio, querendo com isto mostrar a extrema dinâmica
da vida, as leis de fogo que a regem, a guerra eterna que
a move. Uma das versões da frase é esta: Nos
mesmos rios entramos e não entramos, somos e não
somos.
Heráclito viveu
provavelmente entre os anos 540 e 470 antes de Cristo.
Figura na lenda como arrogante e aristocrático. A sua
morte coberto de lama ou de esterco - devorado por
cães é digna de uma cena de novela.
De uma seleção de frases
de sua obra (escreveu sobre a natureza), de que só
restam fragmentos, podem ser mencionadas algumas tiradas
como estas:
Os médicos, quando
cortam, queimam e de todo modo torturam os pacientes,
ainda reclamam um salário que não merecem, por
efetuarem o mesmo que as doenças.
Imortais mortais,
mortais imortais, vivendo a morte daqueles, morrendo a
vida daqueles.
O deus é dia noite,
inverno verão, guerra paz, saciedade fome; mas se
alterna como fogo, quando se mistura a incensos, e se
denomina segundo o gosto de cada.
Estas últimas expressões
cheias de aparentes contradições, na verdade, são um
pequeno da dialética, de que ele é o primeiro e talvez
mais importante expoente. Aos que não souberem sequer o
que vem a ser dialética talvez caibam estas outras suas
palavras: Não compreendem como o divergente
consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias,
como de arco e lira.
Para quem, no entanto,
quer aprender de Heráclito com o professor Schüler,
cabe ler o que este escolheu como uma de suas epígrafes:
E assim o saber propriamente dito consiste em dizer
e fazer o que se desvela, numa escuta pertinente, ao
longo e de acordo com o que se mostra surgindo a partir
de si mesmo.
O curso do professor
Schüler se divide em oito partes. Na primeira abordará
Heráclito e a descoberta do homem. Na segunda, o seu
pensamento e o mítico. A seqüência é esta: O
lugar da palavra, A responsabilidade do
receptor, Antropologia e ética,
Vida e jogo, Saber e política e
O corpo e a morte. Por falar em morte, ele
tinha para ela uma frase das suas boas: O que para
os homens permanece quando morrem (são coisas) que não
esperam nem lhes parece (que permaneçam). E este
outro trecho, mais enigmático: Morte é tudo o que
vemos despertosw, e tudo o que vemos dormindo é
sono.
Apesar de Platão (que
não gostava de Heráclito) ter a fama impopular de banir
os poetas da sua república ideal, foi Heráclito que
reservou para estes um tratamento mais duro. Disse que
Homero (que viveu séculos antes dele) e Arquíloco
mereciam ser expulsos dos concursos e açoitados.
Não é no anedótico que
se encontra o grande Heráclito, a despeito das sempre
saborosas referências de Diógenes Laércio. É no que
escreve sobre as coisas da natureza, e a natureza das
coisas que o poder da sua sabedoria se revela, e a
profundidade fragmentada se apresenta.
Foi ele quem definiu um
lugar de destaque para o logos (a razão) no processo do
conhecimento. Apesar de reconhecer a importância das
sensações, não considerava que elas fossem dignas de
crédito, para o conhecimento da verdade. Sobre o cosmos
ele diz:
Este mundo, o mesmo
de todos os (seres), nenhum deus, nenhum homem o fez, mas
era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em
medidas e apagando-se em medidas. Popularizados
até no mais reles dos rocks são os tais quatro
elementos pensados por filósofos gregos da antiguidade:
água, ar, terra e fogo. Heráclito é o do fogo.
Ninguém foi mais
sintético, denso e preciso do que Heráclito. É o que
costumam dizer muitos dos que leram os seus escritos.
Mas, é sempre bom lembrar, de uma obra conhecida apenas
em ruínas. Diferentemente da arquitetura, cujas ruínas
podem ser preenchidas pela imaginação objetiva, sem
prejuízo talvez do que realmente foram os prédios
antigos, os textos pressupõem uma intervenção ativa do
leitor. Portanto, Heráclito é o que foi e o que dele
fizeram os seus intérpretes. Depois de amanhã, o Recife
manterá contato privilegiado com um deles.
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