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ESPECIAL GILBERTO FREYRE IX
“Tudo foi tão bom com ele”

por Paulo Sérgio Scarpa

Dona Madalena Freyre sempre dizia que viveu para Gilberto Freyre e que, após a sua morte, vivia por ele. Essa atitude pode ser conferida nesta entrevista ao JC, no dia 20 de julho de 1993, e que permanecia inédita. Falou sobre seu casamento, a casa, os filhos, os netos. E ainda mandou alguns recados.

Jornal do Commercio - A senhora vive sozinha nesta casa após a morte de Gilberto Freyre?
Madalena Freyre
- Toda a vida fiquei aqui isolada, com ele e com a família. E sempre fui muito respeitada. Uma vez dois sujeitos estranhos vieram em minha direção e quando me viram disseram: Eita, é dona Madalena. E riram quando eu disse: Estão vendo, eu ainda sou respeitada.

JC - Como é viver com tantas lembranças?
Madalena
- É por isso que não quis sair daqui porque eu teria de voltar para cuidar da Fundação Gilberto Freyre. Se saísse, teria sido muito pior. Mas ainda me dói muito quando vou para o andar de cima da casa e vejo as coisas. Ainda sinto um aperto no coração, mas a vida é assim mesmo. Ele está na casa inteira: nas paredes, no chão, nas roupas. Ele sempre foi um homem muito bom: marido, escritor, intelectual excepcionais. Tudo foi tão bom com ele. Não existe inimigo que possa tirar isso.

JC - A senhora tem arquivado as críticas contra ele?
Madalena
- Tenho uns três livros, que chamo de WC (water closet), com as críticas contra ele. Todos os intelectuais voltaram atrás. Todos estão fazendo conferências sobre ele e citações sobre seu trabalho.

JC - O fato dos restos mortais estarem ao lado da casa não pesa na ausência?
Madalena
- Eu prefiro ele aqui, que tenho como uma proteção, do que no cemitério. Tenho horror a cemitério e só vou quando não tem jeito mesmo. Acho que ele está feliz em estar no local onde mais gostava.

JC - A senhora visita sempre o Memorial?
Madalena
- Limpo e coloco flores.

JC - A senhora quando vê algo novo imagina se ele iria gostar ?
Madalena
- Muitas vezes eu vejo ele por aí na casa. Vendo TV, me surpreendo querendo perguntar alguma coisa para ele, quando eu não sei o que é. Já vi ele duas vezes perto de mim, quase que por completo. E aí eu choro. Não é um sofrimento, mas um consolo ele estar aqui perto. É quase uma companhia.

JC - A senhora não necessita, então, de ninguém ao seu lado.
Madalena
- Durante o dia tem gente, fico mais sozinha à noite. Mas minha neta traz sempre os bisnetos para me ver.

JC - Qual dos netos é parecido mais com o avô?
Madalena
- É o Fernando Freyre, o mais moço de todos. Meu Deus do céu, é muito parecido. A gente mostra o retrato do avô e pensa que é o neto. São muito parecidos.

JC - Deve ser muito bonito...
Madalena
- Acho que até isso ele herdou do avô. Acho que é um menino fantástico. É um “alunaço” no colégio, muito inteligente, esperto e vivo. E tem tantas coisas do Gilberto. E o cabelo repartido no meio é natural, ele não quis imitar, não.

JC - Isso faz dele o preferido?
Madalena
- Não posso dizer, senão os outros morrem. Mas que eu tenho uma quedinha por ele, tenho. Ele é muito engraçado e muito meu amigo. Ele faz questão de todos os sábados, no almoço na casa de Fernando e que eu fazia aqui em casa antes, de me buscar e de me trazer. Me mostra as notas, me conta as coisas. Ele passou toda a meninice aqui em casa e se lembra das coisas.

JC - Gilberto Freyre era afável com as pessoas?
Madalena
- Se dava bem com todos. Quando os estudantes iam visitá-lo na Fundaj, o encontro acabava em uma bagunça, com todos rindo e conversando. Ele deixava os meninos à vontade. E com gente do povo também.

JC - Era contador de causos?
Madalena
- Ele gostava mesmo era de ouvir. Mas quando encontrava com crianças e pessoas do povo, gostava de falar, de conversar, de tirar as coisas deles.

JC - Anotava o que ouvia?
Madalena
- Não, era de guardar as coisas. Ele tinha uma memória fantástica. Eu ficava até boba com a memória dele. Ele sabia onde estavam todos os volumes nesta biblioteca com 40 mil volumes.

