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AUTÓGRAFO, POR FAVOR
Gritaria, choro e tietagem na porta do hotel

por Fabiana Moraes

Sabe o que une Einstein, a Seleção Brasileira de Futebol e Brigitte Bardot? Todos eles sofreram com tietagem explícita e muita curiosidade em porta de hotel. O cientista conseguiu apenas um dia de paz em sua estadia no Glória, no Rio de Janeiro, onde, na suíte 400, concluiu o manuscrito sobre a Teoria da Luz. Já a seleção simplesmente levou, em 1994, uma multidão ao Hotel Sheraton Petribu, em Piedade. Resultado: destruição dos jardins e da área da piscina. Bardot não deixou por menos: ameaçou ir embora do Brasil se os jornalistas e fãs não saíssem da entrada do Copacabana Palace, onde ficou sitiada. Algumas situações são extremas: tem até gente alugando quarto em hotel cinco estrelas só para ficar perto do ídolo, como diz a chefe de recepção do Golden Beach, em Piedade, Sheila Vasconcelos.

Se no Glória a entrada de fãs é amenizada pela pompa do hotel – teoria da assessora de comunicação do local, Edlamar Souza – no Copacabana Palace a história é diferente. Desde 1923, ano de inauguração do hotel, centenas de celebridades se instalaram nos seus luxuosos quartos, transformando-o em um verdadeiro centro de romaria de fãs dos mais diversos tipos e vertentes: tem gente que se esgoelou para os Rolling Stones, outros se descabelaram por Robert de Niro, uns se acotovelaram para ver de perto Diana e Charles.

A princesa, por sinal, causou sensação no hotel (onde esteve em 1991) quando resolveu nadar na piscina por volta da meia-noite. Era a saída para encontrar um pouco de paz, longe da eterna curiosidade que a cercava. “Ela foi extremamente simpática com os fãs que a esperavam pacientemente lá fora. Lembro-me de que havia um cordão de segurança que mantinha as pessoas à distância. Quando ela saiu do lobby do Copacabana, foi até a barreira de isolamento para cumprimentar os fãs, em vez de entrar diretamente na limousine”, conta a relações-públicas do Copacabana Palace, Cláudia Fialho.

Brigitte Bardot esteve no local em 1964. Mas quase volta para Paris. Depois que a notícia de sua chegada se espalhou, o trânsito nas proximidades do hotel ficou congestionado. O número de fãs e repórteres em frente ao Copacabana era tanto que Bardot informou que voltaria para seu país caso não a deixassem em paz. A saída para aplacar a gana dos jornalistas foi uma coletiva no próprio Copa. A contragosto, ela posou para fotos no terraço. Depois, avisou: “Fica entendido que vocês me darão liberdade a partir de agora”. Foi para Búzios, e o resto é história.

Quem também atraiu um bom número de pessoas para a frente do mítico local foi o presidente da África do Sul, Nelson Mandela, que esteve ali com Winnie, coincidentemente no mesmo ano que Charles e Diana. Logo depois, os dois casais se separariam em brigas bastante polêmicas.

Os fãs do grupo U2 (que esteve no Brasil durante a turnê Pop Mart, em 1998) se instalaram durante dias em frente às portas do Renaissance, em São Paulo, e se deram bem. Bono e cia. utilizavam apenas a porta dos fundos para saír do hotel, frustrando as expectativas de quem queria vê-los. “No dia do último show, no entanto, eles passaram pelo lobby. Quando viram as dezenas de pessoas na porta do hotel, às três da manhã, ficaram impressionados e foram até lá falar com os fãs”, diz Rebeca Bianchi, do Departamento de Marketing.

Segundo Rebeca, um dos grandes indicadores da presença de gente famosa no Renaissance é o aumento no fluxo de clientes do bar do saguão. “As garotas chegam e pedem uma Coca-cola. Passam o dia inteiro sentadas no bar, na esperança de ver seus ídolos”, conta. Os últimos a provocar a histeria das adolescentes paulistanas foi o grupo Hanson. Durante dias, os funcionários do hotel trabalharam tendo como fundo musical a gritaria de centenas de garotas.

O REI E AS TOALHAS - No Sheraton Petribu Hotel, em Piedade, os fanáticos pela Seleção Brasileira de Futebol deixaram saldo e memórias negativas. Eles praticamente destruíram todo o jardim na área da piscina, no afã de chegar perto da seleção, que havia acabado de ganhar a Copa do Mundo, em 1994. Nem os seguranças do hotel nem os seguranças da própria equipe conseguiram deter a catarse da pequena multidão que se formou frente ao local. Teve gente que pulou o muro do edifício ao lado e invadiu o hotel. Resultado: bagunça, empurrões e prejuízo.

Os fãs de Roberto Carlos, que por diversas vezes se instalou no Petribu, geralmente não saem muito satisfeitos de suas incursões até o lugar. Reservadíssimo, RC entra e sai sem utilizar o saguão, evitando, assim, o contato com os curiosos. Uma funcionária do hotel diz ter ficado um pouco decepcionada com a atitude do rei, geralmente carismático ao extremo em suas apresentações. “Não entendo como uma pessoa tão simples em seu show consiga ser tão antipática logo depois de sair do palco”, diz. Roberto, aliás, mostra algumas manias pouco usuais em se tratando de pop stars brasileiros. A suíte presidencial, onde fica quando chega ao Sheraton Petribu, precisa ter todo o seu piso de mármore forrado por toalhas brancas. No Mar Hotel, outro cinco estrelas da cidade onde o rei já se instalou, a suíte marrom precisava ser forrada de azul para que RC pudesse se hospedar. Para ele, marrom é a cor do azar.

Segundo Sheila Vasconcelos, as mulheres são as mais aptas a passar horas à espera dos famosos. O cantor sertanejo Leonardo, por exemplo, atrai tanta gente que o número de seguranças na portaria do Golden Beach precisa ser reforçado quando ele se hospeda lá. “Ele atende as pessoas muito bem. Os seguranças ficam querendo levá-lo do hall, mas ele não se importa em ficar conversando com os fãs”, diz a chefe de recepção. A idolatria às vezes é tanta que algumas pessoas chegam a reservar quartos no hotel para poder circular livremente e, assim, entrar em contato com o ídolo. “Tem gente que passa o dia inteiro no sol, porque não pode entrar no hotel. Quando percebemos que alguma tiete está circulando pelo saguão, a retiramos discretamente. Já percebemos a diferença entre hóspede e fã”.

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Jornal do Commercio
Recife - 22.06.2000
Quinta-feira