ESPECIAL GILBERTO FREYRE
VII
Gilberto
Freyre apaixonado Gilberto Freyre tinha 26 anos quando
escreveu Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os
Pecados, poema longo e pleno de sensualismo escrito em
1926, que deixou o poeta Manuel Bandeira com inveja.
"Eis um poema que gostaria de ter escrito",
revelou o vate pernambucano, ao qual se seguiram outras
vozes entusiasmadas. Que também brindaram O Meu Brasil
que vem Aí. Um e outro, todavia, terminaram alvo da
crítica, que neles enxergou, de acordo com Gilberto
Freyre, "arremedos de poemas do Ronald de Carvalho
de Toda a América; ou do Noturno de Belo Horizonte, de
Mário de Andrade, ou de Pau-Brasil, de Oswald de
Andrade".
Incensado por uns,
criticado por outros, o próprio Gilberto Freyre se
perguntava se era mesmo poesia aquilo que andara
escrevendo. Daí ter escolhido como título de seu
primeiro livro do gênero, Talvez Poesia, no qual reúne
versos que "dormiam em fundos de gavetas, por serem
muito íntimos", segundo o sociólogo.
Principalmente os inspirados por sua mulher, Madalena, a
quem chama de Magda ou Madá. Foi à amada de toda uma
vida que Gilberto Freyre dedicou grande parte de sua
produção poética, da qual selecionamos apenas alguns
exemplares.
O Primeiro Beijo:
Guardarei o primeiro beijo de Madá/ não como uma
flor/ (que as flores murcham entre as páginas/ de livros
tristes)/ nem como uma jóia/(que as jóias brilham mas
são lembrança guardada/ em veludos tristes)/guardarei o
primeiro beijo de Madá/ como um instante de vida/ um
minuto de vida viva para sempre.
Depois que Encontrei
Madá: Um dia encontrei Madá/ também Lena ou
Magdalena/ meus olhos viram de novo/ tudo em mim se
iluminou/ perguntei: que luz é essa?/ que mundo novo
estou vendo?/que gosto novo sentindo?/ que novo cheiro
das plantas?/ que novas cores das águas?/ então uma voz
me disse/ falando uma língua nova/ que tudo isso era
amor.
Desde Quando Conheço
Madá:O curioso me pergunta há quanto tempo/ eu
lhe conheço, Madá/ Há dez mil, há cem mil anos/ Da
Índia, da China, da Bíblia, do Egito/ Dos primeiros
dias do mundo/ Não quero dizer ao curioso a palavra
sagrada,/ Eu lhe conheço, Madá, da eternidade.
Se Eu Perdesse
Madá:Se eu perdesse Madá/ a vida se tornaria para
mim um resto frio de vida/ quase uma morte/ e a casa
encantada/ quase um sepulcro/e o romance inglês/ um
romance russo/ os dias todos umas noites/ as noites todas
de escuro/ os gostos todos de cinza/ todas as flores sem
cheiro/ todas as estrelas sem brilho/ se eu perdesse
Madá.
A obra poética do
sociólogo pernambucano Gilberto Freyre está reunida em
dois livros: Talvez Poesia e Poesia Reunida, e no álbum
Gilberto Poeta: algumas confissões.(L.R.)
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