JC - E se alguém mexesse...
Madalena
- Ah, ele logo dizia: meu livro, tiraram daqui. E quando limpava, eu colocava numa caixa e ele via que eu havia mudado de lugar, ele transferia o livro para o lugar anterior. Ele tinha uma memória visual incrível, sabia exatamente o que escrevia e onde estava.

JC - Era de fazer pesquisa?
Madalena
- Escrevia à mão, fazia umas puxadas no papel e eu guardei tudo o que pude. Há pilhas e pilhas de papel e fotografias. Os originais, em sua maioria, estão guardados.

JC - Como foi a partilha dos livros e obras com a Fundaj?
Madalena
- Ele sabia perfeitamente o que deveria ficar aqui na casa e na Fundaj. Ele mesmo separava e enviava o material.

JC - Quantas cartas e livros nacionais?
Madalena
- São mais de 21 mil livros em português, além de inúmeros livros estrangeiros. As cartas são inúmeras, mas muitos manuscritos foram dados por ele. O que é uma pena.

JC - É difícil manter a fundação?
Madalena
- Muitíssimo. Mas você não vê homenagem a Gilberto, mas vê pessoas sendo homenageadas nos Estados. Todas as pessoas importantes nos Estados estão sendo homenageados e são pessoas bem inferiores a ele, sem querer desmerecer ninguém. O Jorge Amado, vivo ainda, é homenageado na Bahia. O Câmara Cascudo, no Rio Grande do Norte. Mas, aqui, ninguém liga e nem tem gente do governo para dizer a quem visita Pernambuco: aqui é a casa do Gilberto Freyre. Mas quando os estrangeiros chegam, ficam encantados. Não temos governo que entenda de cultura e quando vão à Europa, fazem compras.

JC - Mas isso não faz parte da maneira de ser do pernambucano?
Madalena
- Oliveira Lima está aí: esta é a terra da inveja. Terra de pessoas que não querem ver ninguém importante aqui. Se morrer, coloca-se o pé em cima e pedra para ninguém ver mais. Só vivo, hoje, nesta casa aberta ao público porque tem dinheiro de gente de fora do Estado. Gente de São Paulo que me envia; o sergipano João Carlos Paes Mendonça que me ajuda e que ainda envia gente para ajudar. São pessoas que acreditam e que ajudam.

JC - Há dificuldades de conseguir as cópias das cartas de Gilberto?
Madalena
- Queria cópias dessas cartas, não precisam ser os originais, mesmo porque essas pessoas um dia possam querer vendê-las. Mas cópias apenas. Eu tenho os originais das cartas enviadas a Gilberto, que guardava tudo direitinho. Qualquer tipo de carta ele guardava, até dentro de livro.

JC - A fundação foi doada a quem?
Madalena
- Ao povo pernambucano, ao povo brasileiro. Não levamos nada, nem pratas, nem quadros, nem livros, nem escritos. Só algumas coisas que estavam dentro dos móveis, que não apareciam. Uma doação total da família. Eu vivo numa casa emprestada e já estou fazendo até algumas sugestões para quando eu morrer.

JC - A senhora, que viveu para ele e hoje vive por ele, gostaria de ser enterrada, um dia, ao lado dele?
Madalena
- Não sei se mereço isso, mas acho que o governo não vai deixar. Mas não me incomodaria nada. Acho que por ser ele uma figura que é, não acredito que deixem eu ficar ao seu lado porque ele era uma figura excepcional.

JC - Essa excepcionalidade em relação a Gilberto Freyre não foi sempre assim?
Madalena
- Não. Na USP, o Florestan Fernandes, que já visitou o Gilberto, fez uma campanha enorme contra ele e os alunos dele foram ler a obra de Gilberto por curiosidade, para ver se o que Florestan falava estava correto. E ficaram encantados com a obra. E o Florestan ficou na mão. O próprio Florestan, vendo isso, acho que decidiu vir visitar o Gilberto. Acho que ele sentiu isso.

JC - Como foi o relacionamento entre vocês dois?
Madalena
- Foi muito bom. Muitas vezes eu penso: Meu Deus, me dediquei tanto ao Gilberto que me afastei um pouco dos amigos. Hoje, estou procurando eles. Viajamos muito: três, quatro vezes por ano, e muitas vezes larguei os filhos com minha cunhada para viajar com ele. Me dediquei muito mais a ele que aos filhos, fiquei mais tempo com ele. Mas acho que não se dá valor às mulheres, mesmo que elas fiquem o tempo todo em casa.

