ESPECIAL GILBERTO FREYRE
XIII
O
desconforto de não ser branco Bastante confessional, a
descrição de Lima Barreto, datada de 24 de janeiro de
1908, portanto em pleno verão nos trópicos, evoca a
chegada de esquadra norte-americana, em visita ao porto
do Rio de Janeiro. Trazia com ela uma variada
tripulação de marinheiros de diferentes nacionalidades:
norte-americanos, ingleses, franceses, italianos, turcos,
alemães, sem esquecer de enfatizar entre eles a
presença de alguns poucos marinheiros negros, porém,
chamando logo a atenção para seus aspectos atléticos:
bem postos e fortes. Como se pode notar,
impressão inversa daquela causada em Gilberto Freyre ao
visualizar, na zona portuária nova-iorquina, apenas os
marujos brasileiros como mestiçozinhos
desajeitados e nada atléticos, ou ainda,
pequenotes, franzinos, sem o vigor físico dos
autênticos marinheiros.
O fascínio de Lima
Barreto diante da profusão de imagens etnicamente
diversas da sua, e da maioria de seus compatriotas
mestiços, encontrada nas ruas do Rio, o levaria, de
forma bastante pessimista, a refletir sobre a sua
própria condição de mulato brasileiro, interiorizando
um forte sentimento depreciativo em relação a si
próprio. Inclusive chegando até mesmo a se reconhecer
como uma simples caricatura de homem, quando
comparado aos atributos físicos exibidos pelos
marinheiros anglo-saxônios. No seu Diário Íntimo,
encontra-se registrada, nas páginas 90-91, da primeira
edição, a seguinte nota: Observei fisionomias.
Algumas lindas ; nunca vi nas mais lindas mulheres
brancas daqui o tom doce de uma fisionomia de marinheiro
que me caiu sob os olhos. Entre nós, as fisionomias são
mais secas, contraídas, cheias de fogo, mas não têm a
limpidez dessas fisionomias saxônicas, que a gente vê
nas reproduções dos quadros dos pré-rafaelistas. Há
alguma coisa de primitivo nelas, de um primitivo sem
selvageria, um sentimento do além, do desconhecido,
visto por anjos delicados. Os selvagens são sempre
graves, nós somos sempre graves...
Ao lamentar não possuir o
mesmo ar de arcanjo que o marinheiro
dólico-louro lhe fizera ver, o escritor carioca
desacreditava também a sua verdadeira alteridade
mestiça, desabafando no seu Diário Íntimo o
desconforto e infortúnio de não ser branco.
Aquele sentimento desconcertante, o de ser um outro
diferente do europeu, vivido em maior intensidade por
Lima Barreto, mas de certo modo também compartilhado em
diferentes épocas por Silva Alvarenga, André Rebouças,
José do Patrocínio, Barão de Cotegipe, Nilo Peçanha,
Tobias Barreto, Cruz e Souza, Luís Gama, Machado de
Assis, Raymundo Nina Rodrigues, Manuel Querino e tantos
outros, seria gradativamente transformado por Gilberto
Freyre em objeto de estudo.
No caso de Freyre, a
experiência do visível, vivenciada no inverno
nova-iorquino de 1921, começava posteriormente a ser
enxergada e descrita como um fato cultural e não apenas
racial, como havia acreditado o escritor carioca e outros
intelectuais da época. A cena registrada por Freyre em
1921 servirá no Préfacio à Casa-Grande & Senzala,
em 1933, como ponto de partida para a escolha e
construção epistemológica de seu próprio objeto de
estudo. Ao se utilizar propositadamente da referência
depreciativa mongrel, Freyre, sem dúvida,
projeta-se na figura do viajante Stewart, como também
poderia ter optado por buscar imagens do gênero em
relatos de viagens de outros autores estrangeiros,
notadamente do século XIX, como: Louis e Ellisabeth
Agassiz, Carl Von Koseritz, Carl Von Spix, Maria Graham,
John Luccock e tantos outros. Basta lembrar a primeira
impressão causada ao conde françês, Arthur Gobineau,
quando de sua chegada ao Brasil, em 1845, no porto do Rio
de Janeiro, em plena festa de carnaval. Ao ver as
primeiras imagens exibidas na face da população
carioca, não se contendo de espanto, o autor de
Essai sur l'inégalité des races humaines resolvera
compará-las a macacos: tout le monde est laid ici,
mais laid à ne pas croire, des singes, ou seja,
aqui todo mundo é feio, tão feio que nem se pode
imaginar, verdadeiros macacos.
As imagens de macacos ou
de viralatas, atribuídas à população local,
evidentemente, hoje só têm importância enquanto
registro histórico: vestígios de uma antropologia
física (ou biológica) que reduziu o homem concreto
unicamente aos determinismos de sua classe zoológica,
raça, pulsões, genes, etc. No caso de Freyre, a
referência de mongrel, como poderia ter sido
também a de monkey, serve apenas como imagem
contrastiva, de puro efeito retórico, para não tardar,
logo em seguida, a realçar a sua verdadeira condição
de nativo que se deixara trair pelo sentimento nacional
de um olhar cúmplice, compartilhado com a alteridade
autóctone, mestiça, no desejo de entender e decifrar
também a sua própria alteridade. Sobre isto vejamos o
que ele diz : (...) Faltou-me quem me dissesse
então, como em 1929 Roquette Pinto aos arianistas do
Congresso Brasileiro de Eugenia, que não eram
simplesmente mulatos ou cafusos os indivíduos que eu
julgava representar o Brasil, mas cafusos e mulatos
doentes.
A declaração de
princípio é escrita em 1933 e parece complementar ou
mesmo justificar a hesitante indagação registrada em
1921: Mal de mestiçagem?. A partir de então
o seu objetivo primordial fora o de não somente se
convencer, ele próprio, do contrário, mas sobretudo
demonstrá-lo empiricamente. E com isso, ambicionava
passar em revista todo um imaginário sócio-cultural
local ainda comprometido na época com a noção de
hierarquia entre raças: umas reputadas superiores,
outras inferiores. Assim é que em 1933, reivindicando-se
sociológo e antropólogo com formação especializada em
Columbia, sob forte influência de Boas, serviu como uma
espécie de porta-voz oficial local: enquanto a raça é
apenas uma questão de hereditariedade, a cultura é uma
questão de tradição. Aplicar a diferença conceptual
entre raça, cultura e civilização dentro do próprio
país tornar-se-ia meta principal por ele perseguida nos
anos subseqüentes de retorno a seu país. Com isso,
Gilberto Freyre desacreditava de uma vez por todas o
argumento de complexos de raças (inferior e superior),
as diferenças psicológicas inatas (elementares ou
desenvolvidas) e, finalmente, a idéia de estádios
culturais inscritos numa ordem seqüencial e finalizada
(rudimentar e evolutiva). E, não é nenhuma novidade: o
secreto motor daquilo que constituía para ele a base
singular de formação da sociedade brasileira, em
última instância, repousava sobre a miscigenação
cultural.
* Antonio Motta é
antropólogo
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