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A MESADA QUE BANCA A FARRA
por Dario Brito O primeiro vai a bares e grandes shows. O segundo tem uma curtição mais alternativa, passando pelos cinemas de arte da cidade ou uma exposição. O primeiro vai à um bom restaurante e estica a noite numa boate badalada. O segundo, pega um rango na lanchonete e loca o último lançamento em vídeo para assistir com a namorada. O que eles têm em comum? Ambos ainda não trabalham e recebem mesadas. A sorte deles, é morar numa cidade como o Recife que oferece de tudo para aqueles que dependem dos pais para se divertir. Vejamos alguns personagens. Rosa Almeida, 18 anos, estudante de História, diverte-se nos finais de semana de modo semelhante a muitos jovens: freqüenta boates, vai ao cinema e teatro e, às vezes, visita alguma exposição de arte. Rosa não trabalha. Todo o dinheiro gasto com o seu lazer vem de sua mãe, que, além da diversão, garante as despesas com alimentação, seguro saúde, transporte, roupas e educação. Rosa recebe R$ 120 em média por mês para a sua curtição, mas a vontade que ela tem é de ganhar o seu próprio dinheiro. Quero trabalhar. Odeio depender dos outros, afirma. Sua mãe, a assistente social Elpídea Fernandes, insiste que ela precisa aprender a controlar seus gastos e valorizar mais o dinheiro. Rosa acha tudo barato, explica. Quase todos os assuntos que cercam o tema exigem muito diálogo e informação. Há alguns pontos que precisam ser bem esclarecidos entre pais e filhos. O valor a ser acertado - só para citar um exemplo - deve variar de acordo com dois aspectos fundamentais: o grau de maturidade do filho e o orçamento familiar. Mas pouca gente sabe disso. A regra geral é que, dos 3 aos 10 anos de idade, a criança deve receber pouco dinheiro num curto espaço de tempo. Algo parecido com as semanadas, pois, para essa faixa etária, as noções de tempo não vão além do futuro imediato. Seria portanto impossível estabelecer conceitos para lidar com o dinheiro e com o ato de poupá-lo. A partir dos 11 anos já é possível que os pais instituam a mesada propriamente dita para seus filhos. De acordo com a psicóloga Marta Hazin, o jovem está muito exposto ao consumo. O grupo formado pelos adolescentes e suas respectivas mesadas representa um público-alvo bastante significativo para o mercado publicitário. A necessidade de independência e auto-afirmação desperta o sentimento de incômodo no jovem em ter que pedir para os pais aquilo que deseja comprar sozinho. Daí surge a finalidade para a mesada: despertar no adolescente a responsabilidade em administrar o dinheiro, mesmo que ainda não seja fruto do seu próprio esforço. A mesada é saudável desde que se estabeleçam metas a serem cumpridas por pais e filhos, afirma Marta. No caso do estudante de Ciências Biológicas, Biagio Pecorelli Filho, 18 anos, o acordo feito com o pai foi um pouco diferente. Ficou estipulado que toda sexta-feira, Biagio receberia R$ 30 para gastar com lazer e em lanches na universidade. Ele costuma sair para barzinhos com amigos no mesmo dia que descola a grana da semana e consome, em média, R$ 25 já na própria noitada. O problema é que sobram apenas cinco reais para passar o restante da semana e, por isso, acabo pedindo mais dinheiro ao meu velho. Para Biagio (pai), a mesada é uma forma de ensinar a pessoa a se limitar com o dinheiro. Dentro desse pensamento, não vale passar a mão na cabeça. Esse ato pode ser muito perigoso, pois cobrir os excessos dos filhos todas as vezes que eles extrapolam nos gastos pode acostumá-los sempre a pedir mais dinheiro que o combinado. Em casos como esse, o melhor a se fazer é agir no estilo do se acabar, acabou. Uma frase como melhor sorte no mês que vem, filhão já resolve bem a situação. PINGA-PINGA Há também os jovens que não recebem um valor exato todo mês. A estudante de segundo grau, Maria do Socorro, 15 anos, pede uns trocados aos pais quando quer se divertir ou comprar algo interessante. Seus programas favoritos são os barzinhos e shows de axé e pagode, que custam, em média, R$ 15. Quando vai ao shopping center, ela costuma assistir a filmes e depois lanchar. No fim das contas, o passeio não sai por menos que R$ 12. Fazendo os cálculos, Maria ganha cerca de oitenta reais mensalmente dos pais. O pinga-pinga infinito de dinheiro na mão da prole acaba tornando-se um vício ruim para o filho e péssimo para o bolso do pai. O primeiro não sabe com quanto deve contar todo mês, pois não há limites, assim como o segundo não sabe de quanto seu filho irá precisar. Não se está dando a real finalidade de projeções de gastos e poupança que a mesada deveria ter. De mais a mais, qualquer um que vá para a caderneta fazer as contas, percebe que mesadas são bem mais baratas que as mordidinhas esporádicas. |
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