ESPECIAL GILBERTO FREYRE
VIII
Histórias
de KonKon Pra
falar a verdade, se me perguntassem como é ser neta do
Mestre Gilberto Freyre, eu nem saberia definir, pois eu
não conheci "O Mestre Gilberto Freyre", mas
KonKon (como era chamado pelos netos), um avô comum, que
fazia programas comuns com os netos e era louco por estes
netos a ponto de largar qualquer trabalho que estivesse
fazendo em casa, quando nós chegávamos lá para brincar
de pega e polícia & ladrão, comigo e com meus
irmãos.
Porém, ser "neta de
Gilberto Freyre" também tem o seu preço, sempre
teve: eu sempre fui muito cobrada no colégio (na
faculdade, também) a ser muito boa aluna, principalmente
de Português e Estudos Sociais, e na faculdade, em
disciplinas como Sociologia e Antropologia. Ou seja, as
minhas redações do colégio tinham de estar sempre
espetaculares. Eu jamais tive o direito de estar
"com preguiça" de pensar e escrever qualquer
coisa no papel...Mas, graças a Deus, eu adoro ler e,
mais ainda, escrever, se não, teria tido sérios
problemas escolares. Porém, não vou negar que ainda
hoje fico bastante chateada quando me esforço para fazer
algo bem-feito e quando admiro o resultado final da minha
obra, seja ela o projeto mais complexo ou a mais simples
idéia, e as pessoas me parabenizam,
dizendo:"...também, sendo neta do Mestre Gilberto,
já era de se esperar!". Isso é horrível!
Mas...é a ele que eu devo
o despertar do meu amor pela arte e literatura, pois, por
volta dos meus seis, sete anos, eu pintava alguns
garranchos, ele os achava bonitos (ou dizia que achava
para que eu não ficasse triste) e os guardava com o
maior carinho ou os exibia para quem estivesse na casa. E
várias vezes, ao pintar seus quadros, ele me convidava a
participar da pintura e me deixava à vontade para fazer
os meus rabiscos na sua obra. Eu ficava felicíssima! E
até onde minha memória me leva ao passado, era dele que
eu escutava as primeiras histórias. Histórias como as
de Monteiro Lobato, e eu achava o máximo saber que o
autor daqueles livros todos e do Sítio do Pica-pau
Amarelo, que eu adorava, era amigo do meu avô. Eu
contava isso para todas as minhas amigas e ninguém
acreditava...E uma outra história que eu lembro de ter
ouvido, repetidas vezes, foi a de Manuela, a menina que
não gostava de comer e ficou tão magra, mas tão magra,
que virou folha e foi levada pelo vento para bem longe da
sua família. Essa história era sempre repetida quando
não queríamos parar a brincadeira na hora da refeição
e essa era a "psicologia" que ele usava
conosco, pois o medo de virar folha e voar para bem longe
nos fazia sentar à mesa num instante...
E na madrugada da sua
morte, eu sonhei com ele me dizendo, sentado na sua
poltrona e eu sentada em um dos braços (da poltrona),
como eu sempre fazia, que ainda teria muito orgulho de
mim, mas "de longe". E eu, com 10 anos apenas,
não entendi o que seria essa distância. E eu tenho as
imagens desse sonho muito vivas, como se tivessem sido
reais, e ficaram para mim como as últimas imagens que
tenho dele. E fazer por merecer este orgulho tornou-se,
então, uma meta diária na minha vida, que eu acredito
funcionar como um elo que jamais permitirá nossa
separação total. E agora, ao assistir à cada homenagem
ao longo das comemorações do seu centenário, eu só
lastimo é ter nascido quando ele já era um bom velhinho
e só ter podido aproveitar 10 anos e meio da minha vida
em sua companhia. Tenho certeza que poderia hoje estar
dividindo com ele muitos dos meus planos pessoais e
profissionais e que ele teria muito a me ensinar dentro
destas duas perspectivas. Mas fico aqui com o que me
resta: aquelas velhas histórias, as brincadeiras no
jardim e a minha busca incessante pela conquista deste
orgulho e de poder voltar a ouvir, mesmo que em sonho, a
sua voz rouca comemorando minhas vitórias com o
estrondoso: "Viva! Viva!"
* Francisca Suassuna
Freyre é estudante de Psicologia
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