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REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA
LUGAR DE TRABALHAR É EM CASA

É cada vez maior o número de empresas que investem no escritório virtual. Essa moderna ‘carta de alforria’ melhora a qualidade de vida do trabalhador, permitindo que ele passe mais tempo em casa, fique menos estressado e permaneça mais tempo junto à família, como é o caso do gerente regional da Shell, Luiz Vicente Curti, que, no trabalho com o notebook na residência, tem sempre a companhia das filhas.

por Ana Luiza Aguiar
analuiza@jc.com.br

Uma cadeira de balanço, um laptop, o filho brincando ao lado. Checando e-mails nas férias? Errado. Apenas uma cena típica de quem ganha uma carta de alforria eletrônica da empresa onde trabalha. Reconhecendo os benefícios na qualidade de vida que a revolução tecnológica pode gerar, é cada vez maior o número de empresas que adotam os chamados escritórios virtuais como nova filosofia de trabalho. Com isso, o empregado escolhe a que horas, como e onde vai fazer o serviço. E o que as empresas ganham? Empregados mais motivados, menos estressados e, portanto, mais produtivos.

Mas nem tudo são flores nessa nova forma de trabalhar. Os funcionários se livram da rigidez dos horários tradicionais de trabalho e dos problemas que sempre surgem no dia-a-dia de um escritório comum, mas, em compensação, precisam ter muito mais disciplina na hora de exercer sua tarefas. As cobranças passam a ser sobre as metas estipuladas pela empresa. Nesse cenário, o acúmulo de trabalho pode ser fatal.

As razões complementares que levam as empresas a adotarem o escritório virtual são as mais diversas possíveis. Dos mais complexos até os banais: o site de busca Radix está contratando pessoas para trabalharem em casa pela falta de espaço físico. A editora do site, Roberta Rêgo, explica que, como o trabalho não exige a presença física dos funcionários – a maioria se dedica ao cadastramento de novas páginas –, o Radix paga até um pouco mais a quem se dispõe a fazer a tarefa diretamente do lar. “É uma forma de compensar os gastos com telefone e provedor, já que eles têm que passar muito tempo plugados na Web”, explica Roberta.

PESQUISA - Contratada pela versão virtual das Lojas Americanas para analisar o desempenho do site e visitar outras páginas de compras online, a pesquisadora de mercado Valéria Faville também não costuma aparecer na sede da empresa. Porque pode fazer todo o serviço sem sair de casa. O descompromisso com o horário permite que ela se dedique a uma outra atividade: a pintura. Ela montou um ateliê na residência – assim, sai de uma tarefa para outra apenas dando alguns passos.

“Trabalhar em casa foi uma forma que encontrei para facilitar minha vida, já que tenho muitas atividades”, conta Valéria que, além da Americanas.com e da pintura, estuda inglês, é voluntária na AACD e toma conta de dois filhos pequenos. “Se não pudesse trabalhar em casa, não conseguiria fazer tudo”, assegura.

Não são só as empresas da era eletrônica que estão adotando essa nova postura. A Produtos Lácteos do Nordeste (Prolane) vem implantando o sistema de escritórios virtuais no seu departamento comercial desde de 1996. “Hoje 100% dos pedidos são feitos eletronicamente”, explicou o gerente de tecnologia da empresa, Lucivaldo Soares. Com 176 fucionários espalhados pelo Nordeste, o departamento comercial funciona com um sistema de filiais virtuais. São escritórios com um número muito reduzido de funcionários, que servem de apoio às equipes de vendas que estão na rua visitando clientes.

Os vendedores são atualizados diariamente sobre o estoque da empresa, dados cadastrais do clientes que vão visitar naquele dia através de uma intranet desenvolvida pela Prolane que podem acessar do computador de casa. “Quando o nosso vendedor chega para visitar o seu cliente, ele sabe todo o histórico do compras dele e pode aconselhá-lo sobre que produto tem melhor saída naquela época do ano, por exemplo. O vendedor passa ser um consultor. Com isso, fornecemos um atendimento mais eficiente”, completa Soares.

SEM BARREIRAS – O escritório virtual também é uma forma de superar barreiras impostas por algumas deficiências. O programador pernambucano Ronaldo sofre de paralisia cerebral e dificilmente conseguiria um emprego em um escritório tradicional por causa das suas limitações físicas. Com dificuldade de fala e locomoção, Ronaldo trabalha em casa na vanguarda da revolução eletrônica: ele é webmaster.

“Apesar de sofrer de paralisia cerebral, minhas funções mentais não foram prejudicadas e sou mental e psicologicamente normal – a Internet é o único espaço em que esse fato é evidente: em geral, as pessoas têm uma imensa dificuldade em acreditar que não tenho retardo mental, problemas de percepção ou pelo menos uma ingenuidade elefantina”, relata Ronaldo na sua homepage (www.truenet.com.br/ronaldo).

Ele começou a usar o micro para poder se comunicar melhor com as outras pessoas e, em 95, ganhou uma máquina de uma congregação religiosa. “A partir de então, inicialmente trabalhei dois anos fazendo cartões de visita, impressos de vários tipos, folhas de pagamento, em sociedade com uma irmã, Depois, sozinho, fui webdesigner da Associação do Jovem Aprendiz”, relata.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.06.2000
Quarta-feira