
MÚSICA
Futuro do Alto do Céu está
na música
por Leonardo Spinelli

São 39 crianças que moram no Alto do Céu,
na Zona Norte do Recife. Elas fazem parte do Projeto Suzuki, um programa
social do Conservatório Pernambucano de Música (CPM), que, se analisado
por cima, deu uma singela opção de vida para esses garotos: o futuro.
Cada uma delas custaria aos cofres do Estado R$ 128,20 por
mês. O pretérito imperfeito se encaixa na frase por um motivo simples.
O Governo não repassa a verba desde o início do ano passado, que, multiplicada
pelo número de crianças, soma R$ 5 mil mensais. A economia do que poderia
até ser o salário de um assessor burocrata, ameaça o futuro do projeto.
Pode parecer absurdo, mas a suspensão do
minguado recurso tem uma justificativa compreensível: corte nos gastos
públicos. No início de seu mandato, o governador Jarbas Vasconcelos baixou
um decreto de contenção de despesas, dentro do pacote do Programa de Reforma
Administrativa, que reformulou a organização da máquina e, óbvio, pretendia
cortar custos. Dentre os atingidos estava uma dotação extra para o CPM,
que financiava não só o Projeto Suzuki, como outras atividades da autarquia.
As Quartas Musicais, por exemplo.
A boa-vontade administrativa aliada à burocracia
criou, no entanto, um grande tormento, justamente para o lado mais fraco
da corda. Percebendo a distorção, a diretoria do Conservatório solicitou
à Secretaria de Educação pasta na qual o CPM é ligado que
fosse resolvido o problema. A Secretaria fez a solicitação no ano passado,
para o Conselho de Programação Financeira, instância que delibera sobre
os gastos estaduais.
Passou-se um ano e a solicitação não foi
atendida. Houve um novo pedido e nada. A diretora de Finanças do CPM,
Marília Rodrigues, não soube explicar o motivo da demora, indicando a
diretora de Controle do Tesouro estadual, Maria José Briano, para falar
do assunto. Ela não foi localizada.
Trocando em miúdos, desde 1999, o pessoal
que trabalha com os meninos do Alto do Céu não vêem a cor do dinheiro.
Resultado: falta material de reposição e as cordas dos instrumentos estão
velhas. Para os monitores das crianças, nada de salário. Para piorar,
até mesmo o patrocínio da Telemar foi cancelado, pois era feito via Lei
de Incentivo à Cultura estadual, suspensa desde abril.
Estamos sobrevivendo à custa do ideal
dos envolvidos no projeto, assegura a coordenadora do Suzuki, Ilma
Lira. Ela não foi atingida pelo corte, pois é professora da Universidade
Federal de Pernambuco. Os outros dois professores, Carmem Lúcia e Rivaldo
Silva, continuam recebendo, pois fazem parte dos quadros do CPM. Prejudicados
foram mesmo os monitores, alunos do Conservatório que recebiam seus salários
diretamente da verba suspensa.
HISTÓRICO O Projeto
Suzuki é desenvolvido numa escola do Alto do Céu desde 1994, com finalidade
de profissionalizar as crianças. No início eram 40. Mas uma tragédia particular
afastou a pequena Mary Elen da Silva, de 14 anos, que faleceu em maio,
vítima de um câncer na garganta. A perda afetou a todos, mas eles continuam
firmes na caminhada. Todas serão instrumentistas assim que terminarem
o curso. Os meninos tiveram a liberdade de escolher os seus instrumentos.
Como eram pequeninos, na faixa dos 5 anos, violino e violoncelo (em tamanho
mirim) foram os primeiros. Alguns passaram para a viola e, atualmente,
há quem já está mudando para o gigante contra-baixo. Com seis
anos de aprendizado, as crianças estão afinadas. Tanto que formaram uma
orquestra para fazer apresentações periódicas.
A experiência proporcionou-lhes contato com
o mundo de fora. Visitam hotéis de luxo, se encontram com
seus ídolos. Certa vez eles ficaram loucos quando perceberam
o ex-tricolor argentino Mancuso no meio da platéia. Aliás, depois de Bach
e Brahms, a maior paixão dos moleques é o Santa Cruz. O escudo
do time do coração está colado em boa parte dos instrumentos deles.
A outra lição do Projeto Suzuki quem aprende
não são as crianças, mas sim os adultos. Alguém já disse que a programação
das rádios e televisão está cada vez pior pois é o reflexo do gosto do
povão. Mas não é bem assim. Não gosto de pagode, prefiro
clássico e meus pais também, diz o menino Tiago Salvino. O
projeto é uma dádiva. Essas crianças são completamente diferentes de seus
amigos de bairro. Livraram-nas da criminalidade. Se não fosse isso, hoje
poderiam estar servindo de avião para os traficantes do Alto,
acredita o segurança Targentil de Assis, pai de Silas e Camila. O
Governo deveria dar mais atenção ao projeto. Não sei por que eles não
ampliam para outras comunidades, reclama. A presidente do CPM, Jussiara
Alburque responde. O Suzuki tem início, meio e fim. A partir do
ano que vem essas crianças serão integradas ao Conservatório. A partir
daí vamos pensar em levar o projeto para outra localidade.
-----------------------------------------------------------------------