JAMES JOYCE II
Ele
sabia e sentia o que era a mulher e contou num livro Todos os dias homens e mulheres se
encontram. Todos os dias mulheres e homens tornam as
noites eternas e fazem os deuses adiarem o próximo
dilúvio, a cada beijo. Mas o escritor irlandês James
Joyce fez mais. Mudou o século em um dia, por causa de
uma mulher. 16 de junho de 1904.
Ela se chamava Nora, e,
como toda mulher, continha mais labirintos que o olhar de
Narciso refletido no olho do minotauro. Joyce pegou
pedaços desses labirintos, misturou de muitas maneiras,
em silêncio, por várias cidades da Europa, e estava
pronta a linguagem: à sua imagem e semelhança. Chamou
de Ulisses ao logos que inventou. Viu que era boa a luz.
E não houve segundo dia, nem depois que da costela de
Nora-de-si-mesmo tirou Leopold Bloom, Stephen Dedalus e
todos os animais de estimação que cabiam no seu bolso
pobre de escritor.
Nenhum homem, porém,
diante de uma mulher, é Dédalo. Só pode ser Ícaro.
Aquele pequeno ser que, subindo demais aos céus, cai na
terra com suas asas de cera. Todo homem que se preze
afoga-se em fé e enterra-se nas trevas de uma mulher.
Até desfazer-se e refazer-se nela.
Uma cidade que se ama é
como uma mulher banalidade das duas artes mestras
em banalidades: a arquitetura e a poesia. Joyce amou
Dublin como se amasse quem sabe alguma inexistente
Dublinora. Como se alguém pudesse fundir (ou confundir)
um nome de mulher a uma cidade, e ir embora. Joyce foi
muitas vezes embora. Embora nunca tenha saído de si. Nem
de Dublin.
Foi assim que no dia 10 de
junho conheceu Dublinora. Ia pela Nassau Street. Usava um
boné de marinheiro e calçava alpargatas. Ela pensou que
ele fosse mesmo marujo. A história todos os fanáticos
por Joyce, que devem festejar o Bloomsday, já conhecem.
Supondo, porém, que haja alguém que não conheça algo
neste século de tantas inúteis informações, vale
contá-la de novo para aumentar a desmemória.
Desfeito o engano, ou
começado outro, passearam juntos pela primeira vez.
Nora, de sobrenome Barnacle, tinha cabelos castanhos e
era alta. Vinha do campo. Era sincera e orgulhosa como a
terra. A simples camareira moveu o homem-mar. Fez o que
sabe fazer toda mulher: tornar um homem um homem. Ali ele
aprendia ou sentia o que era uma mulher. Ali
o amor já começava a virar livro.
O que é o amor? A
resposta está em Joyce, talvez o escritor que, depois de
Shakespeare e os trágicos gregos antigos, soube melhor
representar o pensamento de uma mulher. O amor é
desejar o bem do outro. Tudo o mais é literatura.
O amor é simples, sabem
todos os que verdadeiramente amam. James Joyce, que
inventou uma mulher-toda-sim, sabia disso, e pensava na
alma de Nora como a mais bela e simples do mundo. Assim
fala a paixão, quando tem fala.
Os que amam também sabem
que o amor não é de só um tom, cor ou som. Tem muitos
matizes. É dinâmico e impoderável como todas as coisas
vivas. Desse modo, o bloomsday não assinala um encontro
romantiquinho. O naturalismo e realismo de Joyce poupam
os seus leitores de falsos idílios. Molly a
mulher de Leopold - é tão fiel quanto a lua. A
lembrança a-trai, o pensamento a-trai. Sem remorsos.
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