DEBATE
Freyre:
o pensador e o aristocrata por Marcus J. M. de Carvalho
Há algo que me intriga:
quando cursei faculdade na década de 70, e fiz minha
pós-graduação nos anos 80, Gilberto Freyre era o autor
mais combatido pelas Ciências Sociais no Brasil. E
adianto logo que não era por ignorância. Muito pelo
contrário, era gente de primeira linha das melhores
instituições do país que tinha essa preocupação.
Gilberto Freyre continuava muito citado, mas em sua
defesa no debate, basicamente só tinha ele mesmo,
políticos e militantes da direita, e o pessoal da
Fundação Joaquim Nabuco, onde ele era (e ainda é)
intocável. Por que isso? O que será que mudou hoje em
dia?
Não há dúvida de que
Gilberto Freyre deu uma imensa contribuição ao
entendimento do Brasil. Vários autores concordam que o
pensamento dele, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de
Hollanda e Celso Furtado são principais feixes por onde
se desdobraram as ciências sociais no país.
Quando publicou Casa-Grande
& Senzala, nos anos 30, Freyre engajou-se numa
discussão muito em voga na época, que buscava entender
o caráter da cultura brasileira. Rompendo com as
tendências dominantes do momento, ele conduziu a
herança africana do Brasil para o centro da discussão.
Nas teorias raciais de então predominava a idéia de que
o negro era uma raça inferior que nada tinha
acrescentado à cultura brasileira, a não ser nos seus
aspectos negativos como a depravação dos
costumes, por exemplo. Freyre estabeleceu que isso não
era exato. Sustentou que os africanos deram uma
contribuição imensa e saudável para a nossa cultura
como um todo, e se, por acaso trouxeram alguma
influência maligna, foi por causa da condição escrava
e não por causa da raça em si.
Ele certamente não foi o
primeiro a se contrapor às teorias raciais em voga na
época, que consideravam o Brasil inferior e atribuíam
essa inferioridade ao negro e à mestiçagem. Todavia,
ninguém antes escrevera um texto tão bem fundamentado a
respeito do tema. Freyre argumentava e documentava. E
sempre com um bom humor cortante. Isso sem nunca deixar
de lado o método dialético, que nele praticamente se
integrara à retórica. Tudo o que Gilberto Freyre
escrevia, praticamente desdizia linhas depois, para
posteriormente sintetizar suas idéias. Fazia questão de
deixar que o seu pensamento não era unilinear. Tudo era
devidamente problematizado.
Com o passar do tempo,
todavia, várias das discussões contidas em Casa-Grande
& Senzala, tornaram-se supérfluas, datadas.
Como em toda grande obra, há aspectos que ficaram para
trás. Os tempos mudaram. As ciências sociais
avançaram. Há temas que ninguém mais discute, ou
quando se discute é através de um prisma bem mais
preciso do que era possível nos anos 30. Os estudos
sobre cultura e raça têm novas informações para
servirem de base para teorias. Há novos enfoques, e não
há mais ninguém no meio acadêmico discutindo
seriamente quais raças seriam superiores ou inferiores a
não ser, talvez, algum idiota perdido por aí fora.
Apesar desses problemas, e
das discussões acaloradas que são perfeitamente normais
na aventura do conhecimento, grande parte da obra de
Freyre sobrevive inteira. Ele foi ousadíssimo para sua
época. O curioso é que alguns dos melhores analistas da
sociedade e cultura brasileiras costumam ser mais
generosos com os enganos e erros de Sérgio Buarque de
Hollanda e Caio Prado Júnior, por exemplo, do que com os
de Freyre. Freyre talvez tenha até errado mais
realmente, mas se isso aconteceu, em parte foi devido a
essa maravilhosa ousadia. Ele arriscou-se a falar de
temas sobre os quais todos calavam, como sexo e o
cotidiano. Por essa razão, muita gente o considera o
pensador brasileiro mais original deste século. Freyre
foi um precursor da Nova História e de várias análises
sobre as rotinas das relações de raça e classe no
Brasil que, numa linguagem foucaultiana, chamaríamos de
microfísica do poder.
