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COMPORTAMENTO
Esmaltes, escovas e confidências

por Fabiana Moraes

Você anda descontente com o seu trabalho, tem um chefe tirano e não agüenta mais o que faz. Ou está passando por uma saia justa financeira, entrou no cheque especial e ainda deve ao cartão de crédito. Pior ainda: você soube que o seu marido anda lhe traindo com a sua melhor amiga. O que você faz? Desembolsa uma pequena fortuna e se deita no divã mais próximo? Ou reserva uma tarde no salão de beleza e se entrega de corpo e alma ao cabelereiro enquanto relata todas as agruras da sua vida à manicure? Pode parecer brincadeira, mas muita gente escolhe a segunda opção sem pestanejar. Passar algumas horas num salão de beleza, principalmente num sábado à tarde, é entrar em contato direto com a realidade de diversas mulheres – e homens - dos mais variados tipos e histórias. Fala-se de tudo: filhos, emprego, sexo. Tem até fofoca, que ninguém é de ferro.

A jornalista Giovana Hallack, da trupe 02 Neurônio, site do Universo Online que se esmera em abordar o mundo feminino com base na vivência de cada uma das três integrantes, diz que não tem muito tempo e disposição para estar toda semana no salão. Mas não nega que o local é perfeito para melhorar os ânimos. "Salão de beleza sempre é diversão garantida. Ir mudar o cabelo em momentos de infelicidade é o maior clássico do comportamento feminino. Eu adoro. E o melhor de tudo é que funciona. Afinal, você vai dedicar todo o seu tempo a olhar o seu novo cabelo ao invés de pensar nos problemas”, diz Giovana, ou simplesmente Jô, como é mais conhecida. Para ela, fofocar com cabelereira, manicure ou depiladora é sempre terapêutico. “Mas, dependendo do salão, tem que tomar cuidado com quem está em volta”, avisa a moça.

Rivanilda Oliveira, a Riva, está há 18 anos no ramo. É uma das proprietárias de um freqüentado salão no Derby, o Ricardo e Riva, que recebe uma média de 130 pessoas, por dia, nas sextas e sábados. No salão, bastante freqüentado pelo público masculino (ver matéria na página 2), as tardes são regadas com muito papo sobre a últimas notícias da Contigo! e da Playboy e o onipresente programa da global Ana Maria Braga, que passa todas as tardes na TV do salão.

Depois de 18 anos lidando com tanta gente diferente, Riva adquiriu um faro que identifica cada tipo de cliente que senta em frente ao espelho. “Consigo perceber bem a diferença entre as pessoas que chegam aqui. Uns vem só fazer as unhas, outros aparecem mesmo para descarregar dúvidas e preocupações”, diz. Para Rivanilda, é fácil perceber essa característica naqueles clientes que não conseguem parar de puxar este ou aquele assunto com os cabelereiros e manicures. “Por causa disso, oriento que os profissionais da casa não conversem muito com os clientes. Muita fofoca pode acabar em confusão”, continua.

Dentre todos os profissionais de um salão de beleza, não resta dúvida que a mais procurada pelas mulheres e homens que transformam o local em uma saleta de análise é a manicure. Severina Teresa Mergulhão, 47 anos, faz unhas há cerca de 8, e confirma: já ouviu tantas histórias pessoais que, com o tempo, se acostumou a ser procurada como ‘confidente’ por gente que nunca havia visto antes. “Lembro que uma cliente chegou para mim, sentou, esticou a mão e me perguntou: ‘posso desabafar?’ Fiquei ouvindo seus problemas enquanto cuidava de suas unhas”, conta Severina, que trabalha num dos salões mais chiques da cidade, o Evelyn Cáceres, no Shopping Center Recife.

DEPRIMIDA? VÁ ÀS COMPRAS – A experiente Severina já consegue identificar as nuances entre os seus clientes. Quando cuida de homens, sabe que vai ouvir muita conversa. Mas não sobre a vida pessoal deles. “Os homens falam muito, mas não sobre o que se passa com eles. Querem saber sobre a vida das mulheres”, diz. Já elas não se fazem de rogadas quando precisam desabafar, como mostra a cliente do ‘desabafo’. Por conta disso, a manicure desenvolveu algumas técnicas para não confundir a relação profissional que procura manter com seus clientes. “Procuro não dar opinião ou conselho sobre o que me dizem dentro do salão. Desta forma, não me envolvo na vida pessoal das pessoas que vêm aqui”, ensina.

Apesar disso, a manicure já instituiu uma relação de amizade com as irmãs Ana e Cristina Liu, 20 e 19, respectivamente. Desde que ambas começaram a freqüentar o salão, há cerca de um ano, é Severina a única procurada para cuidar das unhas das duas estudantes universitárias. A amizade entre as três é tanta que as irmãs tratam a manicure por ‘Sivinha’. “Ela é muito divertida. Conversamos muito sobre nossa vida, namorados, família...”, conta Cristina. Nesses momentos, tanto a manicure quanto as irmãs expõem os últimos acontecimentos de seus cotidianos. Os homens, muitas vezes, são o prato principal da conversa. ‘Sivinha’ fala do marido. As garotas, dos namorados. Ana, a mais velha, é da turma que vai ao salão para afogar as mágoas. “É ideal para relaxar. Vou toda semana. Sempre saio mais animada”. Já Cristina difere de Ana nesse quesito e troca o salão pelo shopping nos momentos em que está deprimida. “Ah, quando eu tô meio pra baixo prefiro ir fazer compras”, diz, sem medo de qualquer patrulha ideológica.

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Jornal do Commercio
Recife - 18.06.2000
Domingo