JC - Mas ele dava valor?
Madalena
- Claro. E ele me dava inteira autoridade para resolver qualquer coisa em casa. Ele aceitava tudo o que eu fizesse, tinha inteira confiança. E o Fernando, meu filho, tem muito dele nisso, é muito parecido com o pai. Por isso tenho uma afinidade de pensamento com ele muito grande. Tem horas que digo: meu filho, fiz isso mas não sei se fiz certo. E ele diz: ótimo. Tudo o que eu faço ele diz que era o que ele queria que eu fizesse.

JC - O governo do Estado tem dado algum recurso para a Fundação Gilberto Freyre?
Madalena
- Me deu em uma ocasião, logo no início do Governo Joaquim Francisco, que disse que ia me dar isso e aquilo. Fui até ele pedir ajuda. Mas acabei fazendo uma malcriação grande quando, um dia, recebi uma carta de um secretário dele, Ricardo Couceiro (Habitação e Saneamento), dizendo que não podia fazer nada pela fundação. Voltei ao governador e disse a ele que foi ele quem disse que iria me dar, que não obriguei ele a me dar nada e aí então ele me deu. Fiquei danada da vida porque não havia pedido nada ao Couceiro. E como eu estou ficando muito malcriada ao 73 anos, completados há três dias...

JC - Como foram os últimos dias dele? Ele morreu no dia de seu aniversário.
Madalena
- Ele sofreu muito no dia de meu aniversário (18 de julho de 1987), até parecia que ele sabia e não podia dizer nada. Me lembro dos últimos dias: sem condições, ele me pedia papel e lápis, mas não podia escrever. E me aplaudia quando eu acertava o que ele tentava me dizer, sem poder escrever, sem poder falar. Foram dois anos terríveis em nossas vidas.

JC - Vocês parecem não ter sorte com governos. No Governo Arraes não houve ajuda à fundação. Agora, também não. A senhora não esperava mais apoio de um governo do PFL?
Madalena
- A esquerda sempre teve que Gilberto era anti-comunista; a direita, que ele era comunista. Ele era tudo. Tanta gente burra e ignorante que não sabia ver que Gilberto era isento a essas coisas. Ele tanto elogiava um esquerdista e um direitista, mas se tivessem valor. Era homem equilibradíssimo: escreveu Casa Grande & Senzala, Sobrados & Mucambos. Não era homem de um lado só. Tudo era muito equilibrado, ele nem queria pertencer a academias, não queria porque achava que ficaria muito preso, não poderia fazer uma crítica a amigos seus. Ele esperou as homenagens. E foi eleito para as academias mais importantes do mundo. E aceitou ser membro da pernambucana quando foi escolhido, mas eles não entenderam que Gilberto não era de se humilhar para entrar em qualquer canto. Eu achava que ele fazia muito bem. Sempre fui a favor dele nisso. Acho que uma pessoa do gabarito dele não vai pedir para entrar em uma academia, acho uma humilhação horrorosa. Um qualquer sim, mas ele não era um qualquer. Por que seria ele a pedir para entrar? Eles é que deveriam, se tivessem cabeça, saber quem colocar lá dentro. Estão colocando cada vez piores, ninguém sabe o que escreveram, de onde saíram, é uma tristeza. Às vezes fico envergonhada de ver como as academias estão caindo, não sei se é o nível intelectual. Gilberto nunca pediu nada, esperava que as pessoas dessem a ele o que ele merecia. Por isso foi eleito para as melhores academias do mundo.

JC - É só no grito que se consegue alguma coisa no Brasil?
Madalena
- Hoje, se você não disser as coisas como devem ser ditas, vão dizer que você é boboca. Tem de abrir a boca e fazer escândalo. E digo isso para quem eu encontro, não tenha dúvida disso. Quem não quiser me ouvir, agora, com meus 73 anos, que saia de perto. Não vou ficar com isso dentro, isso me faz mal, falo o que tiver vontade, seja ele quem for. Só respeito o Papa.

JC - A senhor ainda viaja?
Madalena
- Agora, uma vez por ano. Passei cinco anos sem sair do Recife. Fui à Europa, Canadá e EUA. Mas acho que estou ficando velha, como algumas colegas de colégio: acabadas, velhas. Mas é gente que se entrega. Eu, não.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.03.2000
Quarta-feira