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JOELMIR BETTING

Ainda não deu liga

Relançar o Mercosul. Palavra de ordem da chancelaria brasileira e da diplomacia argentina. Dentro da lógica da superação de impasses comerciais, jurídicos, culturais e políticos - a corrida de obstáculos que normalmente desafia a carpintaria de blocos econômicos integrados por países heterogêneos e de interesses não raro conflitantes. De resto, integração por decreto, negociada em gabinetes fechados e acionada de cima para baixo. Sem plebiscito.

A Europa que o diga. Ela gastou meio século de saliva em nove idiomas para desembarcar na moeda (quase) única de um mercado (quase) único.

Agora, em tempo de consolidação das políticas de convergência macroeconômica, lastro virtual do euro.

O Mercosul dos Quatro (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), a caminho do Mercosul dos Nove (Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela), ainda está na primeira fase de uma gestação de três ou quatro tempos. Para não dizer de três ou quatro décadas.

Pois enquanto metade dos formadores de opinião deplora a deterioração das relações bilaterais entre Brasil e Argentina (por onde trafegam 92% da massa crítica do bloco), a outra metade discute a concepção prematura de uma moeda única para acelerar a maturação do bloco.

Na prática, a integração faz água por todos os furos. A ruptura da banda cambial no Brasil não dá liga com a rigidez de carga cambial na Argentina. Da noite para o dia, o produto brasileiro ficou 50% mais barato no mercado argentino e o produto argentino 50% mais caro no mercado brasileiro. Em 14 meses de dispersão cambial, queda real de 34% no valor do intercâmbio intrabloco.

Com um efeito ainda mais traumático: a migração de empresas (e de projetos) da Argentina para o Brasil. Fenômeno ainda não quantificado, mas já dramatizado por parlamentares, empresários e sindicalistas argentinos. Em passeata, eles pedem uma parada técnica na operação do bloco. E os governos provinciais anunciam a adoção de pacotes tributários e financeiros para a atração e/ou a retenção de empresas e negócios estremecidos.

Eis o pano de fundo da rodada de negociações de três dias que termina hoje em Buenos Aires. Rodada que não consegue passar pelo mata-burros do (des)acordo automotivo. A trombada no meio da ponte começa pela duração do regime especial, antes da abertura total. O Brasil quer quatro anos e a Argentina exige sete.

Igualmente ainda não há consenso sobre o conteúdo nacional das peças e componentes por veículo montado. Nem sobre o trade balance - o quanto cada país pode vender ao outro em peças e carros.

Outra banda?

Que tal uma margem de desvalorização para o real? Acima dela, a Argentina aplicaria medidas compensatórias de comércio em defesa da produção nacional. Essa margem de tolerância seria de até 10% acima de R$ 1,80. Ou até R$ 1,98.

Brincadeira?

A proposta é séria. Esse balão-de-ensaio foi empinado terça-feira, na Casa Rosada, por Rodolfo Terragno.
Nada menos que o chefe do Gabinete de Ministros da Argentina.


Jornal do Commercio
Recife - 24.03.2000
Sexta-feira