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CINEMA
UM DESERTO CHAMADO AMOR

por Luiz Joaquim

O ser humano possui, no mínimo, um ponto de vista particular sobre todas as coisas que o cercam. E essa perspectiva tende a ser tão dogmática na mesma proporção em que é única. Fim de Caso (The End of The Affair, EUA, 1999), filme de Neil Jordan, que estréia hoje no Recife, conta uma bela história sobre a ausência de perspectivas – no plural – e sobre a descoberta da legitimidade que pode existir em um sentimento.

Quantas são as formas de amar? Inúmeras, alguém pode sugerir. E, realmente, aquele que sair de uma sessão desse filme (tido como extremamente bem adaptado da obra de Graham Greene) deve ficar tomado por uma substanciosa convicção de que as formas são inúmeras, e de que o amor, este sim, é um gênero único e absoluto.

Não é esse, entretanto, o objetivo primeiro de Jordan. Vê-se que não há apelo sentimental (no pior sentido da expressão) nessa segunda versão para o cinema de Fim de Caso. Apesar da bela fotografia e bem-cuidada ambientação de uma Inglaterra pós-guerra; apesar da comovente trilha sonora de Michael Nyman e da precisão interpretativa do elenco; e apesar de todas as ferramentas presentes que abreviam o caminho para deixar um filme carregado de sacarose, Jordan foi de um polidez eloqüente e incisiva quando transpôs a história de Maurice Bendrix (Ralph Fiennes) para as telas. Ele fez aqui um produto raro na América: um filme maduro sobre sentimentos.

Bendrix é um novelista (o próprio Graham Greene?) que está começando um texto pelas seguintes palavras: “Este é um diário de ódio”. Por sua escrita, voltamos dois anos no tempo quando Bendrix, em plena Segunda Grande Guerra, conhece o casal Henry (Stephen Rea) e Sarah (Julianne Moore). Até ser apresentado a Sarah, o interesse de Bendrix em Henry era unicamente estudá-lo em sua profissão, com a intenção de moldar um personagem para o novo romance.

Na primeira oportunidade em que pode, Bendrix declara-se imediatamente apaixonado e inicia um caso com Sarah. Ela continua com o marido, acompanhando-o no matrimônio apenas como uma sombra acompanha o seu dono numa caminhada. Depois de um intenso, e bastante físico, relacionamento entre os amantes (no qual o novelista mede seu amor pelo tamanho do ciúmes), Sarah encerra o affair com o desconfiado Bendrix sem que esse mal tenha tido tempo de se recuperar dos machucados provocados por um ataque aéreo ao prédio onde mora.

Consciencioso da força de várias perspectiva sobre um mesmo assunto, o diretor Jordan é honesto o suficiente quando mostra a mais impactante e importante cena do filme por duas vezes. A idéia, colocando as câmeras em pontos diferentes, é captar a reação separada de cada um dos atores e deixar o público fazer seu próprio julgamento sob o diferenciado ponto de vista dos dois personagens.

De volta ao tempo presente, numa noite chuvosa, Bendrix esbarra com Henry bastante desestruturado por acreditar que a esposa o está traindo. O novelista, ainda curioso para entender a misteriosa opção de Sarah em pôr fim ao caso anos atrás, incita Henry a contratar um detetive para trazer a verdade sobre o possível novo amante da mulher. Só aí, pelos olhos desfocados de uma pessoa externa (o detetive), Bendrix começa uma jornada que o fará entender a dimensão do sentimento que Sarah alimentava por ele.

Ao seu modo, cada um dos três personagens criados por Graham Greene expressam a mesma emoção de forma distinta. Henry tem consciência de sua patetice quando permite que a esposa tenha um amante. Ele não pode evitar. Quer mantê-la ao seu lado, mesma que para isso precise dividi-la. Já Bendrix é dono de um amor egoísta, ciumento, furioso, esfomeado e destrutivo. Deseja Sarah por todos os instantes, como se uma vida inteira fosse insuficiente para os dois. A estúpida necessidade que sente pela constante presença física de Sarah ao seu lado não o faz enxergar o quanto é amado e lhe dá um quadro distorcido do que ela tem a oferecer.

Sarah, por sua vez, simplesmente ama. Dona de uma natural bondade e diferente de seu amante, ela acredita nas coisas que estão além dos olhos, vistas apenas pelo coração. Seu amor por Bendrix é, como diria Cazuza, uma “poesia de cego”, ele não pode ver. No final, o escritor aprende uma lição que o compele a reinterpretar a vida e a dobrar a bandeira obsessiva e possessiva que atribuía ao amor. Seu ceticismo é atingido em cheio e finalmente ele entende que é um bom novelista porque “falar sobre tristeza é muito fácil mas, o que dizer da felicidade?”.

A primeira adaptação da obra de Greene foi para as telas em 55, pelas mãos de Edward Dmytryk, mas existe um consenso entre os críticos que a versão de Neil Jordan é mais bem resolvida. Uma curiosidade: Jordan criou um novo personagem (o filho do detetive) para enfatizar a ítem fé na história. E o papel que é de Julianne Moore (candidata ao Oscar de melhor atriz) foi vivido por Deborah Kerr. Para essa nova adaptação, Jordan ainda cogitou utilizar Kristin Scott Thomas (par de Fiennes em O Paciente Inglês) para interpretar Sarah. Quem viveu o romancista no passado foi Van Johnsen, e Peter Cushing estava na pele do marido traído. Fim de Caso ainda compete pela estatueta de melhor fotografia no próximo domingo.

Não seria injusto dizer que a obra merecia estar no páreo pelo prêmio de roteiro adaptado e melhor direção. A coerência na condução de Jordan é evidente quando se observa que ele não subverte nenhum dos bons cartuchos de que dispôs nesta produção (bons atores, boa música, boa fotografia, bom roteiro), em benefício do filme como um todo. O que fica na cabeça ao sair da sala é a essência de mais um caso de amor. Uma bela história, tão bonita quanto tantas outras, mas particularmente especial por ser bem contada e pela destacada sofisticação e sincera pujança dada ao item ‘o mais valioso sentimento humano’. Assim como Umberto Eco disse uma vez, Jordan parece querer enfatizar ao seu público que está na hora de voltarmos ao começo, perguntando uns ao outros o que está havendo.

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Jornal do Commercio
Recife - 24.03.2000
Sexta-feira