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ARTIGO

Círio de Nazaré (2)

por Amaury Medeiros*

Cartão postal da cidade de Belém, o Ver-o-Peso se engalana para homenagear a padroeira dos navegantes. Tênues raios solares filtrados através de túneis de mangueiras que sombreiam milhares de peregrinos, promesseiros e devotos que participam desfilando ou postados ao longo de avenidas e ruas, rezando e cantando à sua passagem, reverenciando a senhora de Nazaré, Rainha da Amazônia, invocando sua proteção. Ou simples turistas deslumbrados com tamanha demonstração de fé. Situados numa arquibancada defronte ao Yamacole e ao Gran Amazon Turismo, entre duas belas e frondosas mangueiras, vimos o desfilar de anjinhos em carros ou nos ombros, de casas de papelão ou madeira, carregadas nas cabeças dos fiéis como pagamento de promessas alcançadas. O fluir ordenado da massa, sem empurrões ou atropelos. Na hora de parar, parar; na hora de caminhar, caminhar. Um mover-se cadenciado, respeitoso ao ritmo das litanias. Viva N. S de Nazaré? Vivaaa! Palmas. Explodir de mãos que se encontram. De súbito, a voz maviosa de Fafá de Belém, espalhando-se emocionada e enternecedora pela Avenida Getúlio Vargas. “Vós sois o lírio mimoso/ do mais suave perfume/ que ao lado do santo esposo/ a castidade resume.” Coro: “Ó Virgem Mãe amorosa/fonte de amor e de fé/daí-nos a bênção bondosa/Senhora de Nazaré.” A corda, atrelada à berlinda, é um capítulo isolado. Numa extensão de 360 metros de fibra de juta, tem uma espessura bastante para suportar a força de multidão aparentemente ensandecida pela energia incontrolável do quase fanatismo. Exíguos espaços disputados com enorme sacrifício. Na corda humana corpos comprimidos e suados parecendo massa única, irracional e oscilante. Seria ela um filamento condutor da paixão exultante pela grandiosidade da fé ou a válvula de escape de um povo sofrido e injustiçado? Polêmica em sua excentricidade, já houve quem elaborasse a “teologia da corda.” O Círio de Nazaré é o verdadeiro Natal paraense. Bem brasileiro. No lugar de papais-noéis escandinavos, as figuras de muritis, uirapurus e iraquitães. No almoço os sabores seculares das comidas típicas. O casal Guerra – Francisco e Adayl, velhos companheiros e amigos dos bons tempos de Santarém, cidade da belíssima Praia de Alter do Chão e que sussurra cantares marajoaras debruçada sobre o encontro das águas densas do Rio Amazonas com a limpidez azul-turquesa do Tapajós – foram nossos anfitriões. Na intimidade de seu lar aconchegante, ao lado dos simpáticos familiares, degustamos, renovada delícia, a maniçoba, espécie de feijoada do Pará, o pato no tucupi acompanhado de farinha d’água e arroz, além de outras exóticas iguarias que constituíram o banquete dos deuses nativos da Amazônia. As festividades do Círio instigam reflexões maiores, aprofundadas por Jesus de Paes Loureiro, poeta e presidente do Instituto de Artes do Pará. O caboclo-indígena acredita que nas profundezas dos rios, nos escondidos das florestas ou flutuando no ar, vivem seres encantados, os deuses da teogenia amazônica. As “encantarias” – o lugar onde habitam os encantados – são a poética alegórica da paisagem ideal. Essa idealização da paisagem cultural amazônica recria no imaginário figuras espiritualizadas como integrantes de seu mundo ideal. Durante o Círio de Nazaré, quando a cultura ribeirinha cabocla invade em fluxo/refluxo as ruas da cidade, Belém se transforma numa encantaria visível da alma popular. O Círio seria a mais alta expressão paraense da canonização católica e não preconceituosa do imaginário. Um momento de epifania, ou seja: de manifestação divina, de revelação que dura algumas horas mas fica iluminando para sempre a alma do povo. Mesmo quem não tem fé, emociona-se quando assiste ao Círio de Nazaré de Belém do Pará.

* Amaury Medeiros é médico e professor universitário


Jornal do Commercio
Recife - 23.08.2000
Quarta-feira

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