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JOELMIR BETTING

Aperto na Ralobrás S.A.

Lei de Responsabilidade Fiscal – que prefiro chamar de Lei de Responsabilidade Moral. A aplicação dela ao pé da letra e ao pé da verba seria suficiente para dar uma sonora descarga sanitária nos usos e nos abusos da gastança pública federal, estadual e municipal.

Seria o canto do cisne do Governo fazedor de obras e provedor de gastos sem qualquer lastro em receitas e em impostos.

Pelo sim, pelo não, a República moralmente acuada solta na praça da matriz um pacote de medidas administrativas para endurecer o cotidiano de políticos e burocratas ligeirinhos que se revoltam diariamente contra a aritmética: aqueles que tomam como ofensa pessoal a impossibilidade de uma soma das partes maior que o todo.

O novo controle intestino das contas públicas – que não dispensaria uma mudança de choque no formato e no conteúdo dos Tribunais de Contas, meramente cartoriais – dá carona a um Código de Conduta da Alta Administração. Espécie de Manual de Ética para quase meio milhar de burocratas federais nomeados diretamente pelo Palácio do Planalto. Incluídas as empresas estatais remanescentes.

Viva o Efeito Lalau! A exposição de motivos serve-se de um dossiê contendo 104 obras públicas com defeitos de licitação, contratação, elaboração, financiamento e administração. Elas serão retiradas do Orçamento-Geral da União/2001, cuja primeira versão oficial do Executivo desembarca dia 31 no Congresso.

O primeiro desvio de rota do investimento público está no desrespeito à ordem de prioridade dos projetos em demanda. Se o recurso é escasso, eleger prioridades diversas é a melhor maneira de aviltar todas elas. O segundo desvio vem trotando nas raias do propinódromo: o superfaturamento dos contratos, sem controle de qualidade de planos e obras aprovados. E eis o fio da meada da gandaia orçamentária: projetos mal priorizados, mal elaborados, mal contratados, mal financiados, mal executados, mal fiscalizados e mal auditados. O resto funciona bem.

Essa Ralobrás de concreto responde por um terço da dívida pública – contratada para financiar o déficit público (o da mão invariavelmente maior que o bolso). Lastreada em títulos públicos sem lastro equivalente, essa poupança falsa faz o DNA do risco Brasil, inflacionando os custos financeiros de rolagem da própria dívida pública, hoje do tamanho de 47% do PIB. Já não é mais o déficit que provoca a dívida. É a dívida que provoca o déficit.

AMACIANDO – A reversão da sinistrose fiscal começa a melhorar o perfil da dívida brasileira – na direção de prazos maiores a juros menores. E com crescente participação de títulos prefixados – indicador de confiabilidade em alta.

Refresco

Sintam o reverso do tranco. Porque a Selic veio abaixo o serviço da dívida pública desfila, este ano, um alívio de R$ 14 bilhões. Isso permitiria dobrar o Orçamento da Saúde. A dívida pública total recuou de 52% para 47% do PIB. A dívida privada contenta-se com 21% do PIB.

Ainda pesa

A dívida pública carrega prazo médio de 12 meses. Nos países ricos, esse prazo vai de 20 a 40 anos. Aqui, com juros médios de 16,9% ao ano. Lá fora, juros de 3% a 7% ao ano.

Sem grilo

Até porque os prazos são longos e os juros são baixos, a dívida pública de países europeus é bem maior que a brasileira em relação ao PIB. A coisa vai de 59% na França a 115% na Itália.

Na Internet

Site:
www.joelmirbeting.com.br. E-mail: fale@beting.com.br


Jornal do Commercio
Recife - 23.08.2000
Quarta-feira