BIOGRAFIA
Boxer
para principiantes por Luís Edgar de Andrade
Quando menos se espera, o
princípio da identidade bate em nossa cabeça como uma
pedra. Clarice Lispector deixou, na sua obra, um estranho
conto, aliás continho, intitulado "Se eu fosse
eu". Ao passar a vista, outro dia, nesse texto
admirável, ocorreu-me o desafio: "E se você fosse
C. R. Boxer?" Era assim que assinava os livros, com
a modéstia ou o orgulho dos ingleses, o historiador
Charles Ralph Boxer, que morreu, em Londres, no fim de
abril, aos 96 anos, junto com o século.
Nem André Malraux, mito a
parte, teve uma biografia tão fascinante. Tucídides,
general ateniense, lutou contra Esparta, antes de
escrever a "Guerra do Peloponeso". Boxer, como
o mestre grego, era militar de profissão. Quando os
japoneses tomaram Hong-Kong, no Natal de 1941, foi ferido
em combate. Passou a Segunda Guerra confinado numa
solitária, a ler Marco Aurélio, sem a sua biblioteca,
já famosa, que os invasores levaram para Tóquio.
Devo ao enigma de
Pantaleão Monteiro o súbito interesse por Boxer. É que
Domingos Bezerra, o Velho, meu décimo-primeiro avô,
tomou-se de amores por Brásia Monteiro, filha desse
Pantaleão, dono do engenho São Pantaleão, na várzea
do Capibaribe, quando chegou a Pernambuco, por volta de
1535, na leva dos vianenses arrebanhados por Duarte
Coelho, primeiro donatário da capitania. Brásia,
chamada a depor na Inquisição, já era uma brasa.
No clássico de Boxer
sobre a ocupação holandesa, "The Dutch in
Brazil", João Fernandes Vieira aparece dedurando ao
comissário Jacob Stachouwer, em 1635, o lugar, no mato,
onde um rico judeu português chamado Pantaleão Monteiro
tinha enterrado um tesouro. É a prova de que Fernandes
Vieira, nome de ruas e praças no Nordeste, foi
colaboracionista, antes de ficar na história como herói
dos Guararapes. Bom patrono para o PFL.
Passei um ano como
detetive no encalço de Pantaleão. Não havia e-mail nem
Internet. Evaldo Cabral de Melo, em Barbados,
transmitia-me por fax a tradução dos trechos em
holandês arcaico que lhe passava do Rio. Eram alguns dos
manuscritos que C. R. Boxer e Gonçalves de Melo tinham
consultado nos arquivos da Holanda. Mas o mistério
continua. Como é possível alguém, produtor de açucar
em meados do século XVI, ser espoliado pelos invasores
cem anos depois? Só nos romances de Gabriel Garcia
Márquez.
Eis uma pequena mostra das
mil utilidades de Charles Boxer, o maior dos
brasilianistas. Professor da cadeira de Camões na
Universidade de Londres, ele se orgulhava de nunca ter
cursado uma faculdade. No entanto, sem querer ofender,
fez mais pela história do Brasil, sozinho, do que a USP
e a UFRJ até agora. Se alguém tiver dúvida, basta
clicar Boxer em amazon.com, a livraria virtual, onde se
acham listados, entre livros disponíveis e esgotados,
nada menos que 19 títulos dos seus 350. Além de
"The Dutch in Brazil", figuram por exemplo
"The Golden Age in Brazil" e "Salvador de
Sá and the Struggle for Brazil and Angola".
Nos séculos XVI e XVII, o
período de ouro a que ele se dedicou, as notícias da
Europa levavam mais de um mês para chegar aqui. Vinham a
vela. Dizem que, hoje, as notícias são on-line. Por
que, então, nenhum jornal brasileiro deu, no obituário,
uma linha sobre Boxer? É um paradoxo às vésperas do
século XXI.
Noutro Brasil, o do
general De Gaulle, quem sabe a Academia Brasileira e o
IHGB se reunissem, em sessão conjunta, sob os auspícios
do Ministério da Cultura, para homenageá-lo, e ainda
seria pouco. Clarice Lispector, à falta de explicação,
nos dá por delicadeza uma pista. Talvez seja, como ela
diz, na última frase daquele conto, a "espécie de
pudor que se tem diante do que é grande demais".
* Luís Edgar de
Andrade é jornalista
-----------------------------------------------------------------------