ESPECIAL GILBERTO FREYRE X
Do
modo feliz de ser cientista por Fátima Quintas
Os escritos de Freyre
exaltam a noção do tempo fluente e confluente e sugerem
a interdisciplinaridade como a viga mestra do pensar
sociológico, esse apoiado em fecundas veredas
transmetodológicas capazes de possibilitar a
interpretação da sociedade brasileira. Não se aliam a
fórmulas simétricas, a receitas elaboradas ou
pré-fabricadas, tampouco se furtam a críticas, sendo,
ele próprio, crítico de si mesmo. Seus prefácios que o
digam.
O escancarar para novas
concepções lhe valeu ferrenhos ataques, imcompreendido
no seu invejável traçado conjuntural. A
interiorização do saber-se incompleto e do aspirar a um
alongamento em si mesmo emendou-o em remissões de
passado e prospecções de futuro.
A incompletude suscita um
vasto espectro de dubiedades. Sua inquietação diante do
fato sociológico é tão patente que não se abstém dos
mínimos detalhes; submerge nas mais fantásticas
criptas, contanto que a realidade transpareça límpida
para a captação mais adequada. E, assim, as estradas se
alargam com o objetivo de entender interagindo. Uma
relação quase mimética a esquadrinhar os círculos da
complexidade e não apenas a esboçar as molduras da
simplicidade. O que é simples é de extrema valia, mas
isoladamente não lhe basta. É o primeiro pesquisador,
no Brasil, a utilizar documentos pessoais nos estudos
antropológicos.
A sua metodologia
expande-se e passa a ser a grande fonte de recursos. Não
se satisfaz com o "vitorianismo científico" da
época. Invade áridos desertos para extrair o sumo da
técnica. Talvez a antitécnica, por fabricar
contrapontos capazes de atomizar e pulverizar o
fenômeno, e não unificá-lo em redomas intocáveis.
Destarte, não há em
Freyre um sentido "obstinado" de teorização.
Primeiro, porque ele não conclui; logo, não constrói
pressupostos ou profecias apocalípticas. Segundo, porque
toda teorização é passageira e tende a encastelar-se
em teoremas aritméticos. Os ajustes da realidade à
teorização são tantos que o modelo de idéias acaba
por desvirtuar o fenômeno, encaixando-o em resultados de
gabinete porventura antecipadamente previstos. Se não do
todo, de parte do todo. Por fim, teorizar o humano é
decodificá-lo em versões pouco decodificáveis.
A análise vertical deve
preponderar na ciência humana e conciliar o que há de
natural e o que há de cultural na sociedade. A esse
congraçamento, Freyre chama de Sociologia Mista ou
Mestiça. A tendência quase "anfíbia" de
traduzir o fenômeno diz de um cientista avesso ao Tratado
Sociológico. Muito mais inclinado ao Ensaio, pelo
que dele se depreende de leveza e de
"inconclusões". O Tratado é duro, equivale à
marcha prussiana. Possui a rigidez militarizada. O Ensaio
admite ilações e coaduna-se a temperamentos
inquiridores por assentar-se em visões perceptivas e
criativas, ambas ausentes da pobreza do que se declara
definitivo.
O absurdo, por vezes até
ionesquiano, parace a Freyre o ângulo que mais favorece
o pensar. E nada melhor e mais saudável do que pensar o
fato apreendendo-o, ao invés de descrevê-lo na
"superficialidade" do apenas quantitativo. As
cifras tornam-se incipientes para traduzir as angústias
e os prazeres do homem. Freyre assume direções outras,
bem mais pródigas em intuições. Múltiplas, sem
preconceitos. A sondar, com instrumentos variados, a
realidade que se mostra qual um espectro irisado do
social.
Não se pode dizer que
Freyre tenha postulado escolas acadêmicas, enaltecendo
naipes paradigmáticos de corredores universitários.
Procurou sempre fugir dos patrulhamentos ideológicos
para reverenciar o espírito indagativo, a criação, os
vôos naturais da liberdade.
O que não se pode negar,
todavia, na sua indisciplinada personalidade, é a força
do scholar espontâneo que se revelou, no sentido de
instigador de temas, de gerador de idéias, de
reformulador de métodos. Aí, ninguém duvida: Gilberto
exerceu influências poderosas. Influências, para
alguns, até mesmo anárquicas - ele próprio se
autodefine como anárquico construtivo - na formulação
de um pensamento apoiado em vetores irreverentes e - por
que não dizer? heréticos de um pesquisador
"desconfiado".
Não se deixou escravizar
por rigores epistemológicos, jamais permitindo que
qualquer tirania - nem mesmo a da ciência - lhe cegasse
os horizontes. Com novas ferramentas, lavrou o
conhecimento através de saberes flexíveis e
relativizados.
A junção dessas
dimensões aflora na inovação gilbertiana do método.
São aspectos que não se apartam enquanto análise de
conteúdo. Fazem parte do todo e esboçam a natureza
germinadora da obra.
* Fátima Quintas é
antropóloga
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