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Crises e interesses

Em meio à crise política, agravada pelo caso Eduardo Jorge, e as suítes da crise econômica, juntam-se alguns elementos favoráveis ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Para neutralizar a crise política, o Planalto procura produzir fatos politicamente positivos, como a tentativa de enquadramento de laboratórios farmacêuticos multinacionais, a tentativa de levar os postos de combustíveis e distribuidoras a respeitar o sistema capitalista. No campo econômico, há perspectivas de crescimento, pelo menos no curto prazo. A flexibilização do ajuste fiscal modelo FMI libera cerca de R$ 4 bilhões do orçamento federal para o ano que vem. O Executivo logo apressou-se, numa boa jogada política, a prometer pôr essa verba a serviço da área social; que, aliás, está precisando muito de uma forcinha do poder público.

A obediência ao modelo FMI, seguido fielmente, com maior ou menor êxito econômico, mas com graves seqüelas político-sociais, pela maioria dos países latino-americanos, está intimamente ligada à ainda grande dependência de nossos países em relação aos Estados Unidos. Uma dependência que pode até ser encarada como natural, mas que seria muito mais natural se tivesse duas mãos, como sempre lembramos no caso da globalização (até agora, para nós, de mão única: abrimos nosso mercado, mas só encontramos protecionismo nos países ricos).

Recentemente, o sociólogo francês Alain Touraine, amigo, porém crítico, de FHC, diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, de Paris, disse que “a América Latina ainda é o quintal dos Estados Unidos”. Podemos até discordar da contundência da expressão, mas ela tem origem histórica nas políticas expansionistas e colonialistas dos EUA, tipo ‘A América para os americanos’, ‘Grande porrete’. Para o falecido presidente americano Woodrow Wilson, os EUA devem ter e usar seu big stick (grande porrete, hoje acrescido de inimaginável poderio béllico, inclusive armas nucleares) para manter os países latino-americanos sob seu controle, por qualquer meio que se torne necessário.
Sabemos como o governo americano pôs em prática essa política, ao longo de sua história. Anexando a seu território cerca da metade do México; invadindo e controlando Cuba por largos períodos; fazendo de Puerto Rico um Estado ‘livre’ associado etc. Sem falar nos golpes fomentados, e às vezes financiados, no Chile, Brasil, Argentina, Guatemala etc. Com o fim da Guerra Fria, o Pensamento Único, o Consenso de Washington, o emprego da força torna-se praticamente desnecessário, prevalecendo o controle através de sua própria iniciativa ou de organismos internacionais. Touraine lembra o plano americano de “incorporação de toda a América Latina a sua zona de influência direta”, através da Alca (Associação de Livre Comércio das Américas).

Os EUA têm procurado combater a política brasileira de consolidação do Mercosul e de intercâmbio maior com a União Européia (UE). Acreditamos que o que nos interessa é uma autonomia possível num mundo globalizado, realmente em duas mãos, que aceite a consolidação, expansão e fortalecimento do Mercosul (como os ricos fazem com seus blocos: Nafta, que é a organização de livre comércio dos EUA, Canadá e México, UE etc), e não exclua nem os EUA, nossos velhos parceiros comerciais, nem a UE, nem nenhum país, região ou bloco.

Somos defensores da livre iniciativa, do livre comércio, da internacionalização da nossa economia, da globalização (sem o protecionismo dos países desenvolvidos). Temos que considerar que o Brasil não é um país qualquer. Temos extensão territorial, grande população, substancial mercado consumidor (apesar da péssima distribuição da renda), riquezas naturais abundantes, uma razoável industrialização (apesar da abertura indiscriminada das importações), um comércio pujante. Temos tudo para ser um grande país, não somente um país grande.

O que nos falta é a autonomia que ainda é possível ter na busca dos interesses nacionais (sem nacionalismo retrógrado), um projeto nacional, e a soma das forças da sociedade e do governo na defesa de nossos interesses, e na construção desse projeto. Precisamos de políticos e governantes conscientes de tudo isso, e não preocupados apenas com a defesa de interesses de grupos e a construção de seus próprios projetos particulares. Não podemos perder, mais uma vez, o trem da história. Sigamos o exemplo dos países desenvolvidos, que não nasceram ricos, mas desenvolveram um projeto coerente e chegaram lá.


Jornal do Commercio
Recife - 23.08.2000
Quarta-feira