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É DIA DE SÃO JOÃO

por Leonardo Spinelli

A noite de hoje é o ponto alto dos festejos juninos. É quando o céu vai ser tomado pela névoa produzida por centenas de fogueiras acesas em frente às casas, anunciando a chegada do único santo católico que é homenageado no dia do seu nascimento e não da sua morte: São João. Não poderia ser diferente, afinal de contas, o menino João cresceu para anunciar a vinda do Messias. Mas, antes mesmo do nascimento dos dois profetas, a fogueira já queimava nesta época do ano.

Eram os romanos que acreditavam estar homenageando a deusa Juno. Pela adoração ao fogo eles cultuavam a fertilidade da terra e do homem, em festas no início do verão. É bom lembrar que no Hemisfério Norte, a estação do Sol começa em junho. Por ser de natureza rural, há registros de que as festas juninas também eram realizadas em outros continentes, como a Ásia e a África. As cerimônias usavam o fogo contra a fome e o frio e para afastar animais fantásticos e as influências maléficas.

Quando o cristianismo se sobrepôs à mitologia pagã, as tradições européias não foram extirpadas, mas sim adaptadas, como assegura o autor potiguar Luís da Câmara Cascudo. “Portugal mantém todas as superstições e crendices, mas sob a égide de um santo católico.” Isto explica a existência das simpatias e superstições para arrumar casório, como aquela que decreta casamento imediato para quem pular a fogueira. Para a Igreja, o fogo representa a fogueira acesa na frente da casa de Isabel, mãe de João, para avisar a Maria e José que a criança havia nascido.

No entanto, é bem provável que se não fosse o lado profano, a noite de São João não seria uma das mais esperadas e ricas da cultura nordestina. Neste quesito estão incluídos a culinária, a dança e a mistura das raças negra, índia e branca. De uma certa forma, alguns ritos juninos, a exemplo do Carnaval, remetem a questão da sexualidade.

Não é necessariamente a liberação da libido, como no Carnaval, mas a fertilidade e a quebra dos tabus que aqui são abordadas. Os festejos juninos funcionavam como uma oportunidade dos jovens driblarem, com uma certa condescendência dos pais, o conservadorismo que ronda o tema. O casamento matuto é um bom exemplo disso. Nele, os jovens representam com muita liberdade e malícia a instituição do casamento, da severidade dos pais, do sexo pré-nupcial e do machismo.

O enredo todo mundo conhece: os noivos ‘namoraram’ antes do tempo e ela fica grávida. Os pais determinam o casório e se for necessário utilizam até o poder da polícia. O juiz oficializa o casamento e o padre faz a cerimônia religiosa. Depois tem a quadrilha que faz o baile de comemoração. O enredo é desenvolvido em linguagem alegórica, satírica e, às vezes, utilizando palavreado chulo.

A quadrilha é um desdobramento de uma dança européia introduzida no Brasil, no século passado. Isso explica os movimentos intitulados num ‘francês’ matuto. No começo era uma dança palaciana, protocolar, abrindo os bailes da corte em qualquer país europeu ou americano. Terminou se popularizando. O povo lhe deu novas figuras e comandos inesperados, com longa duração, em cinco partes gritadas pelo ‘marcador’. A organização da quadrilha é uma tarefa das comunidades, de classe média baixa e pobre.

No Ciclo Junino é possível detectar uma face do comportamento do homem nordestino, sua alegria de pipocar os fogos – trazidos pelos espanhóis e portugueses, que aprenderam a técnica com os árabes – o procedimento de brincar com fogo, o balão e a louvação da colheita do milho, através de comidas como canjica, pamonha e dos bolos.

O Ciclo se inicia com as homenagens a Santo Antônio no dia 16 de junho. Um ano depois de sua morte, em 1231, ele foi elevado a santo, por milagres atribuídos à sua imagem pelas graças alcançadas envolvendo o amor e o casamento. São João entra no ponto alto da festa. Assim, quando chega perto de seu aniversário, é comum a tradicional procissão do Acorda Povo, com danças e cânticos, às vezes profanos, conduzindo a bandeira do santo, ao som de zabumbas e ganzás.

Encerrando o Ciclo Junino encontram-se São Pedro e São Paulo, os dois mais modestos nas comemorações do povo, com maior destaque para o aspecto religioso da festa, do dia 29 de junho. De acordo com a tradição, só acendem fogueiras em frente à casa quem se chama Pedro ou for viúvo. São Paulo está ao lado de São Pedro, o porteiro do céu, pois, segundo a tradição católica, foi um dos fervorosos combatentes do cristianismo.

