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BIOGRAFIA II
O
maior dos brasilianistas teve uma vida fascinante Charles Ralph Boxer nasceu, em
Sandow, na ilha de Wight, no Reino Unido, a 8 de março
de 1904. Tanto por parte de pai como de mãe, descendia
de generais e almirantes. Fez todos os estudos nas
academias militares da Inglaterra. Fascinado pelo Japão,
aprendeu português e holandês, antes dos 20, para ler
no original os relatos dos navegadores estrangeiros no
primeiro contato com os japoneses. Em 1923, já
comissionado num regimento do Exército, foi para o
Japão como intérprete e ficou na Ásia por 25 anos.
Quando estourou a Segunda Guerra Mundial, chefiava como
capitão a espionagem inglesa em Hong-Kong. Sofreu grave
ferimento no braço por ocasião da tomada da colônia
inglesa pelos japoneses. Foi prisioneiro de guerra de
1941 a 1945. Assumiu na vida, a partir daí, uma atitude
inspirada na filosofia estóica. Apesar das humilhações
que sofreu no cárcere, nunca deixou de admirar a cultura
japonesa. Voltou ao Japão em 1947 como membro da Missão
Britânica no Extremo Oriente. Em 1947, aos 43 anos, sem
qualquer qualificação acadêmica, foi convidado para
lecionar na Universidade de Londres. Era a primeira das
cátedras que ocupou em cinco universidades da Europa e
dos Estados Unidos. Era também o adeus às armas, A
publicação de seu livro "Os Holandeses no
Brasil" em 1957 fez dele a maior autoridade nesse
período, junto com o historiador pernambucano José
Antônio Gonçalves de Melo. Apesar da reputação
internacional, dos serviços prestados na guerra e do
braço estropiado, jamais a raínha o agraciou com o
título de Sir. Talvez porque, na juventude, recusou uma
condecoração militar, alegando questões de princípio.
Quando rebentou a Segunda-Guerra era casado com a mulher
mais bonita de Hong-Kong, Ursula Churchill Dawes. Tinha,
ao mesmo tempo, um caso com a jornalista americana Emily
Hanh, mais tarde escritora feminista e sua segunda
mulher. Em 1962 negou, numa conferência, o mito da
tolerância racial dos portugueses em suas antigas
colônias. Tornou-se, então, persona non grata, em
Portugal, que vivia a ditadura Salazar. Supersticioso
demais para ser ateu, continuou agnóstico até o fim da
vida, mas fascinado pelos missionários católicos,
sobretudo os jesuítas. Em 1991 visitou mais uma vez o
Japão, quando pronunciou as últimas conferências.
Morreu em Londres no dia 27 de abril passado, dois meses
depois de completar 96 anos.
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Jornal do Commercio
Recife - 05.06.2000
Segunda-feira
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