LG_jc.gif (3670 bytes)


NA GRANDE ÁREA
Armando Nogueira*

Feliz invenção

Tênis, em poucas palavras: piso rápido é saque e jogo de rede; piso lento, saque e jogo de fundo. Guga e Safin jogaram a final de Indianápolis, ambos terçando, o tempo todo, as principais armas do saibro que são os golpes de base, profundos, cruzados e paralelos. Voleio, que é a patente da quadra rápida, não houve na partida; e se houve, foi um na vida, outro na morte.

De qualquer modo, talvez dê pra concluir que a essência do jogo seja, mesmo, o tênis de quadra lenta. Afinal, já há mais tenista de fundo, ganhando título em piso rápido do que o contrário. Os dois finalistas de Indianápolis, tal como o vencedor de Cincinatti, Enqvist, são especialistas de terra batida. Já Sampras e Rafter, pra citar dois expoentes do saque-voleio, alguém, por acaso, se lembra de tê-los visto conquistar um troféu expressivo em quadra de saibro? Que me conste, jamais.

Especulações técnicas à parte, a fase de Guga, no momento, é notável. O rapaz, ainda não fez 24 anos e já me parece ter chegado ao esplendor, no quesito auto-confiança. Amadureceu, mesmo, técnica e mentalmente. O ar de angústia que lhe vincava o rosto, nas horas adversas, ficou pra trás. Agora, o que Guga ostenta em quadra é um olhar firme, altivo, de quem conhece e domina o seu poder de fogo.

Nos dois últimos torneios, Guga viveu alguns transes de amargar. Quando menos se esperava, ele emergia do fundo do poço, arrebatador. Só o grande campeão tem o dom de ressurgir das cinzas de uma derrota iminente. Mas, por favor, não pensem os sôfregos, os extremados, que Guga seja infalível. Ele ainda perderá e vencerá muitas vezes, no carrossel do circuito mundial. Não esqueçam que o nosso herói é uma criatura humana, sujeita a tropeços, na quadra como na vida.

Uma coisa, porém, me parece cristalina: Guga já é um dos mais perfeitos tenistas da constelação do tênis. Quem o diz não é só o ranking que já o alçou ao ponto mais alto da pirâmide. É, sobretudo, o rico arsenal de golpes que consagram seu talento: é o serviço perfurocortante, são as devastadoras cruzadas de direita, são as inapeláveis paralelas de esquerda que deixam perplexo o adversário e que em nós – pelo menos em mim – provocam um misto de felicidade e orgulho.

Enfim, esse Guga é uma das mais felizes invenções do esporte. Tanto melhor que tenha nascido por aqui.

MEU HERÓI DOS ARES – Sou piloto esportivo e tenho meus ídolos na aviação adulta. Antoine de Saint-Exupéry é um deles. O mundo inteiro está comemorando o centenário de nascimento de meu herói francês, que tem ainda o mérito de ser um dos mais populares escritores da França e o mais lírico de todos os aviadores.

Saint-Exupéry é autor de livros famosos, como Cidadela, Piloto de Guerra, Terra dos Homens, Correio do Sul e Vôo Noturno. Este último ganhou prefácio de André Gide e uma maravilhosa tradução do saudoso amigo Rubem Braga. Saint Exupéry é também o criador da obra prima O Pequeno Príncipe, traduzido em 81 idiomas e no Brasil já chegou à 48ª edição.

Este ano, a França trocou o nome do aeroporto de Lyon, sua terra natal, para Lyon-Saint-Exupéry. Ele desapareceu em missão de guerra, no dia 31 de julho de 1944. Seu avião jamais foi encontrado. Ele deixa para todos os leitores, sobretudo para os que amam a aviação, lições de solidariedade e respeito. O destemido sargento do Correio Aéreo declarava pouco antes de morrer:

“Não me queixo. Joguei, perdi. Faz parte da minha profissão. Mas assim mesmo eu respirei o vento do mar! E não se trata de viver perigosamente. Esta fórmula é pretensiosa. Os toureiros não me agradam. Não é o perigo que eu amo. É a vida.”

RÁPIDAS E RASTEIRAS – Romário pede, de público, uma chance na Seleção Olímpica. O apelo é dirigido a Wanderley Luxemburgo. Desconfio que, agora, o destinatário seja outro. Duvido que o técnico acolha o pedido de Romário sem ouvir a rapaziada. A última palavra será sempre do treinador, mas a primeira palavra, a essa altura, essa é dos meninos. ***** Pelo menos até agora, o Campeonato Brasileiro mostra que a hegemonia do futebol não está mais no eixo Rio-São Paulo. Espraia-se pelo Sul, pelo Centro-Oeste, pelo Nordeste. ***** A tabela insana do Campeonato Brasileiro – jogo diariamente, em horários estapafúrdios – é uma prova definitiva de que o Clube dos Treze vai nos levar a morrer de saudades da CBF. A emenda está saindo pior que o soneto. ***** Todo o dinheiro que rola no futebol: o procurador de Roberto Carlos – note bem, eu falei o procurador – roda, por aí, montado num Jaguar Coupê, que, nas revendedoras de São Paulo, custa a bagatela de 350 mil reais. ***** Por falar em procurador, há duas semanas que a produção do Programa Armando Nogueira deixa mensagens nos celulares do assessor de imprensa do Flamengo e do procurador do jogador Edílson. Até hoje, nem sinal dos dois. Em nome da cortesia, merecíamos, pelo menos, um telefonema, ainda que fosse pra dizer não ao nosso propósito de entrevistar o novo craque do Flamengo. ***** Uma dica valiosa pros pilotos que começam na aviação esportiva:
“Na vida, quanto mais se vive, mais se aprende; na aviação, quanto mais se aprende, mais se vive”. (Tirada do boletim News Ultraleve, editado pela ABUL, da qual é presidente o ex-piloto de caça cel. Gustavo Albretch).

Correspondências para "Na Grande Área": Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 -Rio de Janeiro - RJ - http://www.armandonogueira.com.br - E_MAIL: xapuri@armandonogueira.com.br


Jornal do Commercio
Recife - 23.08.2000
Quarta-feira