Fontes: Encarte Cultural Brincantes (Prefeitura do Recife/Jornal do Commercio – 1988); Folguedos e Danças de Pernambuco (Roberto Benjamin/Prefeitura do Recife); e Dicionário do Folclore Brasileiro (Luís da Câmara Cascudo/Ed. Melhoramentos - 1989)

Baião – No início da década de 50 tornou-se ritmo internacional de massa, mas foi sufocado pelo poder do rock. Desde esta época, o rock n´ roll mostra seu poder de engolir influências, tanto que até mesmo os Beatles, demonstram forte influência do baião, bastando conferir sucessos com She loves you (Lennon/McCartney). Surgiu como gênero de música popular urbana em 1946 com da música Baião (Luiz Gonzaga/Humberto Texeira): “Eu vou mostrar pra vocês/Como se dança um baião...”. Originalmente, no interior, o ritmo era “um pequeno trecho musical executado pelas violas nos intervalos do canto no desafio”, compondo o chamado rojão, segundo o folclorista Luís da Câmara Cascudo. Até o surgimento da Bossa-Nova, foi o ritmo brasileiro mais influente no exterior.

Coco – Há quem considere um dança tipicamente brasileira, porém, o musicólogo e poeta modernista Mário de Andrade considerou-a de “remota origem africana”. É uma dança peculiar do Norte e Nordeste brasileiros. Conhecida também por samba, pagode, zambê e bambelom consiste numa roda de dançadores e tocadores que giram e batem palmas. No nordeste há três tipos de coco: coco-de-praia, coco-de-roda e coco-de-sertão. Porém a divisão parece ser apenas nominal, pois não há diferenças formais ou geográficas, tanto que se pode encontrar coco-de-praia no sertão.

Forró – Abreviatura de Forrobodó e forrobodança, de uso comum na Imprensa pernambucana na segunda metado do século 19. O vernáculo é bem brasileiro, nada tendo a ver com ‘for all’, como querem alguns descobridores de anglicismos. Originalmente era um baile aristocrático, também aberto para a classe mais baixa da população. Já na época de Luiz Gonzaga, Zé Dantas, Jackson do Pandeiro, estes compositores começavam a falar em suas músicas que era um baile do povo. No final da década de 50, com a construção de Brasília vários nordestinos foram para lá e, a exemplo de São Paulo e Rio, estabeleceram seus bailes, geralmente com o nome do proprietário: “ Forró de Zé do Baile...”. As casas de forró surgiram na década de 70, com artistas do Nordeste tocando para a camada mais pobre da população: domésticas, pedreiros, etc. Durante a década, este movimento começou a receber o interesse dos ‘defensores da música brasileira’, despertando o interesse dos universitários, que viam uma diversão autêntica e barata. Artistas como Gonzagão, Dominguinhos, Marinês e sua Gente, Trio Nordestino conseguiram abrir um mercado que se encontrava em baixa até então. Na década de 90, dentro do forró, a exemplo do baião nos anos 50, existe lugar para todos os ritmos rurais do Nordeste e até de outras regiões: xote, rojão, xenhenhém, coco, xaxado e até mesmo o baião. Sem falar na febre de resgate com grupos como Mestre Ambrósio e Cascabulho, deste ritmo global e representativo da cultura nordestina.

Toada – Canção breve, em geral de estrofe e refrão, abrangendo todo o território nacional e refletindo as peculiaridades de cada região. Segundo o compositor Guerra-Peixe, “em sentido absolutamente restrito, chama-se toada o texto de uma música, a melodia sobre a qual se apóia a toada. Alargando o conceito ela tanto pode ser texto quanto melodia.”

Xaxado - Dança conhecida no Agreste e Sertão de Pernambuco desde a segunda década do século 20, executada somente por homens. É possível que tenha vindo do parraxaxá, canto de guerra dos cangaceiros,e que tenha sido divulgada pelo bando de Lampião. Dançada em círculo e em fila indiana, com batidas de pé e arrastando a sandália, o vocábulo parece uma onomatopéia do som produzido por elas (xá-xá). Sem a presença feminina, o xaxado não conseguiu se impor como dança de salão, alcançando no máximo a mídia como uma curiosidade típica dos cangaceiros.

Xote – Dança de salão para pares. Música com andamento mais lento que a polca, de origem alemã, muito difundida na Inglaterra e França por volta de 1848. Chegou ao Rio de Janeiro em 1851, com o nome original em inglês (schottische), com grande aceitação. Rapidamente se espalhou pelo Brasil, adentrando o mundo rural. O ritmo voltou à moda no Rio de Janeiro quando o baião se destacou depois da Segunda Guerra. Era então cantado por solista e acompanhado por conjunto pé-de-serra.

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Jornal do Commercio
Recife - 23.06.2000
Sexta-feira