LG_jc.gif (3670 bytes)

CINEMA II
O efeito hipnotizante de Morte em Veneza

por Kleber Mendonça Filho

Seria melhor precipitar-se na morte no apogeu de uma paixão do que extingüir-se e murchar lentamente com a velhice. As palavras são de James Joyce, em Os Dublinenses, mas traduzem com propriedade o núcleo de Morte em Veneza (Morte a Venezia, Itália, 1971), de Luchino Visconti (Rocco e Seus Irmãos, O Leopardo), adaptado do livro de Thomas Mann. Visconti fez um ensaio inesquecível sobre amar alguém e nunca realmente poder tocar na pessoa. Procurar a beleza em tudo e, ao encontrá-la personificada, sentir a impossibilidade de tê-la. Morrer decrépido e ridículo, uma caricatura esquálida realçada pelo contraste entre decadência e juventude. Este clássico do olhar é o cartaz da Sessão de Arte, hoje e segunda-feira.

Visconti faz uma abordagem fascinante de temas tão humanos e os concentra no caso muito particular do seu personagem principal: o compositor Gustav Von Aschenbach (Dirk Bogarde, falecido recentemente), um homossexual entupido, fisicamente debilitado e assombrado, ao longo da vida, pela idéia da beleza perfeita. É uma figura frágil, apresentada como um velho inadequado à paisagem e àqueles que o cercam. Visconti construiu Gustav como Gustav Mahler por acreditar que o compositor alemão seria a inspiração de Mann. É de Mahler a música inebriante ouvida na triha.

Gustav chega a Veneza para descansar de uma saúde já debilitada. Hospeda-se no Lido onde, no saguão de entrada, uma família de poloneses lhe chama a atenção, mais especificamente um garoto loiro de 14 anos chamado Tadzio (Bjorn Andresen). O adolescente é o dono de traços perfeitamente andróginos e de um olhar composto por dois elementos devastadores para Gustav: a meiguice de um anjo e a audácia de alguém que parece estar flertando.

A possibilidade de Tadzio parecer estar realmente flertando é uma interpretação literal e vulgar, embora Visconti abra espaço para isso. Ele mostra-se muito pouco sutil ao abordar algo que, no livro de Mann, é ambíguo e delicado, uma vez que Tadzio inspira sentimentos em Gustav pela sua presença jovem, pura e simples, e não por algum capricho ou provocação, trilha claramente escolhida por Visconti. Sente-se uma certa vampirização do rosto e do corpo do garoto, aparentemente por satisfação própria deste grande cineasta.

Tadzio, por exemplo, tem o costume de parar lentamente, olhar para Gustav e dar um sorriso enigmático, como algum anjo de aluguel. Faz isso pelo menos dez vezes. Visconti também explora-o em trajes de banho apertados que delineiam seu corpo falsamente feminino, especialmente ao mostrá-lo rolando na areia da praia em poses sexualmente sugestivas com um menino bem mais másculo do que ele.

Tadzio, portanto, deixa de ser o objeto do desejo de Gustav para tornar-se alvo do próprio Visconti, que poderia ter se contido em nome da sutileza e concisão. Polanski fez o mesmo tipo de coisa com a jovem Nastasja Kinski, em Tess (1979), embora o descontrole hormonal aqui à mostra esteja mais próximo de Bertolucci com Liv Tyler, em Beleza Roubada (1996). Paixões como essas podem tirar o filme dos trilhos, mesmo que esporadicamente.

ANJO DA MORTE – Há, mesmo assim, uma leitura menos vulgar. O menino seria algum tipo de anjo da morte, um símbolo para os ideais perseguidos por Gustav ao longo de sua vida, como a beleza e a perfeição, assim como a homossexualidade não assumida que o manteve preso a uma vida ordeira e brocha. A presença de Tadzio adquire uma qualidade mística, enigmática, traduzida com perfeição pela câmera de Pasquale de Santis (Um Dia Muito Especial).

Alguns aspectos do passado de Gustav são alimentados via flashbacks, estes os verdadeiros problemas do filme. Visconti consegue administrar uma atmosfera tão intensa de melancolia e confusão mental ao mostrar o martírio de Gustav em Veneza que tais inserções parecem pesar uma tonelada. São flashbacks esquemáticos, geralmente interrompendo o filme sem graça ou leveza, como se colados à cópia pelo operador de projeção, na cabine, antes da sessão E as discussões com seu amigo Alfred têm a naturalidade de um simpósio universitário animado sobre Beleza e Perfeição.

Informações sobre Gustav também surgem como notas de rodapé mal escritas, como na seqüência do teatro ou a do bordel. Mesmo assim, o filme é tão forte no seu ensaio sobre decadência, desejo e paixão que essas observações tornam-se pequenas diante do todo. Numa época em que a Beleza recebe o tratamento americano, Morte em Veneza revela-se não apenas universal, mas atual. Mapeia o caminho trágico percorrido por alguém que já vê a morte no próprio rosto, numa cidade simbolicamente deserta, ameaçada por uma epidemia de cólera asiática. São imagens que ficam, assim como a música de Mahler, utilizada com efeito hipnotizante já no final. Nessa conclusão privilegia-se o olhar, o ouvir e o confronto do ser humano com a vida e a morte.

-----------------------------------------------------------------------


Jornal do Commercio
Recife - 24.03.2000
Sexta-feira