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LIBERDADE Polêmica em torno do romance no trabalho por Julliana de Melo Entre uma bandeja de cafezinho e outra, a secretária Yollanda Costa nem sequer imaginava as emoções que causava no coração apaixonado de seu chefe, um advogado jovem, bonito, rico e solteiro. Em plena década de 70, ele era considerado um bom partido para qualquer garota. Mas eu era uma simples empregada. Nunca me passou pela cabeça olhá-lo com outra intenção, lembra. Para Geraldo Moura, no entanto, a relação profissional não era uma barreira. Passei a cortejá-la no horário do almoço. Aos poucos, fomos ficando mais à vontade um com o outro, e ela começou a me corresponder, diz. O que deveria ser apenas mais uma história de amor acabou se transformando em uma série de fofocas e desavenças no trabalho. Os demais funcionários passaram a fazer comentários maldosos, insinuando que Yollanda estava à procura de um aumento no salário ou de um novo cargo. Os sócios de Geraldo também foram contra o relacionamento e ameaçaram romper a sociedade. O motivo dado por eles era a falta de profissionalismo, mas isso era muito injusto porque, na verdade, eu continuava defendendo meus casos com êxito, e a relação com Yollanda era muito discreta. Namorávamos apenas no tempo livre. Apesar de tudo, Geraldo e Yollanda continuam trabalhando juntos até hoje, só que agora em uma loja de antigüidades, que abriram logo após o casamento. Considerado tabu naquela época, o romance no ambiente de trabalho, embora mais aceito atualmente, ainda causa muitos aborrecimentos. Gabriel Folgasso e Ana Patrícia Carneiro tiveram de tomar uma difícil decisão quando iniciaram um relacionamento, há seis meses. Quando a gerência da loja tomou conhecimento do nosso namoro foi uma confusão. Disseram que era proibido, e obrigaram um de nós dois a pedir demissão, conta Gabriel, que está desempregado. O advogado Ary Santa Cruz esclarece que não existe uma lei que proíba a contratatação de casais na mesma empresa ou que justifique uma demissão no caso de namoro no trabalho. A partir do momento que as empresas agem ilegalmente, o trabalhador que se sente lesado pode entrar com uma ação judicial de perdas e danos, revela. Segundo a psicóloga organizacional Graça Barbosa, na seleção atual de recursos humanos o que mais conta é a avaliação do potencial individual, de acordo com o perfil esperado pelas empresas. Algumas companhias têm como política interna não manter funcionários casados ou namorados na mesma área atuação, mas esse aspecto não está mais sendo levado em consideração no momento da contratação, explica. Ela admite, no entanto, que há menos de dez anos algumas organizações ainda acreditavam que permitir um casal trabalhando no mesmo local era sinônimo de queda na produtividade. Hoje, busca-se eficiência, personalidade e atuação, mas uma regra deve ser mantida: o lado emocional não deve interferir no profissional. Da teoria à prática, Enaldo Lourenço e Marinete Pereira tiveram de se adaptar a um tipo de relacionamento mais distante quando surgiu a oportunidade de ele trabalhar como gerente na Moto Express, a mesma empresa em que ela desempenha a função de auxiliar de escritório. No trabalho, é necessário ter uma postura mais rigorosa. Fora da empresa é diferente, conversamos e trocamos carinhos como qualquer outro casal, revelam. O proprietário da Moto Express, Rômulo Júnior, trabalha com mais 50 funcionários entre homens e mulheres, em geral jovens, e afirma que é inevitável haver paquera e namoros no ambiente. Assim como no caso de Enaldo e Marinete, não condenamos o relacionamento, desde que o comportamento não comece a prejudicar o trabalho. O profissionalismo de Enaldo chegou ao ponto de ele suspender Marinete por dois dias, por ela ter contestado uma ordem sua. Fiquei chateada no início, mas entendi que tinha agido errado. No final do dia, fomos para casa juntos, sem mágoas nem ressentimentos, diz. Contrariando um outro mito, de que os relacionamentos nascidos no trabalho não são duradouros, Enaldo e Marinete se casaram no final de semana passado. Para a psicóloga de casais Silvana Melo, uma relação amorosa no trabalho pode abalar a estrutura emocional. Tudo vai depender do amadurecimento do casal. Na fase inicial, a paixão pode provocar distração e queda na produtividade, mas isso não deve ser generalizado. Na prática, aliás, muitos exemplos vêm provando exatamente o contrário. Silvana cita o caso de casais que começaram a desenvolver sentimentos amorosos em decorrência da experiência de trabalhar juntos e da possibilidade de realizar projetos em equipe. No trabalho, muitos casais encontram afinidades e objetivos em comum, unindo-se ainda mais. O namoro no escritório é natural, muitas vezes, inevitável. Afinal, passa-se tanto tempo da vida na empresa que a maior parte das relações sociais são construídas nesse ambiente. Segundo ela, no entanto, pessoas que tendem a se sentir rejeitadas podem ter dificuldades em aceitar a postura profissional do parceiro. Dependendo das características da personalidade, a pessoa pode não compreender o comportamento distante do outro em algumas situações. Nesse caso, o bom e velho diálogo é a solução. Sempre que o casal perceber que algo não vai bem, o melhor a fazer é conversar e resolver cada problema no seu respectivo ambiente, aconselha. |
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