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AVENTURA Litoral baiano preserva beleza que encantou os portugueses por Walter Garcia Terra à vista!!! Já passavam oito dias que não víamos qualquer sinal de continente, quando Cristiane, minha mulher, repetiu o grito dado pelos portugueses da esquadra de Cabral, há 500 anos. Eram quase 7h00 e a bombordo (esquerda do barco) podíamos ver o Monte Pascoal, sob o mesmo ângulo dos descobridores. Mais emocionante do que ver o Brasil por este ângulo, é constatar o estado aparente de preservação do litoral sul da Bahia. Ao chegar à Costa do Descobrimento de barco dá para entender a euforia de Pero Vaz Caminha, na carta enviada ao rei de Portugal Dom Manoel, principalmente porque muito pouco parece ter mudado. Quinhentos anos depois, visto do mar, o litoral verde ainda impera, e as poucas casas não passam de pequenos pontos camuflados entre os coqueirais. A vontade é aproximar mais, mas basta consultar as cartas náuticas (espécie de mapa para navegadores) para ver que a quantidade de recifes e bancos de areia trazem risco à navegação. Mesmo assim, decidimos arriscar. Algumas palavras pelo rádio e um morador da região vem com sua lancha, para nos servir de guia. Depois de meia hora de tentativas e manobras, chegamos à conclusão de que o melhor é seguir para Porto Seguro. Sem guias, cartas náuticas, ecobatímetro e outros equipamentos eletrônicos, que auxiliam na navegação, imagino o quanto deve ter sido difícil para Cabral tomar a mesma decisão. À entrada da cidade, uma escuna nos espera fora da barra, para nos guiar através do canal. Conduzimos o veleiro até a Cia do Mar (empresa que promove passeios náuticos na região) e atracamos com tranqüilidade. Depois de conhecer a visão dos portugueses, decido mudar o ângulo e buscar a ótica dos nativos. Começo a planejar uma caminhada de Caraíva a Porto Seguro. Uma aventura de 60 quilômetros que promete muita beleza. Os obstáculos já começam na viagem de ônibus para Caraíva. Na estrada, muita lama, buracos e pontes instransponíveis. Aos trancos, chegamos ao ponto mais próximo possível de Caraíva. São 20h, faltam apenas mais 300 ou 500 metros de caminhada na lama, chamar o barqueiro para nos levar à outra margem do rio Caraíva e atracar na vila. Com pouco mais de 500 habitantes, Caraíva é um deste pontos intocados que tenta achar seu filão no turismo ecológico. Não há rede elétrica no local, e a iluminação fica por conta de geradores, painéis solares, velas e lampiões. As praias quase desertas da região e a caminhada de 6 quilômetros para o sul até a aldeia indígena são programas atraentes, mas para alguns moradores locais o melhor mesmo é subir o rio em um barco a motor. "O rio é nosso maior tesouro. Mesmo depois de 14 anos morando em Caraíva, ainda gosto de subir de barco. É muito lindo", diz Hermínia Coacci. Como outras da região, Hermínia era uma turista que, voltando dos Estados Unidos, onde morou por dois anos, decidiu passar as férias na vila e foi ficando. Montou uma pousada e não fala mais em sair. O plano é desenvolver projetos de defesa do meio ambiente e incentivo à cultura. PRESERVAÇÃO Após passar cerca de 20 horas na vila, deixo Caraíva com a triste sensação de que ainda faltou muito o que conhecer. À medida que avanço pela praia, esqueço a tristeza. O estado de preservação da região é impressionante. Ainda são quilômetros e mar, praia e verde, como descreveu Caminha, intercalados por casas de pescadores ou grandes mansões. Após a praia do Satu, o mar bate diretamente contra paredões e somos obrigados a subir nas falésias, também citadas na carta do navegador português. A visão panorâmica confere um novo tom à beleza do local. Caminhamos cerca de duas horas pela mata e retornamos à praia na altura de Espelho, onde os recifes formam um barreira natural para as ondas, transformando o mar, próximo à praia, em uma enorme e tranqüila lagoa de água transparente e salgada. Durante todo o trajeto não falta sombra para se sentar, riachos para afogar o cansaço e pequenas lagoas de águas negras, além, é lógico, do mar, que se mostra quase sempre à disposição para um relaxante banho. Para quem não tem pressa, Espelho talvez seja a melhor opção de parada e pernoite. No local, é possível encontrar quartos em casas de pescadores por até R$ 6,00, fora da alta temporada, é lógico. Para os mais sofisticados, há, também, a opção de se alojar em Porto Espelho, pousada de ótima qualidade. No dia seguinte, entre banhos de mar e de rio e caminhadas, é bom programar a chegada em Trancoso para o meio da tarde, mas reserve alguns bons minutos para a foz do Rio do Frade. Em época de chuvas o volume de água aumenta e a correnteza fica bastante forte para arriscar uma travessia com mochila, material fotográfico e barraca às costas. A dica é requisitar a ajuda do barqueiro Torquato dos Santos, 72 anos, que vive há 45 num pequeno paraíso à foz do rio. Já em Trancoso, vale conhecer a terceira igreja do Brasil, o artesanato, um pouco da cultura e do ritmo do local. Fora da temporada, encontram-se quartos bons e limpos por até R$ 10,00 ( casal). DE VOLTA O próximo percurso, Trancoso-Arraial D'Ajuda, em caminhada direta, dura cerca de três horas. Devido às pedras existentes em alguns pontos, é bom que o passeio seja feito na maré baixa. Vale, também, reservar alguns minutos para a Lagoa Azul, que, de acordo com as crenças locais, tem poderes terapêuticos. O ponto final da caminhada é a balsa para Porto Seguro. A partir daqui voltamos ao mundo urbano e agitado. Porto Seguro é sinônimo de festa durante o dia e a noite. No final da manhã e à tarde, tem lambaeróbica, banana boat, demonstração e aulas de capoeira, escunas para Recife de Fora, Coroa Vermelha e Trancoso. À noite, muitos shows nas cabanas das praias, além da passarela do álcool e de festas em Arraial D'Ajuda. Haja fôlego!!!!! * O projeto Veleiro Repórter tem apoio da BCP Telecomunicações |
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