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ESPECIAL GILBERTO FREYRE XII
Marujos mulatos em Nova Iorque

por Antonio Motta

Um dos velhos axiomas cultivados até bem pouco tempo pela Antropologia é que o olhar etnográfico, igualmente a história e a sociedade que o acomodam, só poderia de fato existir como tal desde que afastado, senão fisicamente, pelo menos culturalmente do objeto ao qual ele se refere. Ou seja: longe pela cultura e perto pela geografia, conforme apregoa um dos corolários mais conhecidos de Claude Lévi-Strauss, difundido por volta da década de sessenta.

No caso de Gilberto Freyre, uma perspectiva oposta de olhar já se delineava espontaneamente nos anos trinta, cujo axioma se poderia assim resumir: perto tanto pela geografia quanto pela cultura de seu próprio país. Sob esse ângulo, o que define a noção de outro ou de alteridade em Gilberto Freyre é, em última instância, a interioridade da observação etnográfica vis-à-vis o objeto de estudo. Com efeito, a experiência etnográfica por ele realizada foi freqüentemente marcada pela sua proximidade físico-cultural com o objeto contemplado. É esta proximidade que, em diferentes momentos de sua trajetória intelectual, passou a comandar o protocolo de sua observação e percepção da realidade e com ela, sem dúvida, a noção de alteridade.

Neste sentido, uma de suas primeiras experiências etnográficas decisivas para o amadurecimento posterior de sua reflexão sobre a mestiçagem no Brasil, creio eu, ocorreu durante o inverno de 1921, quando Freyre era ainda estudante na Universidade de Columbia. Distante fisicamente e culturalmente de sua terra, ao que tudo parece, ele vivenciaria de fato não somente a primeira experiência envolvendo a noção de alteridade, como também exercitaria as principais modalidades reivindicadas pela prática etnográfica, isto é, ver e olhar, compreendendo a observação e, posteriormente, a organização textual do visível. O acontecimento encontra-se anotado no seu Diário Íntimo da seguinte forma: “Vi uns desses dias marinheiros de guerra do Brasil caminhando pela neve do Brooklin. Pareceram-me pequenotes, franzinos, sem o vigor físico dos autênticos marinheiros. Mal de mestiçagem?”

Doze anos depois, já no Brasil, Freyre evoca o mesmo acontecimento, desta vez no Prefácio à primeira edição de Casa-Grande & Senzala, porém, reescrevendo-o de uma outra maneira: “Vi uma vez, depois de mais de três anos maciços de ausência do Brasil, um bando de marinheiros nacionais - mulatos e cafusos - descendo não me lembro se do São Paulo ou do Minas pela neve mole de Brooklyn. Deram-me a impressão de caricaturas de homens. E veio-me à lembrança a frase de um livro de viajante inglês ou americano que acabara de ler sobre o Brasil: “the fearfully mongrel aspect of most the population”. A miscigenação resultava naquilo.

Como se pode notar, as duas descrições, tanto no Diário Íntimo, de 1921, quanto no referido Prefácio, de 1933, são finalizadas por diferentes enunciados: o primeiro é interrogativo e o segundo conclusivo. Este último costuma instaurar uma efêmera ambivalência no leitor, supondo este encontrar um certo etnopessimismo da parte do autor de Casa-Grande & Senzala.

Quando desfeita a impressão inicial, outros elementos da questão devem ser reconsiderados. Vejamos alguns deles.O conteúdo substancial da experiência etnográfica, implícito em anotação do Diário Íntimo, datado de 1922, revela a existência de um fato etnográfico incontestável: a mestiçagem brasileira, que a partir daquele momento já começava a assumir, para Freyre, a própria dimensão da alteridade.

O primeiro aspecto que se pode reter da cena, por ele evocada, é o ato descomprometido da visão. Diferente do olhar, o ato de ver não implica apenas estar-se atento a alguma coisa, mas também estar-se desatento ou, ainda, deixar-se aproximar do fortuito ou inesperado. Depois de três anos afastado da sociedade de origem, o contato imprevisto com a alteridade mestiça, visualizada através dos marinheiros, acabaria lhe provocando algum tipo de “estranhamento”.

A apreensão inicial do acontecimento inesperado opera-se em função tanto do deslocamento espacial quanto temporal, no momento mesmo em que a cena se desenrola: “mestiços brasileiros” em território norte-americano. Ora, aqui parece residir um dos aspectos mais significativos de sua experiência etnográfica.

Afinal, ao contrário de confrontar a alteridade mestiça dentro do próprio país, Freyre se encontrava diante de uma situação inteiramente inusitada: é que a alteridade mestiça, representada pelos marujos, não somente o intrigava pela sua diferença como também, e paradoxalmente, por ser visualizada ao mesmo tempo de perto, em solo norte-americano, onde ele se encontrava, e a milhares de quilômetros de distância do contexto de origem, no qual o fenomêno da mestiçagem fora então produzido.

Tal situação torna-se ainda mais significativa pelo fato da descontextualização espaço-temporal momentânea: marinheiros mestiços que descem de navios brasileiros e caminham ziguezagueantes pela neve alva e molenga de Brooklyn. Ao que tudo indica, tal situação fora por ele percebida através de uma secreta e efêmera ambivalência: repúdio e fascínio. É também provável que tal sentimento tenha sido motivado pelo deslocamento de elementos visuais já familiares e interiorizados por ele no Brasil, antes de sua partida para os Estados Unidos.Desta vez, porém, estes mesmos elementos, representados pelo fenômeno da mestiçagem, aparecem reinseridos numa paisagem estrangeira e invernal, onde no plano da percepção instantânea do olhar (depois de uma prolongada ausência do país) predominam o efeito de contraste entre a brancura da neve e a pele escura, parda ou cafusa dos marujos, ou, ainda, o efeito do claro-escuro produzido por figuras ou imagens em movimento.

Assim, é possível que o fenômeno sensorial tenha conduzido Freyre a enxergar momentaneamente os marinheiros apenas como simples “caricaturas de homens”, ocorrendo-lhe posteriormente, quando escrevia já no Brasil o referido Prefácio, em 1933, associá-los a uma imagem clichê, concebida pelo viajante norte-americano Charles Samuel Stewart, no livro intitulado Brazil and La Plata: The Personal Record of a Cruise, publicado em 1856. Trata-se de frase depreciativa e que se presta para múltiplas interpretações: “the fearfully mongrel aspect of most the population”, ou seja, “o aspecto horrivelmente viralata da maioria da população”.

Embora produzidas em contextos diferentes, situação análoga àquela experimentada por Freyre, em Nova York, fora uma outra, também ocorrida imprevistamente em zona portuária do Rio, em 1908 (portanto, mais de um decênio antes), vivenciada pelo escritor carioca e mulato, Lima Barreto. Exatamente no momento em que a famosa questão racial ocupava ainda um lugar de destaque entre os principais representantes da intelligentsia nacional. O referido episódio encontra-se descrito no Diário Íntimo do escritor carioca, compreendendo o período de 1900 a 1921, somente publicado em 1953, reeditado em 1956 com Prefácio elucidativo de Gilberto Freyre.

Mas ao contrário do sentimento causado no então jovem estudante de antropologia e sociologia, em Nova Iorque, a experiência do escritor carioca transcorrera a partir do confronto com a alteridade estrangeira: desta vez, marujos norte-americanos e europeus em território mestiço.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.03.2000
Quarta-feira