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COMPORTAMENTO II
O melhor lugar para se jogar conversa fora

Engana-se quem pensa que cadeira de salão de beleza é lugar reservado apenas para socialites fúteis ou donas-de-casa em busca de um mundo melhor. Associar cuidados pessoais a burrice virou coisa do passado: hoje, mulher inteligente pode encher a cara de creminho sem medo de ser feliz. A psicóloga Aída Novelino diz que sim, já procurou salão de beleza quando estava se sentindo deprimida. “Fui cortar o cabelo várias vezes quando estava meio para baixo. Funciona como uma troca: se você não pode mudar algumas coisas, muda ao menos o visual”, diz.

Para ela, contar angústias e frustações ao cabeleireiro ou à manicure é a forma que muita gente encontra para aliviar a tensão do dia-a-dia. “É um ‘bem’ temporário, uma catarse, indicada apenas para problemas como uma pequena briga ou um aborrecimento cotidiano. A prática pode tornar-se prejudicial caso a pessoa tenha um problema mais grave e protele a ida a um psicólogo”, explica.

A professora de português Mônica Soares, 41 anos, freqüenta salões de beleza desde os 15, quando acompanhava a sua mãe. Agora, leva a filha Ana Luiza, de 11, quando precisa dos cuidados de um profissional de beleza. O preferido da professora é Almir da Paixão, 47, que realiza cerca de 30 cortes de cabelo por dia.

Mônica e Almir se conhecem há 26 anos. A relação venceu a barreira da mera formalidade para tornar-se numa amizade que ultrapassa a porta do salão de beleza. “O melhor de tudo é que não conversamos apenas amenidades, fofoquinhas. Como temos uma relação muito íntima, podemos contar fatos mais importantes de nossas vidas”, diz Mônica. Sua filha conta que pretende se produzir no salão do ‘tio Almir’ no dia da sua formatura e no do seu casamento.

O cabeleireiro Francisco Marden de Oliveira, do salão Bosco Cabeleireiros, em Olinda, vê com naturalidade essa ligação tão estreita entre o cast dos salões e seus freqüentadores. “A aproximação é inevitável. Passamos, em média, uma hora com cada cliente. Mas tomamos cuidado para não sermos confudidos com psicólogos. Somos apenas consultores de beleza. Como lidamos com a vaidade das pessoas, temos de conversar, saber algumas particularidades de sua vida. Tudo, no entanto, de forma profissional”.

A tática do especialista para evitar maiores declarações pessoais por parte de sua clientela é pedir que, ao chegar ao local, homens e mulheres relaxem e procurem centrar-se na própria realidade. “Mas é natural que as pessoas que vêm aqui há mais tempo contem fatos de suas vidas. Ganha-se confiança com o tempo”.

SARTRE – Quem já está acostumada a ouvir as tais confissões pessoais típicas dos salões de beleza é a médica Maria Raquel, 25, também cliente de Almir. Ela prefere, no entanto, permanecer apenas como ouvinte das divagações femininas, enquanto retoca as luzes dos seus cabelos. Segundo ela, as mulheres mais novas falam invariavelmente de seus namorados. As mais velhas preferem elocrubar sobre os filhos. “Ao que parece, as pessoas estão muito cansadas e carentes. Elas chegam aqui querendo aumentar a auto-estima e terminam desabafando. Não sei se resolve, mas que elas falam, falam”.

Como característica típica destas conversas, a médica aponta a falta de profundidade e a preferência por assuntos mais fúteis. “É o paraíso das opiniões isoladas. Cada um fala o que pensa e não se aprofunda mais na questão”. Mas quem disse que cadeira de salão é lugar para falar sobre a teoria existencialista de Sartre? “Não existe lugar melhor para pôr a cultura inútil em dia”, diz a estudante Luciana Nogueira, 25, que soube sobre o silicone nos seios da Xuxa enquanto hidratava o cabelão. Por isso, não tenha medo da futilidade, peça a sua Chiques e Famosos e relaxe. (F.M.)

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Jornal do Commercio
Recife - 18.06.2000
Domingo