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ESPECIAL GILBERTO FREYRE XI
O velho entende mesmo de povo

por Severino Vicente da Silva

No Brasil todos já nos encontramos com Gilberto Freyre. Poucos o encontraram pessoalmente. Alguns mais mantiveram contato com ele através de seus livros. Um número maior o conheceram nas páginas de jornais. A maioria pelas palavras dos outros que, de algumas das formas anteriormente mencionadas, o haviam conhecido.

Pessoalmente meus primeiros contatos com Gilberto Freyre ocorreram ainda no curso, então chamado de ginasial. Um dos meus professores, seu nome era Kleber, o mencionou em uma aula a respeito da colonização portuguesa no Brasil, dizendo que ele apresentava uma explicação a respeito das disposições do povo brasileiro. Mais tarde ouvi que ele, Gilberto Freyre, não era muito confiável, pois sua postura de apoio à ditadura militar era contrária a de muitos, nos meios que eu freqüentava. Entretanto, todos mencionavam os seus livros, especialmente Casa Grande & Senzala, como um leitura importante a ser feita. Naquele período eu recebi de um amigo, Samuel Freitas, um exemplar de uma edição feita pelo governo do Estado. Mas as opiniões de Gilberto sobre qualquer assunto era discutidas, nos meios que eu freqüentava, sempre com uma conotação negativa, especialmente por suas tiradas a respeito de Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife. Gilberto e Nelson Rodrigues não perdiam oportunidade de demonstrar o apreço pela ditadura militar, utilizando o Dom como contraponto. Mais tarde publicou-se um livro com título fazendo uma exegese sobre essas diatribes de Gilberto em torno do "bispo vermelho", como Carlos Lacerda havia batizado o então bispo auxiliar do Rio de Janeiro.

Tenho, para mim, que o Porto de Suape demorou tanto a deslanchar por conta de um livreto publicitário que trazia um artigo do homem de Apipucos. Hoje parece evidente que devemos ter cuidado quando misturamos debate sobre idéias com debates sobre pessoas. Gilberto foi sempre acusado de defender uma democracia racial no Brasil e, por isso jamais foi perdoado, enquanto Sérgio Buarque de Hollanda, com o seu "homem cordial" foi pouco criticado. Intelectuais paulistas conseguiam, durante algum tempo, falar da produção cultural do Brasil sem mencionar a contribuição de Gilberto Freyre. Muitos ficamos abismados com o livro de Carlos Guilherme Mota. Hoje esses mesmos professores têm suas salas de aulas repletas de alunos desejosos de serem introduzidos no pensamento e na obra daquele que se correspondia com Lucien Febrve, leitura obrigatória de tantos que ainda não leram com o devido respeito as intuições e as idéias do "Mestre de Apipucos".

Para mim, interessante foi que, meu contato mais aproximado com a obra de Gilberto Freyre ocorreu no Instituto de Teologia do Recife, tema de algumas linhas pouco respeitosas de Gilberto. O professor de antropologia cultural, o alemão Michael Bergman, nos levou à leitura e debate do valoroso livro Casa Grande & Senzala. Nas aulas de história da cultura recebidas do mestre Amaro Quintas, pude verificar o quanto de respeito havia pela contribuição de Gilberto para sua vida e suas pesquisas. O mesmo devo dizer dos ensinamentos recebidos nas palestras ditas por Vamireh Chacon, quando também lecionava no ITER, no período em que funcionava na Faculdade de Filosofia do Recife. Eram os anos imediatamente após o Ato Institucional de número cinco. Um outro professor que nos enviava para Gilberto Freyre, era o belga Eduardo Hoornaert. Ou seja, no mesmo instituto onde ensinava um dos alvos do Gilberto Freyre e de Vandenkolk Vanderley, o padre José Comblin, havia um respeito, um interesse pelas pistas intelectuais que ele indicara. Tudo isso marcou-me de tal forma que, quando fui solicitado para encaminhar, através da leitura, alguns padres que chegavam ao Brasil, jamais deixei de colocar na bibliografia as obras do temido e odiado Gilberto. Chocou-me, algum tempo depois, quando novos professores do ITER, que estudaram na Europa e aqui chegaram com ares de progressistas, escandalizavam-se ao notar que Gilberto se encontrava nas bibliografias de meus cursos. Um deles, que posteriormente veio a estudar psicologia social, segredou-me: "realmente o velho entende do povo brasileiro".

