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TEATRO
Falta pique e sobra texto em Vozes Dissonantes

por Janaína Lima
Enviada especial

Após a polêmica causada por Gerald Thomas e o adiamento da estréia de Apocalipse 1,11, do diretor paulista Antônio Araújo, o Festival de Teatro de Curitiba atravessa a semana num ritmo mais lento, que deve ganhar novo fôlego a partir de hoje, com a apresentação do espetáculo Happy End, do Grupo Tapa e Folias D’Arte, dirigido por Marco Antonio Rodrigues, e amanhã, com Bonitinha Mas Ordinária, por Moacyr Góes, e Replay, de Gabriel Vilela. De novidade, a noite da quarta-feira trouxe apenas o espetáculo Vozes Dissonantes, da performer Denise Stoklos, que mesmo com um tema apaixonante nas mãos, não conseguiu manter o ritmo da encenação.

A proposta era apresentar o pensamento de algumas das personalidades brasileiras que mais levantaram as vozes na luta pelas injustiças sociais sofridas pelo povo. A partir da orientação do ministro Lauro Barbosa da Silva Moreira, ex-presidente da extinta Comissão do V Centenário, que encomendou o espetáculo à atriz, Denise organizou uma espécie de colagem de textos. O resultado foi uma panorama de idéias e declarações contra a escravidão, a exploração, a tortura e os diversos tipos de violência física e mental cometidas pelos governantes e poderosos que lideraram as diversas fases da História do Brasil. No repertório da produção figuram nomes como Gilberto Freyre, Padre Antônio Vieira, Milton Santos, Frei Caneca, Filipe dos Santos, Manuel Beckman, entre outros.

“O próprio Lauro Barbosa me deu vários livros para iniciar a pesquisa para o espetáculo. Também foi ele quem o batizou de Vozes Dissonantes, nome que acolhi de imediato. Mas com a dissolução da comissão, que foi substituída por um comitê executivo, perdemos o contato. Por isso mesmo, o resultado não diz respeito ao Lauro, mas a mim, ao que elaborei a partir de uma leitura variada e intensa”, explicou a atriz durante uma entrevista coletiva.

Vozes Dissonantes estreou no dia 17 de março, em Salvador, e dá seqüência em parte à idéia enfocada em Um Fax para Colombo, espetáculo produzido em 1992, por ocasião da celebração dos 500 anos da América. Na atual produção, Cabral faz uma ligação via celular para Dom João anunciando a descoberta da nova terra e que ela já está ocupada: “Pô, tem gente!”. A partir daí, são narrados episódios relacionados à escravidão de índios e negros, Inconfidência Mineira, período da Ditadura, até a era FHC.

Os trechos narrados, no entanto, são longos, o que torna o espetáculo lento, apesar da trilha sonora cuidadosamente selecionada, incluindo um ótimo choro, um forró no estilo Trio Nordestino e a música Mestre Sala dos Mares, de João Bosco, na interpretação de Elis Regina. A impressão que se tem é que sobra texto e falta pique.

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Jornal do Commercio
Recife - 24.03.2000
Sexta-feira