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TRADIÇÃO
Bacamarteiros fazem a festa em Caruaru

Tradição histórica ou esporte sertanejo, poucos folguedos populares são tão originais quanto o bacamartismo, um dos maiores ícones do período junino nas cidades do Agreste e do Sertão de Pernambuco. Com mais de um século de existência, a prática tem uma origem controversa. Alguns pesquisadores acreditam que a origem do bacamartismo remonta à época da invasão dos holandeses, uma vez que no Inventário das Armas deixado por eles naquela época refere-se a “bacamartes de metal de ferro”, que teriam passado às mãos dos cangaceiros e capangas dos coronéis do açúcar, até se tornarem ‘companheiras inseparáveis’ do sertanejo.

Entretanto, a hipótese mais aceita entre os historiadores é a de que os bacamarteiros, como hoje se apresentam, surgiram em meados de 1865, após a Guerra do Paraguai, quando os componentes do Voluntários da Pátria retornaram às suas casas no Nordeste, anunciando a volta através de disparos de seus bacamartes (também conhecidos como riúnas, granadeiras ou ribombantes) em frente às igrejas.

“Os vizinhos e parentes festejavam o retorno do soldado sobrevivente com a Festa da Vitória, aproveitando para saudar, com o estouro da pólvora seca, os santos padroeiros São Pedro e São João”, diz o folclorista Olímpio Bonald Neto, pesquisador desse folguedo há cerca de 40 anos.

Ainda hoje, a grande festa de comemoração dos atiradores de bacamarte acontece em junho, em Caruaru, onde se tem o registro do primeiro grupo de bacamarteiros em Pernambuco, que já se apresentava acompanhado da zabumba de couro curtido, do harmônico de oito baixos, do triângulo e da banda de pífanos, seguindo os passos do xaxado ou da marcha. O uniforme de mescla azul, a alpercata rangedeira, o lenço do pescoço e o chapéu de couro ou de palha compõem a indumentária dos atiradores.

Localizado no Agreste, Caruaru é o maior pólo aglutinador de mestres do tiro do Estado, reunindo no dia 24 de junho todos os bacamarteiros da região, principalmente dos municípios de Moreno e Bonito, que concentram alguns dos mais antigos batalhões.

QUEM MANDA É O HOMEM - Organizados à maneira militar, os bacamarteiros se submetem à chefia de um ‘sargento’ ou ‘comandante’, que determina, à ordem do apito, o momento do tiro, sendo também o responsável pela representação da tropa frente às autoridades.

Faz parte, ainda, de suas obrigações conseguir licença para a fabricação da pólvora, feita artesanalmente, além da escolha do local mais adequado para a realização dos tiros. Geralmente são ambientes ermos, jardins ou pontos elevados, como o Monte do Bom Jesus, em Caruaru, um dos lugares preferidos e mais respeitados pelos atiradores, devido à presença da Igrejinha de Bom Jesus, construída em 1902.

O poder de liderança da figura do comandante é fundamental para a preservação do grupo de bacamarteiros. De acordo com a tradição, quando morre, ele só pode ser substituído pelo filho mais velho. No caso de não haverem filhos homens, a viúva ou uma das filhas é que deve vestir-se a caráter e empunhar a riúna com a mesma responsabilidade do falecido atirador. É desta forma que a mulher pode, finalmente, assumir um lugar na machista sociedade dos bacamarteiros.

Todavia, alguns grupos rejeitam terminantemente a participação feminina, a exemplo do Batalhão 41 do Sítio Cajazeiras, em Caruaru. “O batalhão formado apenas por homens é mais competente. Meu pai nunca concordou com mulher trajada de bacamarteira, e eu também não concordo, a não ser que seja só pra acompanhar ou dançar”, prega Dona Helena, filha do falecido comandante Manoel Benedito.

RENOVAÇÃO – Em Moreno, a situação é diferente. A mulher é reconhecida no grupo, até como forma de renovação, segundo explica Anselmo Gonçalves, comandante do Batalhão 66. “Posso e devo ter mulheres no grupo. Em Moreno, há mulheres que atiram muito bem, e nós vamos tentar trazê-las para embelezar ainda mais a nossa tropa”.

Com características belicosas que foi perdendo ao longo dos tempos, a riúna é um elemento que proporciona prazer, satisfação e alegria à vida de homens simples, como vaqueiros, agricultores e artesãos, que, bacamarte à mão, transformam-se em ‘senhores do trovão’. Para eles, os bacamartes não são exatamente armas, mas peças de estimação, sendo, assim, batizadas com nomes sugestivos e carinhosos, como ‘Mocinha’, ‘Maria maga’ e ‘Imperador’. (M.D.)

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Jornal do Commercio
Recife - 22.06.2000
Quinta-feira