Mas, até então, jamais o tinha tido contato direto com Gilberto. Meu único encontro com Gilberto foi durante uma semana de estudos promovida pelo Colégio e Curso Radier, que ocorreu no hoje Teatro Valdemar de Oliveira. No dia de sua palestra, sofremos um atraso de meia hora. Parece que o "Sábio de Apipucos" não queria chegar antes da imprensa. É que, penso eu, ele sofria da mesma doença que acusava ao arcebispo: ânsia de palco, síndrome de estrela. Entretanto, encantou-me, naquele dia as suas indicações para a utilização das danças populares brasileiras como motivo para o balé clássico. Pareceram-me bastante interessantes os seus comentários sobre a anatomia dos pés das bailarinas e dos movimentos inusitados dos corpos jovens no frevo, na ciranda, nos demais folguedos típicos da cultura popular. Mas, causou-me espanto de como ele parecia olhar a todos por cima dos ombros. Ele gostaria de ter sido um nobre e, quem sabe, não morreu lamentando o fato de seu avô não querer ter sido barão. Já pensaram como seria Gilberto Freyre com o título herdado, além do título concedido pela rainha da Inglaterra? Este título inglês até jovens cabeludos e roqueiros recebem. Não que Gilberto não gostasse de jovens, ou que não tivesse jovem o seu espírito, como o comprova uma entrevista ontológica concedida à Playboy, nos seus primeiros dias de revista editada no Brasil. É que ocorreu com certos títulos da nobreza anglicana o mesmo que tem ocorrido com o prêmio Nobel da Paz.

Gilberto Freyre foi vítima de muitos preconceitos. Uns favoráveis e outros desfavoráveis. Jovem inteligente e talentoso, devia sentir-se bem diferente de seus contemporâneos que o tinham como um quase como um guru. Jovem envolveu-se em política e, por sua lealdade, confrontou-se com a Revolução de Trinta na trincheira derrotada. Exilado, foi quase um dândi, como Joaquim Nabuco, uma admiração fecunda e permanente. Amigo de Oliveira Lima, por essa amizade tinha que contrapor-se à diplomacia dominante, a do Barão do Rio Branco. Descobriu a África pelos carinhos portugueses e não pelos caminhos trilhados pelo mestre José Honório Rodrigues, uma visão mais objetiva. Parece que o desejo de governar Pernambuco não o deixou perceber que a ordem e o progresso pretendido pelo movimento de 64 estava mais para Nova Iorque do que para Apipucos e adjacências.

Gilberto gostava de falar de si mesmo. Quem não gosta? Mais do que gostar, Gilberto deleitava-se consigo mesmo, com seu licor de pitanga, com suas tiradas inteligentes, com o respeito que lhe tinham. Neste centenário, quando suas obras estão sendo reeditadas, devemos falar de Gilberto, de sua obra, de suas contribuições. Precisamos vê-lo como um homem, filho do seu tempo, de sua classe social, o que lhe impediu de ser de todas as classes. Aliás este é um impedimento que todos temos. Mas vamos lembrar Gilberto, não devemos endeusá-lo. Cuidemos apenas para que suas contribuições não se percam, sabendo que algumas delas estão superadas, outras o serão, como é próprio de toda obra científica e humana.

* Severino Vicente da Silva é professor da UFPE

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Jornal do Commercio
Recife - 15.03.2000
Quarta-feira