Gilberto Freyre foi muito
atacado, principalmente nos anos 70, quando virou
sinônimo de conservadorismo nas ciências sociais
brasileiras. Mas eu estou convencido de que a questão
ali não era apenas científica, mas política mesmo.
Freyre tomou posições liberais durante a ditadura de
Getúlio, mas tornou-se um áulico dos militares depois
de 1964. Para grande parte do meio científico,
jornalístico e literário brasileiro isso era
lamentável, pois ele era um dos poucos cientistas
brasileiros com autoridade e prestígio internacional
para se opor ao fechamento das universidades e entidades
de pesquisa, à perseguição desenfreada à esquerda e
aos liberais, muitos dos quais foram seus companheiros
noutros tempos.
Enquanto os jornais eram
empastelados, entidades de pesquisa e ensino
amordaçadas, com muita gente presa, torturada, banida do
país, e até assassinada, Freyre vivia
aristocraticamente, escrevendo textos nos jornais
pernambucanos nos quais freqüentemente elogiava a si
próprio, o que, aliás, não precisava, pois seu valor
era reconhecido. Continuou publicando estudos relevantes
sobre o passado, mas sobre o presente calava-se. Pior
até, aderiu plenamente. Essa postura magoou
profundamente o meio intelectual brasileiro, e a obra de
Freyre passou a ser identificada com o autoritarismo
então vigente.
Como Gilberto Freyre não
lecionava nem orientou trabalhos acadêmicos, deixou
poucos discípulos diretos. Talvez por causa disso, mas
principalmente devido ao alheamento das lutas de seu
tempo, é que, enquanto viveu, nunca conseguiu o afeto
intelectual unânime do Recife, ao contrário de Sérgio
Buarque de Hollanda, em São Paulo, ou Jorge Amado, na
Bahia, por exemplo.
Fiz faculdade e
pós-graduação nos anos 70 e 80, quando a
historiografia brasileira praticamente só o mencionava
para apontar algum engano, ou então para contestá-lo,
acrescentando mais alguma prova do intenso conflito na
relação senhor-escravo. Lia-se Gilberto Freyre apenas
para negá-lo. É curioso notar, portanto, que a abertura
política e, depois, a democratização
anisitiaram, digamos, assim, Gilberto Freyre.
Houve um retorno à sua obra. Gente que participou
ativamente do combate às suas teses e passou a citá-lo
pelos seus acertos, afinal de contas, que adianta ler
Sérgio Buarque ou Caio Prado Jr., somente para ver os
erros deles? Passara o tempo em que discutir Freyre
implicava numa discussão política muito mais ampla.
Talvez já não tenhamos
tanta preocupação em definir o que seria esse tal
brasileiro , e também já está por demais
provado o erro da tese sobre as relações relativamente
amenas entre escravos e senhores, da qual deriva a idéia
da democracia racial. Apesar disso, a obra de Freyre
sobrevive, principalmente devido às brilhantes
descrições e hipóteses que levanta sobre detalhes
mundanos da cultura e sobre a história do cotidiano.
Temas que teve a ousadia de analisar minuciosamente,
dentro de um enfoque dialético rigoroso e numa linguagem
deliciosa, incomparável mesmo. É por causa dessa imensa
contribuição e originalidade que vale a pena ler
Gilberto Freyre.
* Marcus Carvalho é
professor do Departamento de História da Universidade
Federal de Pernambuco. Ele participa, amanhã, do
seminário Gilberto Freyre - um pensador
pernambucano, que tem início, hoje, no auditório
do CFCH, na mesma universidade, e prossegue até o dia 7.
Este texto que publicamos é trecho de ensaio mais
extenso escrito pelo autor de Liberdade.
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