ESPECIAL GILBERTO FREYRE II
Ditador
intelectual da província À frente da Fundação
Gilberto Freyre, lêem-se os versos de João Cabral de
Melo Neto, tirados do poema comemorativo dos quarenta
anos de publicação de Casa-Grande & Senzala:
Ninguém escreveu em português/no brasileiro de
sua língua:/esse à vontade que é o da rede,/dos
alpendres, da alma mestiça,/ medindo sua prosa de
sesta,/ou prosa de quem se espreguiça. Mas, alguns
anos depois de publicado esse livro, outra era a opinião
do futuro maior poeta pernambucano do século vinte sobre
o maior prosador. Em 1949, em O Cão Sem Plumas, o seu
primeiro poema de temática social, ironiza Gilberto
Freyre, falando da estagnação das árvores
obesas/ pingando os mil açúcares/ das salas de jantar
pernambucanas,/ por onde se veio arrastando./ (É nelas,/
mas de costas para o rio, que as grandes famílias
espirituais da cidade/ chocam os ovos gordos/ de
sua prosa. Em Morte e Vida Severina, lembra que
cada casebre se torna um mucambo modelar que tanto
celebram os sociólogos do lugar. Em O Rio, mantém
o mesmo tom: Agora vou entrando/ no Recife
pitoresco,/sentimental, histórico. Uma estrofe
adiante, volta ao ataque: Vi muitos arrabaldes/ ao
atravessar o Recife:/ alguns na beira da água,/ outros
em deitadas colinas;/ muitos no alto do cais/ com
casarões de escadas para o rio;/ todos sempre
ostentando/ sua ulcerada alvenaria;/ todos porém no
alto/ de sua gasta aristocracia;/ todos bem orgulhosos,/
não digo de sua poesia,/ sim, da história doméstica/
que estuda para descobrir, nestes dias,/ como se
palitava/ os dentes nesta freguesia.
Note-se que João
Cabral, nesse poema, faz o próprio rio Capibaribe falar
contra o sociólogo. A referência à poesia, porém, tem
origem biográfica. Numa carta até agora inédita, a
primeira provalmente enviada a Carlos Drummond de
Andrade, chama Gilberto Freyre de ditador intelectual. O
texto, que se lê aqui na íntegra, já evidencia duas
visões distintas de mundo do maior poeta e prosador
brasileiro.
Recife, 30 de outubro de
1940
Meu caro Carlos Drummond
de Andrade.
Eu estava para lhe
escrever desde a minha volta ao Recife. Não o havia
feito até agora, porém não só com o receio de
provocar uma correspondência que bem sei inoportuna,
como também por adivinhar que não me poderia ver livre,
nem mesmo numa carta de certa dificuldade de
comunicação que me é particularmente penosa,
principalmente tratando-se de uma das pessoas com quem
mais no mundo eu gostaria de vê-la desaparecer.
É pena que a primeira vez
que eu lhe escrevo seja para pedir um favor. Trata-se de
uma coisa de que não sei se você já teve conhecimento:
o Congresso de Poesia do Recife, cujo manifesto foi
subscrito por alguns amigos e por mim próprio. Quando
tivemos a idëia, não imaginamos que viesse ter a
projeção que, ao que parece, está alcançando. Digo
isso porque a revista Vamos Ler está publicando
umas estrevistas em torno de sua próxima realização,
entrevistas, aliás, com pessoas mentalmente
incompatibilizadas com o espírito do Congresso. Como ser
a vulgarização do manifesto aí, talvez se venha a
fazer uma idéia falsa do que é realmente o Congresso,
mando-lhe algumas cópias do manifesto que foi publicado
aqui, pedindo-lhe, no caso de não haver nenhum
inconveniente, publicá-lo em algumas revistas do Rio,
principalmente, se possível, na própria Vamos Ler, a
fim de que se possa fazer um cálculo da enorme
incompreensão que está provocando esses ataques. Isso
para não admitir que seja tudo o produto de um alarmante
complexo de cartaz, muito generalizado aqui. Devo
esclarecer que nos importa pouco responder a esses
ataques. Eles partiram de pessoas que absolutamente não
contam. Acho mesmo que suas restrições são a melhor
propaganda que o Congresso poderia ter. Mas é que outro
movimento começa a se esboçar, chefiado pelo eminente
sociólogo Gilberto Freyre Ditador intelectual
desta boa província obedecendo ao
slogan de que os tempos não estão
para poesia. Como força de argumento, entendo que
este último não é em nada mais persuasivo do que os
outros. No entanto, você sabe (acaso você já não
exprimiu tantas vezes esse sentimento de necessariedade
da poesia?) como é tristonho ver-se a arte e a poesia em
particular relegadas ao plano de simples divertimento,
indigno das duras horas que estamos vivendo.
Relativamente a este que possui elementos de
propaganda mais organizados gostaria de poder,
mediante a divulgação do manifesto, desfazer a má
impressão que porventura exista, principalmente entre
aqueles com cuja colaboração contamos para o sucesso do
Congresso, como você, Murilo, Aníbal Machado,
Portinari, Mario de Andrade, Manuel Bandeira, Jorge de
Lima, Emilio Moura, etc. Junto a esses, sem os quais
nunca nos ocorreu fazer o Congresso, gostaria que você
agisse, no sentido de conseguir a adesão.
Imagino agora o quanto jã
lhe incomodei. E por isso não prolongo mais esta carta,
com a narração de todas as sabotagens que o Congresso
tem sofrido nesta terra de sociólogos... Contando com a
sua atenção, espero suas breves notícias.
Com um abraço do amigo
agradecido
João Cabral de Melo Neto
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