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COMPORTAMENTO Quando o silêncio é um problema por Virginia Honse Nem só de discussões acaloradas alimentam-se as crises entre os casais. O mais absoluto silêncio, principalmente se prolongado ou repetido, pode ser apenas a pontinha de um iceberg: frieza, indiferença, distância? Não apenas. A mudez entre marido e mulher ou entre namorados, segundo os psicólogos, quer dizer que há bloqueios na comunicação. Aquelas horas a fio sem uma palavra no restaurante, ou aquela semana inteira de mudez depois da última discussão têm um diagnóstico gritante: o casal não está conseguindo expressar as suas insatisfações. Culturalmente, o homem provoca mais o silêncio do que a mulher. Ele aprende, desde pequeno, que não pode chorar ou demonstrar que está apaixonado, por exemplo. Esta educação está vinculada à própria masculinidade, constata a psicóloga e arteterapeuta Patrícia Madruga. Um exemplo poderia ser Geraldo Péres, que há 35 anos parou de falar com a mulher, Sebastiana Castro, por causa de fofocas de vizinhos. Eles, que moram na cidade de Unaí, em Minas Gerais, acabaram de completar bodas de ouro, mas o silêncio continua. Nem tanto tempo assim levaram Rodrigo e Ana para perceber que, entre um silêncio e outro, uma pergunta não podia ser calada. Às vezes, a gente passava horas no restaurante sem falar nada. Vinha a bebida, a comida, e nada de conversa. Eu pensava: o que está acontecendo? Uma vez, a gente discutiu por causa do carro. Na época, tínhamos apenas um e fazíamos rodízio. Por causa de uma besteira, o Rodrigo ficou quase uma semana sem falar comigo, conta Ana. Ela propôs, com sucesso, uma terapia, e os dois andam integradíssimos até no grupo que escolheram. O terapeuta Moises Groisman não gosta de histórias de silêncios prolongados e repetidos. E mais: diz que há outras formas de silêncio além da mera mudez. Pode-se não falar ou falar muito sem dizer nada. Há um silêncio metafórico ou simbólico entre os casais, que é tão sintomático quanto o do senhor Geraldo lá em Unaí. As insatisfações não vêm à tona, e isto indica crise no relacionamento. E o falar sem dizer também. Fala-se dos filhos, das contas, da novela, da viagem, mas não das complexidades do relacionamento. E há, ainda, o silêncio dos quartos separados e das refeições em horários diferentes. Com Priscila e Carlos foi mais ou menos assim. Depois que os filhos cresceram, o vazio aumentou, e o silêncio quase imperou no apartamento de quatro quartos em Ipanema. Eu comecei a perceber que as coisas não estavam mais caminhando. Carlos, já aposentado, não tinha mais ânimo, e eram horas e horas a fio sem a gente se falar. Só quando havia companhia a conversa fluia. Mesmo assim, não era entre nós dois. Hoje, a terapia está nos ajudando muito, e o silêncio é menor. O astrólogo Sérgio Seixas faz uma leitura high tech da questão. Dominamos a tecnologia da informação, que melhorou o veículo, mas não a qualidade da interação. A fragilidade do processo comunicativo, e conseqüentemente das relações afetivas, revela-se na intimidade. Refletir sobre uma relação amorosa é complicado, e, às vezes, precisamos de um Greenpeace para preservar nosso ecossistema afetivo e não deixar calar a pergunta: a relação acabou ou estamos praticando um aborto? |
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