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CINEMA
O mundo pop das paixões

POR KLEBER MENDONÇA FILHO

Para um ensaio sobre paixões, Alta Fidelidade (High Fidelity, EUA, 2000), de Stephen Frears, é um filme bem divertido. As paixões aqui são relacionadas ao espírito, à carne e também à música, neste caso, do tipo pop. Baseado no best seller britânico de Nick Hornby, esta história é repleta de pessoas apaixonadas por outras pessoas, apaixonadas pela arte popular que comenta nossas vidas (a música) e as embalagens que as contém (os discos). Levando isso em consideração, o filme Alta Fidelidade poderia, ele próprio, ter nas suas veias um pouco mais do extremismo generalizado de seus personagens.

O enfoque é naquele tipo de homem que vai continuar sendo chamado de rapaz até os 40 e poucos anos, até que um dia, alguém, na rua, decide que ‘rapaz’ não se aplica mais. Rob (John Cusack) tem 30 e poucos, é o infeliz dono da Campeonato do Vinil, uma loja de discos raros em Chicago. Ele acaba de ser abandonado por Laura (Iben Hjejle), com quem viveu durante anos.

Ao contrário de Rob, Laura cresceu, segundo ela mesma, evoluiu na mesma proporção que a sua carreira. Laura não tem mais estrutura para ir trabalhar como advogada de tailleur e cabelo vermelho. Rob talvez fosse sem problema algum trabalhar desse jeito. Por isso, talvez, ficou obsoleto.

O problema, no entanto, não é só Laura. Rob é uma fita demo de praticamente todos os defeitos da nossa pobre raça Homem. Se está com alguém, quer estar com vários alguéns. Se está com vários alguéns, quer estar com aquele alguém. É freqüentemente um otário, e sabe disso porque, crédito para Rob, tem algum senso crítico ainda sobrando no seu corpo quebrado e alma partida. Já Laura é uma mulher, não brinca em serviço, principalmente porque já brincou em serviço nas mãos de Rob.

Triturado no fundo do poço e ainda cavando, Rob tenta controlar seus instintos homicidas bolando maneiras criativas de utilizar um aparelho de ar-condicionado contra o novo companheiro de Laura, Ian (Tim Robbins, calculadamente grotesco), além de domar a dupla de anormais que o ajuda na loja.

BARRY, O MALA – Essa dupla merece parágrafos especiais: Barry (Jack Black) é um poço de rancor que transforma sua auto-frustração em humor agressivo contra qualquer um (todos) que não desfruta do seu magnífico bom gosto musical e soberba forma de enxergar a vida. Barry/Black é uma das melhores coisas do filme, especialmente pelo desejo que ele desperta de quebrarmos uma caixa completa da Motown na sua cabeça. Sua humilhação de um pobre cidadão que queria comprar I just called to say I love You (de Stevie Wonder) viola regras básicas de direitos humanos.

O parceiro de Barry é Dick (Todd Louiso), outra felicidade, um tipo calmo, emotivo, sensível, que sabe o quanto seu vasto conhecimento de música pop é especial. A dupla de vendedores é deliciosamente real para todos nós que já freqüentamos assiduamente lojas de discos, livrarias ou locadoras de vídeo. Esse povo existe e Frears, excelente diretor de atores (Minha Adorável Lavanderia, Ligações Perigosas), parece deliciar-se coma dupla.

Esse, aliás, é ponto forte de Alta Fidelidade, seja o livro ou o filme. Foi articulado por alguém (Nick Hornby) que escreveu sobre o seu mundo. As observações são reais, ou parecem ter sido colhidas na realidade, lembrando o estilo do americano Cameron Crowe (Singles - Vida de Solteiro), que vem por aí no que promete ser um outro trabalho bem observado sobre o pop, Quase Famosos (Almost Famous).

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Jornal do Commercio
Recife - 24.11.2000
Sexta-feira